LAB – Capítulo 635

O Apartamento de Almas

— Zero? — Roland perguntou, hesitando.

Ela revirou os olhos e se curvou para colocar os pratos na mesa antes de se sentar.

— O que você tá fazendo aí? Não vai tomar café da manhã?

A garotinha era magra e tinha uma voz doce. Ela usava um vestido azul e meias brancas de seda. Os pés dela eram bem pequenos. Ela era totalmente diferente daquela Bruxa Pura louca que só pensava em matá-lo.

Contudo, ela não negou o nome, o que indicava que o nome dela realmente era Zero.

O que eu devo fazer? Matá-la? Agora que ela é apenas uma garotinha, é meio que impossível que ela me rasgue em pedaços com a força de uma Extraordinária, não é?

Roland foi na cozinha, pegou uma faca e escondeu na cintura antes de retornar à mesa onde Zero estava.

Havia um ovo frito e duas torradas em seu prato. Bem… Ele tinha uma torrada a mais que ela.

O ovo frito estava no ponto, com as bordas levemente queimadas e a gema um pouco mole. Zero habilmente pegou o ovo frito com o hashi e devorou rapidamente antes de prosseguir para a torrada.

— O que você tava fazendo ontem? Você viu alguma barata no teto?

— Não, é porque o teto estava um pouco sujo, daí eu decidi limpar. — Roland casualmente criou um motivo.

— Sério? — Ela olhou para o teto e perguntou: — Por que você não tentou limpar com um pano amarrado numa vassoura ou num rodo?

Cof cof… De qualquer maneira, tá limpo agora. — Ele tossiu e falou. — Você que fez o café da manhã?

— Tio, você está bem? — Zero pareceu um pouco preocupada agora. — Desde que eu me mudei pra cá, sou eu que sempre faço o café da manhã. Você sabe disso.

Desde que você se mudou pra cá? Então onde você vivia antes? — Roland abriu a boca, mas não perguntou. Obviamente, ela iria suspeitar de sua identidade se ele fizesse essa pergunta.

Zero rapidamente terminou de tomar o café da manhã. Ela estendeu a mão na direção de Roland e disse:

— Me dê dinheiro pra comprar comida.

— O quê?

— A geladeira tá ficando sem comida. Eu vou lá no supermercado comprar. Como eu posso comprar sem dinheiro?

Uma estudante do ensino fundamental já sabe como comprar comida no supermercado? — Roland pensou enquanto colocava a mão no bolso, mas percebeu que não tinha nenhum centavo. — Bem… Parece que estou sem…

— Na segunda gaveta da sua mesa de cabeceira… — Zero disse com um suspiro.

Roland foi para o quarto e encontrou “sua carteira”, que tinha mais ou menos 300 yuan e vários bilhetes de loteria…

— Quanto você precisa? — Roland retornou à sala de estar.

— 20 yuan já dá.

Já que não era seu dinheiro, Roland generosamente pegou 50 yuan e deu para ela, dizendo:

— Guarde um pouco do troco pra quando precisar comprar mais alguma coisa.

Surpresa, Zero olhou para Roland e, imediatamente, enfiou os 50 yuan na sua bolsinha.

— Sua mão… — Roland notou dois bandeides nos dedos de Zero.

— Eu me machuquei quando fui catar uns cacos de vidro. Não é nada de mais. Claro, seria ótimo se você não bagunçasse a casa e saísse derrubando pratos por aí. — Ela deu de ombros, pegou a mochila e caminhou em direção à porta. — Eu vou pra escola. Provavelmente ficarei até depois do meio-dia, então não se esqueça de lavar os pratos.

— Espere… Você não está no período de férias escolares?

— Eu tô indo pro reforço escolar. O senhor sabe disso. — Zero disse, colocando os sapatos. — Tio, se sua cabeça ainda estiver doendo, vá no médico. E não faça coisas estúpidas de novo.

Após meio minuto, Roland saiu do Apartamento 0825 e olhou para baixo enquanto se inclinava no parapeito do corredor.

Ele logo viu Zero saindo do edifício. Estranhamente, as pessoas na rua pareciam estar acostumadas, já que ninguém lançava olhares de curiosidade para ela[1]. Zero esperou por um momento até que duas garotas loiras se aproximaram dela. Em seguida, as três saíram juntas.

— Então ela fez algumas amigas neste mundo?

Roland não pôde deixar de esfregar a testa e pensar: — Que sonho absurdo!

— O que devo fazer agora? Seguir ela?

Ele não acreditava que Zero poderia ter realmente criado uma cidade inteira.

