LAB – Capítulo 649

[Mercadores Negros]

— Obrigado. Eu virei aqui novamente hoje à noite.

O queixo de Yorko caiu. Seus olhos cheios de espanto. Parecia que algo estava errado ali. Eles simplesmente o haviam ignorado, ELE, que era o real Embaixador do Reino Castelo Cinza.

Depois que Otto saiu, Yorko mal podia esperar para começar um bate-boca. Toda a sua reclamação, contudo, ficou presa na garganta quando Hill disse:

— Isso também é o que Sua Majestade deseja.

Yorko colocou a mão na testa.

— Você tem certeza? Eu represento o Reino de Castelo Cinza. Se o rei do Reino do Alvorecer souber que estou transportando uma bruxa, a relação entre as duas nações se deteriorará novamente e todo o trabalho que fizemos terá sido em vão. O que faremos?

— Appen Moya não vai se concentrar em coisas triviais como essa. E mesmo que ele descubra, as bruxas são mais valiosas que essa aliança. — Hill afirmou. — Aliás, meus homens já checaram se há alguma bruxa escondida entre os refugiados quando eles fizeram a varredura.

— E?

— Nenhuma. — Hill balançou a cabeça. — Há duas possibilidades. Uma é que realmente não há bruxas entre os refugiados. A outra é que elas se disfarçam muito bem, misturando-se com a multidão. De qualquer forma, se você puder trazer uma bruxa para Sua Majestade, ele certamente vai despejar montanhas de recompensa em você. Você sabe muito bem o quanto Sua Majestade aprecia as bruxas.

Ciente de que esse era um pedido de seu velho amigo, Roland, Yorko não tinha escolha senão aquiescer de má vontade.

Ele tentou apaziguar sua mente convencendo-se de que esse leilão era apenas outra forma de explorar este reino. Yorko estava realmente curioso sobre quais tipos de escravos seriam vendidos num leilão em que até mesmo Denise não seria elegível para participar.

Otto apareceu na entrada da mansão assim que a noite estava prestes a cair.

Yorko subiu numa carruagem esplêndida, que não possuía nenhum emblema. Decorada com um tapete grosso de pelo, a carruagem também tinha duas correntes que se penduravam do teto. Yorko não precisava perguntar para saber o que eram essas correntes e para o que elas serviam.

— Eu não esperava que você tivesse um gosto tão peculiar. — Yorko assobiou.

O rosto de Otto ficou um pouco vermelho.

— Es… Essa carruagem não é a que eu uso no dia a dia. Comprei ela porque é mais adequada para o que iremos fazer, já que queremos prender alguém enquanto evitamos olhares curiosos.

— Você não precisa explicar. Eu entendo. — Yorko avaliou as algemas que havia no fim das correntes e perguntou: — Posso pegar essa carruagem emprestada por alguns dias depois que os negócios terminarem?

— Claro. 50 moedas de prata por dia e, de brinde, você ainda terá o serviço de um cocheiro. — Otto escolheu um lugar confortável e se deitou após informar o destino ao cocheiro. — Vai demorar um pouco para chegarmos lá. É melhor que você tire um cochilo.

— Quanto tempo?

— Por volta de uma hora. Iremos para o subúrbio da Cidade do Resplendor.

Yorko puxou ar pela boca, surpreso.

— Mas assim não conseguiremos mais retornar hoje para a Cidade Real do Reino do Alvorecer! Depois do pôr do sol, eles fecham o portão da cidade, não é?

— Os Mercadores Negros nos fornecerão acomodações e comida. Na verdade, eles fornecerão tudo o que você pode ter na Cidade do Resplendor.

— Falando assim parece até que esse lugar é um mercado que vende tudo.

— Basicamente isso. A única diferença é que tudo é clandestino. — Otto explicou. — Eu só fui lá uma vez, então eu não sei se houve algumas mudanças no procedimento do leilão. Mas eu acho que não haverá problema contanto que você siga o guia. Após comprar a bruxa, você não precisa esperar até o fim do leilão. Você pode retirá-la diretamente de um local que fica atrás do palco. Uma serva guiará você até seu quarto…

— Espere aí… — Yorko olhou para Otto, surpreso. — Você não vai comigo?

— Só há um cartão de convite.

— E quanto ao pagamento?

Otto sorriu.

— A carta negra representa dinheiro. É um passe emitido pela Câmara de Comércio. Com essa carta, você poderá dar seus lances tranquilamente.

— Sem limite? — Os olhos de Yorko se arregalaram.

— Claro que tem um limite… Mas é bem maior que o preço normal de uma bruxa. Pelo que eu sei, a última bruxa vendida lá foi levada por um lance de mil moedas de ouro. Mas já que o Rei Appen ordenou que erradicassem as bruxas, o preço final deve ser um pouco menor agora.

