LAB – Capítulo 276

Novos canhões

Lucia foi ver Sua Alteza com os minérios em mãos, e com as palavras de Rouxinol ainda em sua mente. Na verdade, ela ficou chocada com a atitude calma mostrada por Rouxinol. Embora Lucia não entendesse exatamente o que era o amor, ela sabia que uma bruxa e um Príncipe nunca poderiam ficar juntos. Assim, Rouxinol não deveria esconder cuidadosamente seus sentimentos, bem no fundo de seu coração, ao invés de falar a verdade assim? Além disso, por que ela mesma, sendo apenas uma ouvinte, estava se sentindo toda sem graça e envergonhada?

Lucia estava do lado de fora da porta com todos esses sentimentos, mas ela respirou fundo, bateu na porta e entrou.

— Vossa Alteza, eu trouxe os minérios.

— Deixe-me ver. — Roland bocejou.

O Lorde de Vila Fronteiriça parecia o mesmo de sempre, só que agora ele estava com os olhos sonolentos, como se tivesse acabado de acordar de seu cochilo após o almoço. Ele estava encostado em sua cadeira de maneira habitual e falava com bastante tranquilidade, totalmente diferente dos outros nobres que Lucia conhecera. Ao vê-lo, ela se sentiu aliviada e tirou os minérios de sua bolsa, colocando-os sobre a mesa.

Depois que Lucia usou sua habilidade para decompor os minérios, havia alguns montinhos de pó quase idênticos. Alguns eram brancos, enquanto outros eram um pouco cinzentos.

Provavelmente, apenas o Príncipe poderia identificar o que realmente são, pois ele é bastante erudito. — Lucia pensou.

O Príncipe olhou para os minérios decompostos por um longo tempo franzindo a testa e pesando-os um a um na palma de sua mão. Então ele olhou para eles cuidadosamente sob o sol antes de finalmente acenar com as mãos.

— Bem, parece que vou ter que enviar para Kyle fazer alguns testes, a fim de identificá-los. Enquanto isso, você pode continuar praticando sua habilidade, e se tiver alguma dúvida, pode perguntar a Anna.

O quê? Nem mesmo Sua Alteza pode identificar o que é? — Lucia pensou, baixando a cabeça e respondendo:

— Sim, Vossa Alteza.

Quando ela estava prestes a sair do escritório, Roland a chamou de volta.

— Lucia, a propósito, você foi muito bem na avaliação. Ficou em nono lugar com sessenta e oito pontos. Não é fácil para você ter esse desempenho depois de apenas um mês de estudo, então continue se esforçando para continuar com esse desempenho. E…  — Ele fez uma pausa e continuou — Espero que Ling também possa participar da próxima avaliação.

— Sim, Vossa Alteza. — Lucia disse bastante animada.

Depois que a menina se curvou toda feliz e saiu da sala, Roland voltou a olhar para os minérios decompostos em sua mesa e suspirou. Ele ainda estava pensando de forma ingênua, pois acreditava que, se Lucia os decompusesse, ele poderia descobrir quais elementos e minérios existiam nos depósitos minerais da mina da encosta norte. No entanto, a realidade o fez perceber a enorme lacuna de conhecimento que existia entre a engenharia mecânica e a geologia. Essas pedras acabariam por se diferenciar em três ou quatro tipos de metal. Embora o minério fosse predominantemente único, todos pareciam quase idênticos em cor e forma. Por exemplo, ferro, alumínio, magnésio e potássio eram metais brancos prateados em seu estado mais puro. Era muito difícil distinguir a olho nu. Exceto o potássio, que se oxidaria facilmente em contato com a umidade do ar.

É melhor eu pedir ajuda ao Kyle, em vez de perder meu tempo aqui. Afinal, as reações químicas podem verificar as propriedades do material adequadamente, e é muito melhor do que eu apenas ficar tentando adivinhar. — Roland pensou.

Depois de terminar isso, Roland pegou um pedaço de papel e começou a planejar como a vila deveria lidar com os próximos Meses dos Demônios.