Quando Roland se virou e quis voltar para o apartamento, ele de repente ficou alarmado pelo que viu.

Uma mulher bonita caminhava em sua direção.

Ela tinha cabelos cinzas, sobrancelhas finas, e o nariz e lábios dela lembravam muito os de Tilly. Contudo, ela possuía uma aura arrogante que afugentaria qualquer homem.

Ele nunca tinha visto ela antes, mas as memórias do antigo Príncipe Roland o diziam que obviamente esta era sua irmã mais velha, Princesa Garcia do Reino de Castelo Cinza.

Garcia Wimbledon!

Roland subconscientemente procurou pela faca que estava escondida em sua cintura.

— Saia do meu caminho. — A mulher mostrou uma expressão de desprezo. — Deixe-me passar.

— Você… Você não me reconhece? — Ele ficou muito surpreso.

Ela sorriu e disse:

— Por que eu deveria te conhecer? Só por que você tem a mesma cor de cabelo que eu?

Roland olhou para ela fixamente enquanto abria passagem.

— Você é Garcia, não é?

— Sim, e daí? — A expressão no rosto dela ficou sombria. — Já que você sabe meu nome, deve saber o que acontece quando eu fico irritada. Eu tô te avisando, não procure confusão comigo. — Ela esticou o braço direito e em seguida estalou o pescoço, como se estivesse preparada para lutar.

Ela não me conhece… Mas por que ela não ficou surpresa ao saber que eu sei o nome dela? — Roland estava achando tudo isso difícil de entender.

Garcia voltou para o apartamento dela e fechou a porta com força. Roland caminhou pelo corredor e deu uma olhada rápida quando passou pela frente do apartamento de Garcia.

O número do apartamento dela era 0827. Bem perto do apartamento dele.

Olhando para as inúmeras portas ao longo do corredor, ele de repente pensou em algo: — Há quantos apartamentos neste edifício?

Afinal, o corredor era terrivelmente longo. Ao ficar na frente do Apartamento 0827, ele não conseguia ver o fim do corredor.

Ele imediatamente voltou para o seu apartamento, pegou as chaves, trancou a porta pelo lado de fora e começou a correr pelo corredor.

Ao longo do caminho, Roland viu inúmeros cartazes pequenos que faziam propaganda de marcas. Esse tipo de propaganda era bastante utilizado nos anos 70, quando não havia internet, mas nos dias atuais, esse modelo de propaganda já havia desaparecido há anos.

Foi uma corrida de quatrocentos metros.

Ao chegar no fim do corredor, ofegando que só, Roland viu o último apartamento, 0899, e também viu as escadarias que levavam para o próximo andar.

Isso era simplesmente incrível. Quem foi esse sujeito que projetou um edifício com noventa e nove apartamentos lado a lado a cada andar? Levando em conta as construções dos anos 70 ou 80, um andar com dez apartamentos já seria considerado de larga-escala.

Em seguida, Roland subiu as escadarias.

Boa parte da tinta verde que cobria o corrimão já havia descascado e agora a ferrugem ocupava o lugar.

O último andar era o 22.

Ao checar o primeiro apartamento do corredor, Roland notou que não havia placa de identificação. Então ele procurou por um apartamento que tivesse.

Ele checou um por um até que viu o primeiro número, 2245.

Após fazer uma conta rápida, ele chegou à conclusão que havia 2.124 apartamentos em todo o edifício[2].

— “(…) você não conseguirá me vencer. Eu já devorei milhares de guerreiros e até mesmo uma Extraordinária ao longo dos anos.”

Roland de repente se lembrou do que Zero disse durante a Batalha das Almas.

Será que todos os moradores deste edifício são pessoas que perderam para Zero na Batalha das Almas?

Roland ficou atônito ao pensar nisso.

E parecia que agora… Zero havia se tornado um deles.


[1] – Pelo fato de ela ter cabelos brancos e olhos vermelhos.

[2] – 99 Apartamentos x 21 Andares + 45 Apartamentos = 2.124. Observação: No andar 22, apesar de também haver 99 Apartamentos, só 45 estão registrados com placas de identificação. Roland só levou em conta os que tinham placas, mas no todo existem 2178.

Kabum: Galera, pra quem não tá entendendo como é esse edifício de apartamentos, é assim: os corredores passam pela frente do edifício (lado externo), e não por dentro. Aqui vai uma imagem meramente ilustrativa de como é a arquitetura. Clique aqui.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

3 Comentários

  1. É como pensei, as “memorias” no caso do Roland se ajustaram a um apartamento gigante onde cada inquilino é o “arquivo” para se consultar.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!