LAB – Capítulo 301

Bomba e licor

Após transferir as bruxas de Ilha Adormecida para a nova casa, Roland chamou Barov, o Primeiro-Ministro da Prefeitura, em seu escritório.

— Eu preciso que você faça um anúncio de recrutamento. — Roland empurrou alguns rascunhos a Barov — Dez pessoas para uma semana de trabalho. Preferivelmente mulheres.

Barov pegou os rascunhos, leu atentamente e perguntou:

— Alteza, posso perguntar, o que é… amido?

— Você conhece farinha de trigo, certo?

Barov hesitou por um momento, antes de responder:

— Quando o senhor diz farinha, o senhor se refere a farinha grossa ou refinada? Os grãos podem ser esmagados antes de se transformarem ​​em mingau, pães ou bolos de trigo assados. Bem, o pão que Vossa Alteza come é feito de farinha refinada que foi peneirada para remover o farelo. O rendimento da farinha refinada é de apenas sessenta por cento da farinha grossa e o pão também é mais macio. Tem um preço tão alto que só os grandes nobres podem pagar.

A coisa que Roland mais gostava em Barov era a sua compreensão dos mais variados tipos de mercadorias e bens de consumo. Devido à agricultura subdesenvolvida e ao suprimento deficiente de alimentos deste mundo, o mesmo tipo de ingrediente poderia ser consumido de diferentes maneiras, de acordo com a classe social. Os civis utilizavam diretamente os grãos de trigo, por exemplo, para fazer mingau grosso. O sabor e a textura do mingau eram bem ruins, pois ficava cheio de cascas e farelos.

Já entre os nobres havia uma certa diferença. Os nobres de classe baixa se importavam mais com a delicadeza do alimento, por isso, pediam aos seus servos para moer o trigo, transformando-o em farinha grossa e cozendo pães e bolos. Entretanto, os nobres de classe alta tratavam a comida de outra forma, como uma maneira de desfrutar a vida, algo mais soberbo do que simplesmente encher os seus estômagos. Então, eles pediam para a farinha ser peneirada, transformando a farinha grossa em farinha refinada, cozendo pães de um tom bege, suave e de sabor mais doce e delicado.

— O amido é refinado e processado a partir da farinha de trigo refinada. — Roland explicou — Depois que os trabalhadores forem recrutados, mandarei alguém explicar a eles o procedimento.

— Uma farinha mais refinada e processada? — Barov olhou para Roland com uma expressão preocupada — E quantos quilos de trigo o senhor precisa?

— Não muito, talvez uns trezentos ou quatrocentos quilos. — Roland fez uma pausa e explicou de uma forma que Barov pudesse entender — Uma cesta tão grande quanto minha escrivaninha será suficiente.

Barov assentiu e perguntou novamente:

— E por que o senhor prefere recrutar mulheres?

— Porque elas são mais cuidadosas e eu quero ver mais mulheres empregadas, em vez de apenas ficarem em casa. — Roland de repente se lembrou de algo e continuou — No momento, em Vila Fronteiriça, de todas as classes estabelecidas pela educação universal, as mulheres parecem estar progredindo mais rapidamente, correto?

— Sim, é exatamente isso. Com Lady Pergaminho sendo a Ministra da Educação, as mulheres da vila que antes não tinham nada para fazer além de cuidar das crianças e fazer trabalhos domésticos, agora passam a maior parte do tempo lendo e aprendendo.

— Nesse caso, você pode recrutar algumas mulheres aprendizes para a Prefeitura depois do próximo teste, assim, você vai aumentar gradativamente a proporção de mulheres empregadas. — Roland ordenou.

— Vossa Alteza, isso… é deveras incomum. — Barov franziu a testa — Se o requisito é ser cuidadoso, meus aprendizes são tão bons quanto as mulheres.

— Então faça ser comum. — Roland disse sem rodeios — Essa é a maneira mais fácil e rápida de aumentar a força de trabalho sem aumentar a população. Se todas as mulheres puderem contribuir para a construção da vila, eu terei duas vezes mais mão-de-obra. Tudo o que você precisa fazer é guiar as pessoas a fim de mudar sua mentalidade. Contanto que o pagamento seja atraente, acredito que elas irão se inscrever para os cargos, uma a uma.

Depois que Barov se despediu, Rouxinol perguntou no ouvido do Príncipe com uma risadinha:

— Que tipo de guloseima você vai fazer desta vez?

— Com o amido? Não é para comer. — Roland bebeu um pouco de chá e continuou — Mas, na verdade, podemos obter alguns bons ingredientes durante o processo.

Primeiro deve-se despejar a farinha de trigo refinada na água e amassar até que a água fique completamente branca. Depois de separar essa água em outro recipiente, deve-se fazer isso novamente até que reste somente uma substância pegajosa: o glúten. O glúten pode ser utilizado para fritar ou saltear diversos alimentos. Ao adicionar um pouco de mel e especiarias, pode-se preparar iguarias deliciosas, devido à sua textura flexível e única.

