LAB – Capítulo 309

Aprofundando o conhecimento

Roland recebeu uma carta criptografada da Cidade Real de Castelo Cinza.

Provavelmente era uma carta de seu guarda pessoal, Theo, pois foi entregue por um pombo-correio. Após pegar a carta, que estava enrolada na pata do pombo, Roland foi até a janela e começou a ler sob a luz do sol.

“Vossa Alteza, seu plano foi um sucesso surpreendente.

Como o acesso ao palácio foi bloqueado logo após o ataque, eu ainda não posso aferir o quão profundo foi o impacto do bombardeio. À noite, quase todos os moradores da capital estavam falando sobre o incidente. É o assunto do momento. Onde há um pequeno grupo de pessoas os rumores seguem, não importa se for em um hotel, uma estalagem ou a praça, nunca houve uma comoção tão grande em toda a capital, nem mesmo quando o antigo Rei, seu pai, faleceu. Agora, muitas pessoas acreditam que Timothy morreu no acidente e que você logo chegará à Cidade Real de Castelo Cinza para ascender ao trono, tornando-se o novo soberano do Reino de Castelo Cinza.”

Roland sentiu-se aliviado ao ler este parágrafo. Nenhuma notícia poderia ser melhor do que o sucesso da operação de bombardeio e o retorno seguro das bruxas.

Ele pegou um pouco de chá em sua xícara e voltou para a escrivaninha de mogno para continuar a ler a carta.

“No entanto, com base nas informações que obtive até agora, os grandes nobres que residem fora da capital ainda não tiveram qualquer reação sobre esse incidente. Pelo contrário, o palácio logo apresentou uma contramedida. Portanto, acredito ser muito provável que Timothy ainda esteja vivo.

Além disso, alguém está disseminando o boato de que o ataque fora da vontade de Deus, pois alguns moradores viram um objeto branco pálido descer do céu e atingir o palácio. Logo, meu plano preliminar é proclamar o bombardeio como um castigo divino pelas atrocidades cometidas pelo usurpador. Acredito que muitas pessoas vão comprar essa ideia.

Meus funcionários estão todos empolgados com essa operação. Eles coletaram muitas informações sobre alguns dos crimes mais detestáveis ​​que Timothy cometeu. Combinado com o recente incidente, o argumento será convincente. Suponho que dentro de um mês, o rumor sobre os atos perversos de Timothy se espalhará por toda a cidade e chegará aos ouvidos de todos os cidadãos, seja pelos ratos, seja pelo Submundo.

Além disso, continuarei monitorando de perto o movimento do quartel no subúrbio leste. Da situação atual, porém, presumo que Timothy deixará tudo como está, até que ele desenvolva uma estratégia para defender a cidade.”

Roland dobrou a carta criptografada, que não possuía assinatura, e a colocou na gaveta depois de terminar de ler. Ele suspirou profundamente.

Se o Vento Leste nº 1 pudesse impedir Timothy de enviar suas tropas, isso seria perfeito. Seria um enorme desperdício de população formar um exército drogado. Quanto mais Timothy postergar a guerra, maior será a chance de Roland aumentar a sua força de mão de obra com o passar do tempo.

Pensando nisso, Roland tomou o seu chá preto, sentindo o seu aroma característico. A próxima coisa que ele deveria fazer era esperar pelo retorno das bruxas.

Nestes últimos dias, ele estava se sentindo um pouco estranho e desconfortável sem Anna por perto e com todos os seus peixes secos inteiros na gaveta.

Enquanto Roland pensava, Carter abriu a porta do escritório.

— Vossa Alteza, duas frotas chegaram ao cais.

Roland ficou um pouco surpreso e respondeu:

— É a Câmara de Comércio de Margaret, não é? Ela só perdeu um espetáculo… espere, duas frotas?

— Sim. — Carter respondeu com um sorriso — Alguns membros da delegação de emissários, que o senhor enviou à Região Sul para o recrutamento, acabaram de voltar. A doca agora está lotada com os refugiados que eles trouxeram. A Prefeitura está bastante ocupada registrando todo mundo de acordo com o procedimento estabelecido pelo senhor. Quero dizer, o procedimento que o senhor implementou com a senhorita Lily…

— O protocolo de quarentena.

