LAB – Capítulo 615

Fé Abalada

Os passos rápidos de um guarda quebrou a paz e o silêncio do salão anelar. Descontente com isso, Tayfun colocou sua xícara de chá na mesa e perguntou ao guarda:

— Algum problema?

— Vossa Eminência, aconteceu algo na Serra do Vento Congelante. — O guarda se aproximou e sussurrou nos ouvidos de Tayfun. — Parece que o Lorde Soli Daal foi ferido gravemente lá. — Ele continuou a explicar tudo o que ouvira sobre o incidente rapidamente.

— O quê?! — Tayfun não conseguiu acreditar em seus próprios ouvidos. — Mais da metade da força avançada foi eliminada e Soli perdeu um braço? — O velho bispo agarrou o guarda pelo pescoço e perguntou. — Onde está ele?

— Foi mandado para Santa Casa dos Enfermos.

— E quanto ao Exército da Punição Divina?

— Foi ordenado que eles mantivessem a posição e aguardassem por novas instruções. Neste momento, eles estão reunidos na catedral.

— Informe a Sua Santidade e Lady El imediatamente sobre esse assunto. Também, reúna e cuide de todos que participaram dessa expedição. Feche as portas da catedral e proíba que outros fiéis entrem ou saiam por enquanto! — Tayfun pareceu esquecer de seu chá. — Eu irei para a Santa Casa.

— Sim, Vossa Excelência.

Como isso pôde acontecer?

Ele conseguia sentir seu coração palpitar sem parar. A princípio, um pelotão de mil e trezentos homens, dos quais trezentos eram Guerreiros da Punição Divina, não deveriam ter tido problemas ao lidar com a Serra do Vento Congelante. Antes de Soli ser promovido a bispo, ele era um Chefe de Justiça veterano e um dos subordinados mais capazes de Sua Santidade Mayne. Mesmo se eles tivessem encontrado demônios ou bestas, não deveria ter havido tantas vítimas.

Embora o medo obscurecesse seu coração, o velho bispo se manteve com a mente clara, já que a coisa mais importante a fazer no momento era evitar que essa notícia vazasse, prevenindo, assim, que a fé dos fiéis fosse abalada. A segunda coisa mais importante a fazer era descobrir exatamente o que havia acontecido com Soli Daal na Serra do Vento Congelante.

Quando ele chegou à Santa Casa dos Enfermos, El já estava lá. Era evidente que ela possuía uma fonte alternativa de informações. Os dois se entreolharam e caminharam juntos solenemente em direção à ala dos enfermos em que Soli estava.

Uma bruxa pura estava cuidando dos ferimentos do arcebispo. Soli havia perdido um braço, mas o ferimento já estava envolvido com tecidos de algodão. Quando Soli viu os outros dois arcebispos, seus olhos atordoados pareceram recuperar o foco, e ele se esforçou para sentar-se.

— Nos deixe sozinhos. — Tayfun pediu para que a bruxa pura saísse e ajudou Soli a se erguer. — Como está seu ferimento?

— Eu quero ver Sua Santidade! — Soli ficou agitado. — Me levem para a Área Secreta Principal agora!

— Diga-nos o que aconteceu primeiro. — El respondeu friamente. — Só assim consideraremos se te levamos para ver o papa ou te jogamos numa cela e esperamos pelo julgamento.

— Sua idiota, essa não é a hora de brigarmos. — Soli rangeu os dentes. — A Serra do Vento Congelante era uma armadilha. As armas de pó de neve de Roland são muito mais assustadoras que as de Timothy. Eu tenho que informar à Sua Santidade…

— Eu não quero ficar no escuro enquanto protejo sua bunda, Senhor Soli Daal. — El ergueu a voz. — Você sabe o quão vergonhoso foi o seu retorno? Ao passar pelo portão da cidade, todos puderam ver o quão incompetente e derrotada nossa força avançada foi. Algumas pessoas da Cidade Sagrada já começaram a fazer perguntas. Se eu não tivesse acionado o tribunal para deter alguns intrometidos, amanhã mesmo toda a cidade já estaria falando sobre esse vexame! — Ela o agarrou pela gola. — Você sabe o quão grave isso seria?!

Tayfun sabia que El estava perfeitamente correta. A perda de mais de cem Guerreiros da Punição Divina foi o mesmo que perder dois anos de trabalho. E o inimigo desta vez foi só uma pequena vila nas montanhas. Essa era uma desgraça absoluta para a Igreja.

Pior ainda, se a notícia vazasse, a fé dos fiéis seria imensamente afetada.

