LAB – Capítulo 610

O Caçador

Enquanto Danny esperava, um rapaz pequeno correu na direção dele pela trincheira.

— Capitão, você chegou cedo. — Ele arfou, tirou a mochila do ombro e a colocou perto de Danny. — Aqui está sua munição.

— Cedo? Se eu estivesse caçando nas montanhas, a este horário eu já estaria voltando da caçada. — Danny disse casualmente. — Quanta munição você tem pra mim?

— 30 balas.

— Tão pouco… — Danny murmurou.

O rapaz pequeno era o soldado mais jovem do exército, que tinha apenas dezesseis anos. Seu nome era Malt. Ele veio para “proteger” Danny.

Todo atirador especial ficava acompanhado de um protetor, desta forma, quando os inimigos se aproximassem demais, eles poderiam rapidamente suprimi-los e ganhar tempo para recuarem ou trocarem para baionetas.

Danny não achava que precisava de um protetor, especialmente um menor de idade. A razão de ele ter aceitado Malt foi porque ele não conseguiu recusar o pedido de Karl Van Bate. Ele foi vizinho desse Ministro da Construção por anos, e eles haviam vivido na mesma rua do Novo Distrito. Naturalmente, ele entendia que Karl via todas as crianças graduadas em sua escola como seus próprios filhos.

Já que a posição de atirador especial ficava normalmente na retaguarda, o protetor estaria num local mais seguro comparado com os soldados na linha de frente. Danny sabia que Sua Majestade odiava que seus empregados abusassem do poder ou conspirassem entre si, portanto, pegar Malt como seu protetor foi uma das poucas coisas que ele conseguiu fazer sem ofender Sua Majestade.

Olhando para Malt, que estava agachado pegando as balas, Danny não pôde deixar de perguntar:

— Você já pensou em mudar de trabalho?

— Deixar o Primeiro Exército? — Malt respondeu sem levantar a cabeça. — Não, eu gosto muito daqui.

— Mas aqui não é brincadeira. — Danny disse, erguendo as sobrancelhas. — Nós podemos ser mortos no campo de batalha a qualquer momento. Você não precisa correr esse risco. Como um graduado da Escola de Karl, você está totalmente qualificado para um trabalho na Prefeitura. Lá você pode ter um trabalho tranquilo e ganhar mais do que aqui no exército.

— Mas eu não gosto do trabalho de lá da prefeitura. Odeio ficar passando recados, preenchendo documentos e etc. O que eu gosto mesmo é de segurar uma arma e proteger Sua Majestade. Além disso… — Ele de repente parou e seu rosto corou um pouco.

— Por causa da Senhorita Nana?

Malt não respondeu, mas seu rosto ficou ainda mais vermelho.

Danny explodiu em gargalhadas.

— Quase metade dos soldados do Primeiro Exército admiram a Senhorita Anjo. Acho que você não tem nenhuma chance. Além disso, o pai dela é um barão. Embora ele não possua terras atualmente, a filha dele não é alguém que você possa sonhar em conquistar.

— Nã-não é isso. — Malt disse, inclinando o corpo para frente. — Eu ficarei satisfeito contanto que eu possa vê-la todo dia.

Danny balançou a cabeça e parou de persuadir Malt. Ele sabia o quão teimosa uma pessoa poderia ser quando estava apaixonada. Ele próprio não era uma exceção.

Sempre que ele fechava os olhos, a imagem de uma mulher de cabelos verdes apareceria em sua mente.

Se ela não tivesse chegado a tempo para salvá-lo, ele poderia ter perdido sua vida na floresta.

Mas naquela época, ela ainda era a famigerada “serva do diabo”, a “reencarnação do mal”. Sendo assim, Danny havia enterrado seus sentimentos bem no fundo de seu coração, não se atrevendo a contar a ninguém. Inesperadamente, na segunda vez que eles se encontraram, a inocência das bruxas havia sido provada. Consequentemente, ela se mudou para a Casa das Bruxas na área do castelo e abriu vários campos experimentais na Floresta das Brumas.

Ele não poderia entrar na área do castelo quando bem entendesse, então sempre quando estava de folga, ele pegaria seu arco e flecha para caçar na Floresta das Brumas. Danny até mesmo havia se decidido que quando ele não servisse mais como soldado, ele se candidataria na Prefeitura pela vaga de guarda florestal e escolheria a Floresta das Brumas como a sua nova casa.

“Wonnnn… Wonnnn…!”

Naquele momento, o toque das cornetas soou.

Isso sinalizava a chegada dos inimigos.

Danny se livrou desses pensamentos e se concentrou no campo de batalha.

No momento ele ainda era um soldado. Ele deveria lutar para proteger Sua Majestade e derrotar a Igreja que caçava as bruxas.

Quando o sol chegou no alto do céu, uma tropa com armaduras reluzentes apareceu no sopé da montanha.

Para cercar o único caminho que dava acesso à montanha, o Primeiro Exército havia montado sua base a um quilômetro de distância do local. No momento em que os inimigos saíram da montanha, eles haviam pisado no alcance dos canhões do Primeiro Exército.

Danny sabia muito bem que Machado de Ferro não perderia essa oportunidade de atacar os inimigos.