O verão estava chegando ao fim, deixando apenas os três meses de outono para ele se preparar. Ele não deveria apenas se preparar para defender-se contra as bestas demoníacas ao oeste, mas também deveria estar ciente do que Timothy e a Igreja estavam fazendo ao leste. Em comparação com o ano passado, a população e a renda sob seu governo aumentaram acentuadamente. A produção de ferro aumentava gradualmente, e ele ainda tinha uma dúzia de bruxas a mais que no ano passado. Ele estava completamente confiante em sua capacidade de tornar a Região Oeste insuperável.

Com base na experiência de combate do ano passado, a maior ameaça à muralha da vila foi, sem dúvida alguma, as bestas demoníacas híbridas que tinham uma forte armadura, dificultando a penetração das balas. Ele até poderia usar explosivos quando as bestas híbridas se aproximassem ou enviar as bruxas para lutar fora da muralha. No entanto, ambas as estratégias eram bastante arriscadas.

Além das bestas demoníacas, a maioria dos inimigos que Roland encontrou foi de cavalaria e infantaria, logo, seu exército ainda não havia enfrentado, na prática, as armas de cerco desta era. Se seus inimigos fossem capazes de construir catapultas de torção[1], ou tivessem alguma arma ainda mais avançada, Roland enfrentaria sérios problemas. Afinal, o processo de limpar, colocar pólvora e depois o projétil em um canhão era muito demorado e a taxa de disparo era bastante lenta. Além disso, era comum o projétil cair quando os soldados tentassem carregar o canhão.

Portanto, era crucial o desenvolvimento de um novo tipo de canhão mais poderoso. Roland ponderou e escreveu no papel as características que ele buscava no novo canhão.

Em primeiro lugar, o novo canhão deveria ter alcance e potência suficientes para penetrar a carapaça de bestas demoníacas híbridas a 1 km de distância. Ele também precisava ser recarregado pela parte de trás e deveria ser ajustável, em termos de ângulo de disparo, com bastante facilidade, para que a taxa de disparo aumentasse significativamente. E por último, o novo canhão precisaria ser adaptável, economizando recursos, tempo e pesquisas. Por exemplo, ele poderia servir para defender a vila e suprimir os inimigos, mas também deveria ser acoplável em navios como a principal arma para as canhoneiras[2] de águas rasas no futuro.

Portanto, deveria ser uma espécie de artilharia pesada com um grande calibre e um longo cano.

Roland rapidamente se lembrou dos poderosos canhões de 38 cm[3], que poderiam ser acoplados em um navio de guerra e possuíam um alcance de dezenas de quilômetros. Seus projéteis poderiam abrir imensos fossos, devido à explosão ao atingirem o chão. Entretanto, ele rapidamente rejeitou essa ideia irrealista. Embora não houvesse nenhum problema em sua fabricação, com os minérios disponíveis na mina, Roland tinha certeza que os canhões não suportariam a carga do disparo, podendo até mesmo explodir. Além disso, se aumentasse a espessura do canhão em demasia, ele não teria flexibilidade de transporte e perderia rapidamente o seu valor.

Atualmente, a vila poderia produzir, no máximo, ferro forjado com alta pureza e aço comum, então eles deveriam ir com calma.

Roland finalmente decidiu usar o calibre de 152 milímetros, um número sagrado.[4]

Diferente dos canhões utilizados até agora, cujo carregamento dos projéteis era feito pela boca, o novo canhão seria carregado pela culatra. A culatra do canhão teria uma trava vertical. Os soldados puxariam a trava para baixo e carregariam a munição na câmara do canhão, de modo que ao subi-la, a trava evitaria o disparo pela culatra. Comparado a uma trava de culatra em espiral e uma trava de culatra horizontal, a trava vertical permitia um carregamento mais rápido, e seu princípio também era muito simples, sem falar que Roland já sabia o projeto de cor.