Mas o que Roland queria era muito mais do que algo para comer. O amido, dissolvido na água branca leitosa, obtida após a farinha de trigo ser amassada, era o que ele realmente queria, pois era o principal material para a fabricação de explosivos.

Como ele ainda não havia iniciado a fabricação de nitroglicerina e nem de TNT, o nitroamido era o explosivo mais potente que ele poderia produzir, e seu processo de produção era exatamente o mesmo que a nitrocelulose. Entretanto, o nitroamido não possuía uma inflamabilidade tão alta quanto a nitrocelulose, de modo que era necessário um detonador para provocar a sua ignição. O nitroamido é um explosivo mais poderoso que o TNT, e foi amplamente utilizado como um substituto para o TNT durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Com um amido altamente refinado, aqueles aprendizes do laboratório de química que tinham sido extremamente proficientes no processo de produção da nitrocelulose, devem ser capazes de produzir um lote de nitroamido em um curto período de tempo.

Depois do almoço, Roland voltou ao seu quarto para tirar um cochilo. No entanto, logo ele ouviu passos se aproximando da porta. Seu coração acelerou de repente.

Anna? Será que ela escolheu vir agora, ao meio dia, porque dormiu de cansaço ontem a noite? — Ele pensou.

— Entre. — Roland disse, ficando surpreso logo em seguida quando viu Evelyn abrir a porta e ficar parada do lado de fora.

Ah, é um pouco… diferente do que eu estava esperando. — Ele pensou, tossiu um pouco, mas exibiu um sorriso acolhedor, perguntando:

— Algum problema?

Ela caminhou até a mesa e inclinou a cabeça. Apesar de parecer um pouco nervosa, Evelyn disse:

— Vossa Alteza, eu queria fazer uma pergunta.

Hunf, é mais uma daquelas perguntas como ‘por que você trata as bruxas tão bem’. — Roland pensou consigo mesmo. No entanto, ele ainda estava com seu sorriso, tratando Evelyn de forma tão acolhedora quanto um vento quente de primavera.

— E o que você gostaria de saber?

— Por que o senhor… me escolheu para vir até Vila Fronteiriça?

Será que ela não está gostando dos licores? — A pergunta chocou Roland por um momento.

— Sabe, Vossa Alteza, minha habilidade não é tão boa quanto a de Sylvie nem tão prática quanto a de Lotus e Mel. — Evelyn disse com a voz baixinha — Se o senhor quiser realmente alguém para provar os licores, uma peça de ouro é o suficiente para contratar um enólogo profissional da Cidade Real de Castelo Cinza.

— Hum, e o que você tem achado dos novos licores?

— O álcool queima no início, mas fica mais suave se você beber devagar e se acostumar com o sabor. E a bebida feita de gelo, néctar e suco de frutas é o que possui o sabor mais rico. Mas, tudo isso é baseado no meu gosto pessoal. — Evelyn respondeu cautelosamente — A taverna da minha família vendia apenas vinho barato e cerveja aguada, então não estou muito clara sobre qual tipo de licor os nobres preferem.

Então não é um problema com os licores. — Roland ficou aliviado. Ele se levantou para abrir a estante de livros, tirou uma jarra de cerveja da prateleira de cima e a colocou na frente de Evelyn.

— Você pode transformar esta cerveja em meu licor branco?

— Eu acho que… sim, eu consigo. — Evelyn estendeu as mãos, segurou a jarra e logo a cerveja começou a mudar.

Enquanto borbulhava, a cerveja ficava cada vez mais e mais clara, quando finalmente tornou-se tão clara quanto água fervida. Roland já estava maravilhado ao ver tal cena, mas ficou ainda mais maravilhado quando sentiu o forte aroma do líquido transparente. Ele rapidamente mergulhou o dedo na jarra e atestou que era exatamente o que ele queria, álcool extremamente puro.

Roland riu e disse a Evelyn:

— Foi para isso que eu te escolhi. — Mas ele percebeu que Evelyn ainda estava com um rosto confuso, então ele acrescentou — Vou abrir uma fábrica de álcool… não, digo, uma fábrica de licores. Você gostaria de ser a minha enóloga-chefe?

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

12 Comentários

  1. Ta fabricando milagres de jesus, agua em vinho, ai ela vai descobrir que e a bruxa que mais faz dinheiro pro roland, e ela achando que era uma bruxa inutil

  2. Na moral o conhecimento desse autor sempre me impressiona. Só nesse cap ele falou de culinária e química, e ainda conseguiu fazer isso de um jeito interessante. Obrigado pelo capítulo

  3. Uns capítulos atrás o Roland falou que não era muito inteligente, certo? ….. Então, indo por esses padrões dele, o que eu seria, então? Um macaco, uma amoeba, uma planária? Sbansbbababsbsnnanananwnsnsnnsnsnsnnsn

    Obrigado pelo capítulo

  4. Obg pelo cap. Roland podia pelo menos ajudar essa bruxa a compreender melhor sua habilidade, não parece tão difícil quanto as outras.

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