— Mil moedas de ouro! Os nobres de classe alta gostam mesmo de jogar dinheiro ao vento, não é? — Yorko se considerava pobre frente a essas pessoas extravagantes.

— E também… Para obter a confiança dela, é melhor que você não a toque. — Otto tossiu. — Afinal, ela não é uma escrava de verdade. Fazer isso só lhe trará problemas indesejados.

— Eu certamente compreendo. — Yorko suspirou. — Ela é uma mulher de Sua Majestade. Eu não sou louco de encostar um dedo nela.

— De qualquer forma, é bom que você cubra o rosto dela quando sair de lá. Encontrarei você amanhã.

Após passar pelo portão da cidade, a carruagem os levou em direção ao oeste. Ela só parou de andar quando a escuridão da noite engoliu o último raio de sol. Exatamente como Otto havia dito, eles chegaram ao destino após uma hora de viagem.

O local do leilão, à primeira vista, se parecia com qualquer outra residência normal. Havia um pátio vazio rodeado por uma cerca dentada, e em seu centro havia uma casa feita de barro e palha. Mais atrás, havia campos agrícolas onde o trigo já havia sido colhido, e que agora só havia pilhas e mais pilhas de palhas de trigo que se amontoavam pelo chão.

Entretanto, Yorko notou que havia várias tochas acesas espalhadas pelos campos agrícolas, indicando que havia alguém vigiando o local.

Normalmente, ninguém vigiaria a fazenda de um civil.

Depois que o guarda checou o cartão de convite, Otto e seus homens permaneceram no pátio, enquanto que Yorko entrou na casa de barro com uma guia. Após descer por uma escada de madeira e passar por um túnel estreito artificial, uma gruta[1] imensa de calcário entrou no campo de visão de Yorko.

A gruta tinha cerca da metade do tamanho da praça da Cidade do Resplendor. Sob a luz tremeluzente das tochas, Yorko conseguiu ver inúmeras cavernas pequenas em ambos os lados da gruta, todas bem escuras, levando para só Deus sabe onde.

O chão da gruta havia sido polido e azulejado. O local estava tão decorado que, se não fosse pelas estalactites no teto sobre sua cabeça, Yorko nunca teria pensado que na verdade ele estava dentro de uma gruta subterrânea. O salão estava repleto de pessoas que esperavam o começo do leilão.

Yorko agora entendia o que Otto queria dizer com “não é tão formal assim”. Com exceção do local, o resto não era lá muito diferente de algo que poderia ser feito pelos ratos. Por exemplo, o local era muito mal iluminado.

— Senhor, por aqui. — A guia o conduziu para o assento designado e se sentou próximo a ele. — Estarei ao seu dispor durante todo o leilão. Por favor, sinta-se à vontade para me fazer qualquer pergunta sobre nossos produtos. — Com essas palavras, a guia colocou a mão de Yorko nos seios macios dela. Sob a luz fraca do local, Yorko conseguiu ver um queixo pontudo e lábios carnudos por detrás da máscara da guia.

— Isso também é uma parte do serviço de vocês? — Yorko apalpou os seios dela como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Qual é o seu nome?

— O senhor pode me chamar de Número 76. — O hálito dela estava repleto de fragrância.

Yorko tinha que admitir que seu pensamento de antes estava errado. Os ratos nunca conseguiriam contratar mulheres tão bem treinadas como essa. Se todo convidado estivesse acompanhado de uma guia tão exuberante como “Número 76”, só o custo de contratar essas garotas seria tremendo.

— É sempre tão escuro aqui? — Yorko acariciou o braço macio da guia enquanto erguia as sobrancelhas. — Eu não vou conseguir ver claramente os produtos no palco com uma luz tão fraca como essa.

— Na verdade o senhor conseguirá ver muito bem. Só espere mais um pouco. — A garota riu suavemente.

As palavras de Número 76 logo foram confirmadas pelo som de algum metal sendo arrastado. Em um segundo, vários cabos de ferro foram jogados do teto, e cada um deles estava conectado a uma pedra estranha na ponta. A luz que irradiava dessas pedras era dezenas de vezes mais brilhante que a das tochas. De repente, Yorko conseguiu ver o palco à frente dele perfeitamente.

Um homem, usando smoking, subiu no palco e se curvou para a audiência.

— Obrigado por esperarem. Que comece o leilão dos Mercadores Negros!


[1] – Gruta é uma caverna muito grande. Eu ia colocar “caverna grande”, mas preferi gruta no final. Segundo o que li, são chamadas de grutas as cavernas com uma uma largura maior que vinte metros.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

4 Comentários

  1. “Ela é uma mulher de Sua Majestade. Eu não sou louco de encostar um dedo nela”. Pode ser o que for, mas burro não é

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