— Isso. Humm… para eliminar uma possível ameaça da praga demoníaca — O Cavaleiro-chefe tossiu envergonhado — Há cerca de quatrocentas a quinhentas pessoas.

— É mesmo? — Roland sorriu satisfeito ao ver algum progresso em seu plano, fazendo-o se lembrar de que Lotus teria um pouco mais de trabalho para arranjar acomodações para todos — Vamos dar uma olhada.

Kyle Sichi deixou aquele livro fino sobre a mesa.

— Entendi… — Kyle disse silenciosamente, como um murmúrio, repetidamente.

— Mentor? — Chávez perguntou com algumas preocupações.

Kyle não dormia há dois dias desde que recebeu o livro Química Intermediária. Ele estava lendo esse “antigo livro” sem descanso desde quando o recebeu. Chávez até mesmo olhou de soslaio o conteúdo do livro, mas ainda era muito profundo e difícil para ele compreender.

— Estou ótimo! — O Alquimista-chefe respondeu vigorosamente.

Sua voz soava como a voz de alguém apaixonado, sem um pingo de cansaço. Embora Kyle estivesse com olheiras e remela, seus olhos brilhavam de excitação. O olhar do principal alquimista da vila não parecia de modo algum como o de uma pessoa que não dormia há dias.

Como regra geral, um discípulo não tinha permissão para interromper seu mentor enquanto este estivesse conduzindo pesquisas sobre alquimia. Portanto, Chávez só decidiu falar agora porque percebeu que seu mentor havia parado de ler.

— Eu realmente não entendo… esse livro. O que é um átomo? E o que é um elétron?

— Agora você é um alquimista qualificado e não precisa mais se considerar um discípulo. De acordo com Sua Alteza, nós somos colegas agora. — Kyle fez uma pausa e depois continuou — Quanto à sua pergunta, também não tenho uma resposta. Na verdade, quando Sua Alteza Roland me deu o livro Química Intermediária, esse livro veio junto.

Chávez olhou para o outro livro colocado na escrivaninha. A capa indicava que o nome do livro era Fundamentos Teóricos da Ciência Natural.

— Senhor… Sichi. — Aparentemente não acostumado com esse jeito de falar, Chávez gaguejou um pouco — Parece que o livro não tem nada a ver com alquimia… não, quero dizer, parece que ele não tem nada a ver com química.

— No início eu também achei. — Kyle acariciou sua barba — No entanto, depois de ler algumas páginas, percebi que realmente não sei nada sobre este mundo.

— O quê? — Chávez ficou chocado com a conclusão de Kyle. O único objetivo da pesquisa dos alquimistas era compreender a constituição dos objetos e a natureza dos elementos. Se os alquimistas fossem considerados ignorantes sobre o mundo, como Kyle disse, então as pessoas comuns seriam tão inteligentes quanto os animais.

— Eu me refiro mais ao conceito por trás das coisas. — O Alquimista-chefe estava empolgado e… contente ao mesmo tempo — Nós pensamos na alquimia pela alquimia, como um conjunto de conhecimentos contidos dentro desse arcabouço. Por isso que nunca pensamos que ela poderia ter alguma relação com, por exemplo, o nascer e o pôr do sol, com o desabrochar de uma flor ou mesmo com a morte de uma planta… como se isso não tivesse relação alguma conosco ou com a “nossa alquimia”.

— Mas, não é isso mesmo? O movimento do sol e das estrelas faz parte da pesquisa dos astrólogos. Já quanto às flores e plantas… — Chávez comentou com um certo desdém —, somente os fazendeiros e apotecários é que se preocupam com isso.

— E é exatamente por isso que somos tão ignorantes sobre as leis do mundo. — Kyle balançou a cabeça — Esse livro conecta tudo desde o começo. Pedras, flores, grama, trovões e chamas consistem da mesma coisa e seguem um certo conjunto de regras. Essas regras não se aplicam apenas às reações químicas, mas também se aplicam ao movimento e à constituição do sol, a floração e o desbotamento das flores. As regras são tão precisas e consistentes que, contanto que as condições no ponto de partida sejam as mesmas, os resultados serão idênticos. A química é somente uma parte do todo.

