LAB – Capítulo 631

Promessas do Passado e do Presente

Após ouvir o que Isabella disse sobre a Batalha das Almas, Rouxinol começou a ficar deprimida.

— Você quer dizer que não sabe como fazer Sua Majestade acordar do coma?

Ela balançou a cabeça e disse:

— Isso é novo para mim; eu também não sei muito bem o que está acontecendo… Quer dizer… Eu lembro que Zero ficou inconsciente por alguns minutos quando devorou Garcia. Quando eu perguntei, ela disse que havia encontrado algumas coisas interessantes nas memórias de Garcia, e que foi por esse motivo que ela havia demorado[1]. Zero teve uma vida mais complicada do que a de qualquer outro, sem falar que ela tinha duzentos anos, então se Roland por acaso quis aceitar parte das memórias dela, acho que levará muito, mas muito tempo para digerir. Mas enquanto estiver vivo, acredito que ele acordará naturalmente.

Rouxinol não tinha certeza se a informação em si era essencialmente verdadeira, mas sabia que Isabella não estava mentindo.

Porém, Rouxinol também sabia que a situação não era tão boa assim.

Será que esses duzentos anos de memórias de Zero podem dominar Roland? E se Roland se perder no meio dessas memórias complicadas e nunca mais acordar? E mesmo que ele consiga absorver todas as memórias de Zero, será que ele continuará sendo aquele Roland Wimbledon de sempre? Aquele que eu acordo ansiosa para ver todos os dias? — Todo esse carrilhão de pensamentos passava pela cabeça de Rouxinol[2].

— Vamos falar da Igreja. — Agatha disse após hesitar por um momento. — O quanto você sabe da Aliança, a predecessora da Igreja?

— Eu sei quase tudo que Zero sabia. — Isabella respondeu francamente. — Vocês ainda duvidam do conteúdo das cartas? Desde que Zero assumiu a posição de Papisa, todas as bruxas puras que haviam sido aprovadas pela Autoridade Secreta Principal foram autorizadas a entrar na biblioteca e ler a história de quatrocentos anos atrás. O conteúdo das cartas é verdadeiro. O Império das Bruxas de fato existiu, e os demônios são ameaças iminentes.

— A informação limitada daquelas cartas não é importante para nós. — Agatha sorriu. — O Império das Bruxas é apenas história para você, mas para mim, é parte da minha vida. Eu sou uma bruxa da Aliança.

Isabella ficou perplexa com o que ouviu e perguntou:

— O quê? O que você disse?

— Eu vim da Cidade Sagrada de Taquila há mais de quatrocentos anos e também testemunhei a destruição dela. Os demônios não são raros e ainda ocupam a maior parte das “Terras Selvagens”. Tem um acampamento de demônios no fim da Floresta das Brumas, ao oeste do Reino de Castelo Cinza. Roland já os encontrou antes.

Isabella ficou atônita, sem saber o que falar.

— Nós lutaremos contra os demônios mais cedo ou mais tarde. Todos nós sabemos que a Batalha da Vontade Divina está se aproximando. Roland só escolheu travar esta batalha contra a Igreja porque queria aliviar a opressão sofrida pelas bruxas. — Agatha parou por um momento e então continuou: — O que eu quero saber é, como a Aliança se transformou na Igreja?

— Bem… — Levou um bom tempo para Isabella ficar calma novamente. — Como mencionado nos registros históricos, durante a retirada, uma guerra civil estourou na Aliança no nordeste da Cordilheira Intransponível. O motivo desse conflito não foi registrado. Só sabemos que a Aliança se separou em dois grupos depois desse incidente. O primeiro grupo foi para um labirinto subterrâneo nas montanhas. O segundo, liderado pela Cidade da Estrela Cadente, herdou a vontade de Alice, movendo-se em direção ao norte e assentando-se no Platô de Hermes, que no final se tornou a Igreja.

— Uma guerra civil durante a retirada? — Agatha franziu as sobrancelhas e disse. — Isso é suicídio.