Desde que o Exército da Punição Divina começou a ser designado para lutar contra as bestas demoníacas, havia surgido um rumor de que eles eram invencíveis e imparáveis. E realmente pareciam. Se até mesmo as enormes e selvagens bestas demoníacas não eram páreos para o Exército da Punição Divina, que tipo de inimigo poderia derrotá-los?

Justo quando Tayfun iria dar alguns conselhos, a porta da ala dos enfermos de repente foi aberta.

— Espero que eu não esteja atrasada. — A bruxa de cabelos brancos, Zero, entrou na ala dos enfermos. — O papa quer te ver, e pede que você não divulgue as circunstâncias específicas da batalha. Você consegue andar sozinho?

— Lady Zero, não podemos… — El protestou.

Zero a interrompeu rapidamente.

— Não se preocupe. O papa só está preocupado que o segredo do Exército da Punição Divina possa ter vazado. Vocês saberão de tudo o que aconteceu na batalha assim que o papa terminar de investigar o assunto.

— Que segredo?

— Perdoem-me, mas não posso contar. — Zero riu. — Porque até mesmo eu não sei.

— Eu… consigo andar. — Soli se levantou com dificuldade da cama e deu alguns passos antes de cair no chão.

— Não precisa fingir ser durão. — A bruxa pura deu um estalo de dedos, e imediatamente, dois guardas da Área Secreta, que vestiam mantos azuis, se aproximaram e levantaram o arcebispo. — Quando chegarmos à Área Secreta Principal, colocaremos você em uma cadeira de rodas.

— Vadia, puta, asquerosa… — Depois que Soli foi embora com Zero, El xingou furiosamente e saiu da ala dos enfermos.

Com uma expressão sombria no rosto, Tayfun observou a bruxa pura desaparecer de vista.

Apoiado pelos guardas, Soli descia os degraus de pedra em direção ao profundo abismo abaixo da catedral. Em seu rosto havia uma expressão de entusiasmo. Essa era a primeira vez que ele entrava no núcleo da Igreja. Até mesmo sua respiração ficou rápida e curta.

— Como você pretende explicar as perdas severas do Exército da Punição Divina para o Papa Mayne? — Depois que Soli se sentou na cadeira de rodas, Zero o empurrou pessoalmente em direção ao corredor.

— A derrota desta vez foi de fato causada pelo meu próprio descuido. Estou disposto a aceitar qualquer punição. — O arcebispo hesitou por um momento. — E eu… desejo me voluntariar para me tornar um Guerreiro da Punição Divina.

— Você tem certeza? Você quer desistir de sua posição como arcebispo e se tornar um lacaio?

— Eles não são lacaios! — Soli logo ficou irritado. — Todos os Guerreiros da Punição Divina são bravos e inabaláveis. Esse é o motivo pelo qual eles estão dispostos a sacrificarem as próprias vidas e lutarem pela glória da Igreja! Eu falhei com eles e causei danos imensuráveis à Cidade Sagrada. O melhor jeito de pagar pelos meus erros seria me tornar um Guerreiro da Punição Divina e lutar pelas divindades!

— É mesmo? — Zero deu de ombros. — Eu acho que o papa não irá concordar.

— Eu farei o meu melhor para convencê-lo. Eu acredito que o Papa Mayne definitivamente irá…

— Não é isso que eu quero dizer. — Ela balançou a cabeça. — Converter um Guerreiro da Punição Divina requer o sangue de uma bruxa, e as bruxas são escassas. Agora que você perdeu um braço, sua capacidade de luta diminuiu bastante, e mesmo que a conversão seja um sucesso, você ainda será um guerreiro defeituoso. Você acha que o papa desperdiçará o sangue de uma bruxa num deficiente?

— O que você disse? Espere… Pare!

Zero empurrou a cadeira até o fim do corredor e parou.

— Algum problema?

— A cerimônia de encarnação dos Guerreiros da Punição Divina é um segredo que apenas o Sumo Pontífice sabe. Como você sabe que a cerimônia precisa do sangue de uma bruxa? — Os olhos de Soli se arregalaram. — É impossível que o Papa Mayne tenha contado a você!

— Você não está errado, ele definitivamente não me contaria. — Ela esperou que os guardas abrissem a gaiola e colocou calmamente o arcebispo lá dentro. — Mas eu não preciso que ele me conte, porque… eu sou o papa.

— Isso é… blasfêmia! — Soli virou a cabeça somente para ver um feixe de luz vindo em sua direção.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

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