— Mas… como isso pode ser possível?

— Eu também sinto que isso é demasiadamente incrível. — Kyle abriu a tabela periódica de elementos e explicou — Química Intermediária afirma que cada elemento tem uma forma específica, consistindo de uma grande esfera e muitas outras esferas menores ao seu redor. A grande esfera determina o elemento, e as esferas menores se organizam em camadas e determinam as propriedades do elemento. Esta tabela aqui organiza todos os elementos baseados nessa regra. O arranjo tabular é tão ordenado quanto uma fileira de soldados. Agora eu compreendo o que Sua Alteza queria dizer, já que nós podemos, mesmo sem ter tido contato com os elementos, prever como são suas propriedades e como eles se comportarão em uma reação química, baseada em como eles perdem ou ganham essas pequenas esferas. É também por isso que, durante uma reação química, os elementos não desaparecem, mas apenas se transferem.

Essas teorias são tão abstratas e confusas… e também não podem ser verificadas a olho nu. Então, como as pessoas que escreveram esse livro puderam ter esse conhecimento? — Chávez pensou intrigado, e após um momento contemplando a fala de Kyle, perguntou:

— E o senhor acredita nisso?

Kyle sorriu e respondeu:

— Não sei. É por isso que não consegui responder à sua pergunta anterior. Não importa se você acredita ou não, o ponto é que o livro nos disse para ver as coisas de uma perspectiva que nunca imaginamos. Isso abriu os meus horizontes e me mostrou um reino além da química. — Kyle fez uma pausa por um momento e depois continuou — Infelizmente, Sua Alteza não descreveu todos os elementos. Talvez ele mesmo não tenha compreendido todo o conteúdo, então, quem sabe o tanto que fora perdido.

Chávez não entendeu muito bem o que Kyle acabara de dizer. Ele estava tão perplexo que seu sentimento era exatamente o mesmo de quando se tornara um aprendiz. Chávez se lembrava de quando ouviu pela primeira vez as terminologias da alquimia, como se tudo fosse uma língua estrangeira indecifrável. Agora, ele se sentia exatamente da mesma forma.

No entanto, ele não estava preocupado. Contanto que ele seguisse a orientação de seu mentor, ele eventualmente aprenderia sobre essas tais conexões com todas as coisas. Afinal, ele tinha muito mais tempo para estudar do que Kyle.

Depois de um tempo, Chávez quebrou o silêncio, perguntando:

— A propósito, por que os livros dados por Sua Alteza possuem cores diferentes?

O Alquimista-chefe ficou surpreso e exclamou:

— Ah! Sabe que eu não tinha percebido isso. Será que ele simplesmente escolheu uma cor aleatoriamente? Não, se fossem outras cores talvez seria aleatório, mas esses tons são particularmente difíceis de fabricar, então não pode ser apenas uma coincidência. Isso significa que Sua Alteza fez isso de propósito, não foi?

Química Elementar estava em azul, Fundamentos Teóricos da Ciência Natural também era azul. Já Matemática Elementar era verde e Química Intermediária (remanescente) era roxo. Os livros isoladamente não chamavam muita atenção, mas quando eram postos juntos, as cores os deixavam bastante atraentes.

— Talvez por alguma razão estética? — Chávez presumiu.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

19 Comentários

  1. Kyle é muito maníaco por conhecimento kkkkkkk
    Gosto dele

    Mas agora por que essas cores? Verde, azul, roxo… Fica mais escuro conforme o conhecimento avança? Kk

    1. Talvez, seja pq o conteúdo cada uma é diferente em seus aspectos, mas se vc colocá-las juntas elas se complementam, em algo lindo.

  2. Eu acho que Roland jogou muito RPG, isso sim. Classificou os livros azuis como raros, o de matemática que eh verde como mágico e o Química Intermediária como Épico.

    1. Seria interessante, se eu tivesse essa ideia no momento de escrever o livro, faria a mesma coisa

    2. Seria interessante, se eu tivesse essa ideia no momento de escrever o livro, faria a mesma coisa

  3. O autor dessa novel deve escrever com vários professores do lado, pq n é possível colocar tanto conhecimento específico consideravelmente detalhado.

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