— O escritor desses registros históricos também pensava o mesmo. Essa guerra civil ocasionou a morte de duas Transcendentes e foi o início da “Batalha da Fé”, que durou muitos anos. — Isabella suspirou. — A Batalha da Fé teve como único propósito matar as bruxas que não pertenciam à Cidade da Estrela Cadente. Somente assim a Igreja poderia enterrar completamente o passado.

— Enterrar o passado para poder caçar as bruxas como bem entender? Tudo isso para criar um Exército da Punição Divina inconsciente? — Rouxinol disse com um tom frio de voz. — Vocês são todas doentes.

— Sem essa guerra civil, os Quatro Reinos teriam sido controlados pela Aliança desde o início. O tamanho do Exército da Punição Divina teria sido bem maior. — Isabella disse calmamente. — Claro, já que Roland Wimbledon agora possui um método melhor, a Cidade Sagrada de Hermes já não será mais necessária.

— Percebo que você não é muito apegada à Igreja. — Rouxinol disse com sarcasmo.

— Contanto que os demônios possam ser derrotados, não ligo para quem estará no comando do continente. A Aliança só fez o que fez para derrotar os demônios. — Isabella fechou os olhos e disse. — Embora Zero fosse louca, a vontade dela de lutar contra os demônios era maior do que a de qualquer um, e foi por isso que eu escolhi ajudá-la.

Ouvindo isso, Rouxinol logo puxou a adaga.

— Se matá-la pudesse acordar Roland, eu não te pararia. — Agatha sussurrou.

Após um bom tempo, Rouxinol indignadamente colocou a adaga de volta na bainha.

— A propósito, quero falar mais uma coisa. — Assim que as duas estavam prestes a sair, Isabella de repente falou. — Apesar de Zero permitir que as outras bruxas puras entrassem na biblioteca, ela proibia qualquer uma de visitar a Sala de Orações. Não podíamos nem mesmo nos aproximar. Ela me disse que somente lá ela conseguia encontrar-se com Deus diretamente.

Rouxinol bateu na parede furiosamente quando saiu do cativeiro e disse:

— Droga! Ainda não sabemos como acordar Sua Majestade!

— Fizemos o que podíamos, e tudo o que nos resta agora é esperar. — Agatha disse, confortando-a. — Bem… Vamos repassar o que obtemos para as outras bruxas primeiro.

— Eu juro que ela vai pagar caro!

— Tudo no seu tempo. Ainda precisamos dela viva para explorarmos os segredos das Pedras da Retaliação Divina.

Rapidamente, as bruxas se reuniram fora do quarto de Roland, e Agatha começou a contar o que havia obtido de Isabella.

Mas Rouxinol não estava com cabeça para ficar ali. Ela quietamente foi para um canto, ativou sua habilidade do Mundo da Névoa, e foi para o quarto de Roland.

Havia apenas Anna no quarto silencioso.

Rouxinol lentamente se aproximou da cama e viu Anna segurando a mão direita de Roland e sussurrando baixinho:

— Você se lembra do que eu te disse? Se você morresse, eu iria para Ilha Adormecida com aqueles que estivessem dispostos a seguir seu legado e lutar contra a Igreja até o final. Mas você ainda está vivo. Você está apenas dormindo. Então eu vou esperar para sempre. Enquanto você respirar, ficarei ao teu lado… Por um dia, um ano, ou por toda a minha vida. Por isso… pode dormir. Eu estarei aqui quando você acordar.

Rouxinol sentiu seu coração apertar fortemente. Esse sentimento de tristeza era muito doloroso, mais doloroso do que qualquer ferimento.

Rouxinol se ajoelhou e cobriu seu peito com força.

Lágrimas e mais lágrimas escorreram de seus olhos.


[1] – Lá no capítulo 314.

[2] – “Carrilhão de pensamentos” significa pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Expressão muito usada em algumas regiões do meu nordeste.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

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