No entanto, se ele quisesse implementar o disparo rápido, o canhão precisaria ser equipado com um mecanismo de recuo, que em termos simples assemelhava-se a dois tipos de bomba de bicicleta, uma a óleo e a outra a mola ou a gás. Devido ao recuo, o tubo do canhão pressionaria contra os dois tubos e comprimiria simultaneamente o óleo e a mola. O óleo serviria para amortecer o recuo, enquanto a mola armazenaria a energia, empurrando o canhão de volta à sua posição original depois que o projétil saísse pela boca[5].

Finalmente, faltavam as munições. Já que Roland estava aprimorando os canhões, naturalmente, ele também precisaria aprimorar sua munição. Os projéteis de ferro sólido ou metralhas não iriam mais servir, de modo que ele decidiu desenvolver dois tipos de munições ao mesmo tempo. Um tipo seria como a munição dos fuzis de repetição, só que em tamanho maior, enquanto a outra seria uma espécie de ogiva explosiva com um detonador de impacto, que mais tarde seria conhecida como o obus no tempo moderno[6]. No entanto, havia uma certa dificuldade técnica para fabricar um obus, e era necessário a realização de muitos testes, especialmente em termos da confiabilidade do detonador. Também não havia a garantia de que esse tipo de munição pudesse ser construído antes dos Meses dos Demônios. Por isso, antes de mais nada, era necessário começar a fabricação das munições do primeiro tipo, ao mesmo tempo em que se pesquisava o desenvolvimento das ogivas.

Mesmo ainda não sendo possível a fabricação de um obus, os novos canhões de cerco poderiam facilmente lidar com as bestas demoníacas que se moviam lentamente. Independentemente do tipo de munição, elas ainda consumiriam muita pólvora sem fumaça. Antes que ele pudesse produzir em massa os dois ácidos, esse novo tipo de canhão só poderia ser usado como uma arma especial, então armar inteiramente suas forças com tal canhão seria impossível no momento.

Enquanto Roland estava pensando e escrevendo, de repente, um guarda entrou em seu escritório.

— Vossa Alteza, uma mensagem secreta acabou de chegar da Cidade Real de Castelo Cinza.

Roland largou a pena e abriu o envelope. A carta não tinha uma assinatura do remetente e a caligrafia era estranha. Mas uma frase mostrou que a carta foi, sem dúvida, enviada por Theo.

— Um pelotão de cerca de mil soldados deixou a capital e está indo para a Região Oeste.


[1] As mais comuns são a manganela, que já apareceu na Igreja lá no capítulo 66, o onagro e a balistra.

[2] São embarcações com um ou mais canhões.

[3] Caso vocês se recordem, Roland estava identificando os canhões baseado no peso dos projéteis, como eram feitos antigamente. Com esse novo salto de tecnologia proporcionado pelas bruxas e a pesquisa de sua equipe, agora ele pode usar a identificação moderna, baseada no diâmetro dos projéteis.

[4] No caso, refere-se aos canhões utilizados na segunda guerra mundial pela esquadra norte-americana.

[5] A ideia geral pode ser vista aqui.

[6] Entretanto, por analogia, mesmo “obus” sendo o nome do canhão, convencionou-se chamar sua munição pelo menos nome. Você pode conferir mais informações neste link.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

18 Comentários

  1. Gostei da ideia de minas terrestre, acho que outras coisas como bombas de gas, tbm seria ultilizavel, mais independente de ser minas e bombas de gas so faria com que os animais se espalhasem, e com o fuzil eles sempre vem em linha; bom pelo menos nao tao espalhados.

  2. Bombas com veneno ou sonifero, acido etc, bombas com estilhaços de metal que tbm matao mais animais, bombas que se possao ser inventados nessa epoca

  3. Agora vamos ver o que acontece…

    Muito obrigado pelo capítulo 🙇😁 Mestre JZanin 🙇😁

  4. Fico me perguntando: lembram que descobriram uma pedra que nem a bala de um revólver perfura ela? E se tiver inimigos que a usarem como escudo? Não acho improvável que isto aconteça no futuro.

    1. Porém, há dois métodos pra burlar isso. O primeiro seriam canhões/explosivos, já que o escudo suporta projéteis, mas não protege do impacto e da explosão.O segundo seria usar armas químicas.

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