Como se respondesse aos seus pensamentos, uma série de explosões abafadas soou atrás dele, assemelhando-se com o rugido dos trovões. Danny vagamente viu linhas negras voarem por cima de sua cabeça, indo na direção dos inimigos.

A batalha começou sem aviso prévio.

Olhando dali mesmo, Danny conseguiu ver claramente as balas de canhão caindo no solo inimigo e levantando nuvens de poeira. Os inimigos, que marchavam ordenadamente, imediatamente entraram em pânico. Tal reação era normal, considerando que essa era a primeira vez que eles foram atingidos por inimigos que eles não conseguiam ver. Se eles fossem um grupo de mercenários ou uma milícia, o moral deles teria sido completamente despedaçado após algumas rodadas de disparos.

Mas a tropa da Igreja não recuou, e sim começou a acelerar. Porém, os guerreiros não pareciam tão ordenados como antes.

Eles nem mesmo haviam avançado trezentos metros, mas já haviam sofrido três rodadas de ataque de canhões. A combinação das cinquenta artilharias de campanha foi o suficiente para bombardeá-los continuamente, criando um inferno na terra para os inimigos. Sem cavalos de guerra, eles tinham que atravessar esse campo infernal a pé.

Os Guerreiros da Punição Divina, conhecidos por possuírem uma força extraordinária, carregavam escudos enormes e avançavam na fileira da frente. Ao ficaram lado a lado, eles formaram uma parede de ferro com seus escudos. Neste momento, os inimigos estavam a aproximadamente seiscentos metros de distância da primeira trincheira.

Mas essa parede de escudo não foi lá muito eficaz. Os projéteis rapidamente destroçaram os grandes escudos e atingiram os Guerreiros da Punição Divina logo atrás, ferindo-os ou matando-os instantaneamente.

— Isso não é bom. — Danny disse enquanto balançava a cabeça. — Acho que eles vão ser destruídos antes mesmo de chegarem à primeira trincheira. — Ele entendia muito bem como funcionava a dinâmica de disparos do Primeiro Exército: primeiro, eles dariam conta dos inimigos a uma distância de 1000-1500 metros utilizando os canhões; depois, assim que os inimigos se aproximassem das cercas de arame farpado, seria o turno das metralhadoras; e ao final, se os inimigos conseguissem chegar a uma distância de 200 metros e começassem a avançar, eles usariam os rifles de repetição num combate a curta distância.

— Por que não seria bom destruí-los? — Malt deu uma olhada por cima da trincheira, ficando na ponta dos pés.

— Bem… É porque não vai sobrar nada pra mim. — Danny catou suas balas de rifle e as colocou no bolso. Em seguida, ele pegou sua arma e se preparou para ir embora.

— Aonde você vai? — Malt o puxou pelo braço apressadamente.

— Eu vou pra primeira trincheira, na vanguarda. — Danny se livrou da mão de Malt. — Você fica aqui.

— Eu vou com você.

— Não me siga. Essa é uma ordem.

Com essas palavras, Danny se agachou para passar pela trincheira de comunicação[1].

O barulho das balas de canhão colidindo com o chão ficou cada vez mais alto. A cada som estrondoso, migalhas de areia escapavam das paredes da trincheira e caíam no pescoço de Danny.

Ele assim soube que estava se aproximando da vanguarda pouco a pouco.

Após passar por três trincheiras consecutivamente, Danny finalmente chegou aonde queria. Sob o olhar confuso de seus colegas do exército, ele colocou a cabeça por cima da trincheira a fim de observar os inimigos. Ele conseguiu ver claramente os grandes escudos do Exército da Punição Divina, e até mesmo ouvir os gritos desesperados dos inimigos.

Ele estava a cerca de trezentos metros dos inimigos.

A distância era boa.

Respirando fundo, ele apoiou seu rifle, mirou um pouco acima de um escudo e atirou.

Acompanhado de um som metálico alto, sangue azul espirrou por trás do escudo, que, junto com o guerreiro que o segurava, caiu no chão, revelando os atônitos guerreiros do Exército de Julgamento que se escondiam logo atrás.

Danny puxou o ferrolho, retirou a cápsula fumegante e empurrou o ferrolho novamente[2].

O som de carregamento o deixava extasiado e alegre.

Já foi o primeiro. — Danny pensou.


[1] — Trincheiras de Comunicação são fendas longitudinais que interconectam as trincheiras. São usadas para permitir a passagem de uma trincheira a outra. Só que “Trincheiras de Comunicação” é um nome mais técnico.

[2] – Esta é a famosa, ou nem tanto assim, “Ação de Ferrolho”. Ação de ferrolho é um tipo de ação de arma de fogo, onde a manipulação de cartuchos para dentro e para fora da câmara da arma, é feita por uma operação manual sobre o ferrolho através de uma pequena alavanca, normalmente localizado do lado direito da arma. Quando a alavanca é acionada, o ferrolho é destravado da câmara e puxado para trás para abrir o carregador, permitindo que o estojo vazio seja extraído e ejetado, o pino de percussão integrado ao ferrolho é armado e posicionado. Em seguida, um novo cartucho é posicionado, e empurrando a alavanca no sentido oposto, o novo cartucho é posicionado e encaixado na câmara que é então fechada e um novo disparo pode ser efetuado.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

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