LAB – Capítulo 651

O Leilão

Talvez essa fosse a habilidade da bruxa.

Yorko percebeu que o filho primogênito da família Luoxi, Otto, havia apenas ouvido que uma bruxa seria leiloada, mas não levou em consideração a habilidade dela. Uma habilidade perigosa e excêntrica obviamente reduziria o valor de uma bruxa, já que ninguém queria ser morto. Independentemente se as bruxas possuíam ligação com os demônios ou não, elas não eram pessoas normais e era muito arriscado comprá-las.

Mas a habilidade dessa bruxa não soava formidável. Auto-cura não era capaz de ferir pessoas, ao invés disso, atendia às necessidades de algumas pessoas curiosas, então o preço seria inesperadamente alto.

— O senhor não deseja dar um lance? — Número 76 tomou a iniciativa de perguntar.

— Hmm… Espere mais um pouco. — Yorko enxugou o suor das mãos, pensando. — Otto disse que a carta negra simbolizava dinheiro, mas qual é o limite? 1000? 2000 moedas de ouro? Se o valor da bruxa acabar ultrapassando o limite da carta negra, o que será que os Mercadores Negros vão fazer? Será que eles vão me fazer pagar o dinheiro que faltar? — Uma série de perguntas passava pela mente dele e o fazia se sentir extremamente nervoso. Ele não tinha nem 100 moedas de ouro na mão, quanto mais 1000.

Neste momento, os lances começaram a ficar mais apertados. Cada aumento era por volta de 10 moedas de ouro e o intervalo entre eles ficava cada vez maior.

— 1260 moedas de ouro!

— Alguém dá mais?

Yorko sabia que ele perderia a bruxa se ficasse em silêncio.

Ele rangeu os dentes, pensando. — Se a carta negra não for o suficiente para pagar, mostrarei a eles que eu sou o Embaixador do Reino de Castelo Cinza. Eles não se atreverão a machucar o mensageiro de um reino. Após isso, farei com que Otto pague amanhã o dinheiro que faltar.

— Faça o lance, 1500 moedas de ouro. — Ele disse com uma voz profunda.

— Como desejar. — Número 76 levantou a mão direita e disse: — 1500!

Ouvindo isso, todos os convidados começaram a falar ao mesmo tempo, aparentemente surpresos.

O aumento significativo de 300 mostrava a resolução do comprador em obter a bruxa. Além disso, também dava um recado aos outros competidores para que não dessem mais lances. Já que apenas os mais ricos e poderosos recebiam convites dos Mercadores Negros, os compradores consideravam mais importante manter um bom relacionamento do que persistir na compra de um produto de entretenimento. Sob tais circunstâncias, os outros compradores naturalmente pararam de dar lances.

Yorko estava utilizando uma técnica de leilão que ele aprendeu com Denise para fazer os outros compradores pararem de competir com ele.

Contudo, ele não conseguiu o que queria.

— 1800!

Uma nova voz veio do público imediatamente.

Seu coração apertou abruptamente.

A mesma técnica de leilão indicava que esse comprador também estava determinado a obter a bruxa.

— Senhor? — Número 76 perguntou.

— 2000. — Yorko cerrou os punhos com força.

Depois que a guia retransmitiu o lance de Yorko, o outro comprador continuou a aumentar o valor, dizendo:

— 2300!

Droga! Esse preço tá alto demais, mesmo pra essa bruxa que pode se curar! No mercado de escravos, uma escrava de alta qualidade não passa de 100 moedas de ouro. Com mais de 2000 moedas de ouro, é possível comprar mais de 20 delas sem ter que se preocupar em violar as leis do Reino do Alvorecer. Por que insistir numa bruxa? — Com esses pensamentos em mente, ele olhou para trás, e para a sua surpresa, ele notou que o guia do outro comprador era um homem.

— O guia é selecionado de acordo com o gênero do comprador, não é? Então o outro comprador é uma mulher? Por que ela quer comprar uma bruxa? Pra ficar olhando? — Yorko perguntou, indignado, para Número 76.

— O que o senhor disse sobre a escolha do guia é verdade, a não ser que o convidado tenha gostos especiais. — Número 76 assentiu com a cabeça e perguntou: — O senhor quer aumentar o valor novamente?

— Vá aumentando em 200 moedas de ouro em cada lance até ela desistir.

Yorko decidiu comprar a bruxa a qualquer custo. Ele duvidava que o outro comprador era mais rico do que as três grandes famílias do Reino do Alvorecer. Afinal, isso foi o que Otto pediu para ele fazer. Se houvesse algum problema, Otto daria conta.

Enquanto os dois competiam, os outros convidados sussurravam uns com os outros, mostrando grande interesse nessa disputa.

Quando o valor do lance chegou a 4000 moedas de ouro, o outro comprador finalmente ficou em silêncio.

Mas o valor acabou sendo cinco vezes maior do que o estimado por Otto.

— 4000. Dou-lhe uma! (…) Dou-lhe duas! (…)

O leiloeiro falava lentamente, o que fazia Yorko ficar ainda mais apreensivo. Ele sentiu um impulso de roubar o lugar do leiloeiro e bater logo com o martelinho na mesa.

Por sorte, aquela voz dos infernos não soou novamente.

— Dou-lhe três e vendido!

Yorko respirou profundamente e se recostou na cadeira acolchoada, sentindo suas costas ensopadas de suor.

4000 moedas de ouro… Essa bruxa vale uma fortuna. Acho que eu nunca conseguiria juntar essa quantia em toda a minha vida. É assim que os grandes nobres gastam o dinheiro deles? — Com este pensamento, ele de repente sentiu que sua vida esbanjadora na Cidade do Resplendor não passava de uma grande piada aos olhos desses nobres.

A guia disse sorridentemente:

— Senhor, meus parabéns! O produto número 10 é seu agora!

Várias pessoas ao redor olhavam para ele com respeito, já que ele havia gastado 4000 moedas de ouro numa mercadoria consumível.

No Reino do Alvorecer, a riqueza representava prestígio.

Mesmo tendo ficado aflito e preocupado durante o leilão, Yorko estava muito satisfeito por ter passado por essa experiência maravilhosa, pois, pela primeira vez, as pessoas olhavam para ele com respeito, e não desprezo.

Yorko desfrutou dessa sensação por um momento e perguntou:

— Os próximos produtos também são escravos?

— Sim, exceto pelo último. Dizem que é um item muito raro que deu muito trabalho para os Mercadores Negros obterem. — Número 76 respondeu.

— Você também não sabe o que é?

— Não, não sei, aliás, nenhum guia sabe. Nosso chefe fez isso para enfatizar ainda mais a qualidade mística desse item. Ele só nos contou que é uma relíquia antiga encrustada com pedras mágicas. — Ela respondeu.

— Então esse item pode brilhar? Mas há pouco você me disse que não teria pedras mágicas sendo vendidas no leilão de hoje. — Yorko torceu os lábios e disse.

Número 76 explicou:

— Não existe apenas um tipo de pedra mágica. Algumas pedras não podem brilhar, mas ainda assim são joias da melhor qualidade, tais como a Estrela Azul, que fora vendida por um preço de 3400 moedas de ouro há seis meses. A Estrela Azul era uma pedra mágica que não brilhava na luz do dia, mas na escuridão, era possível ver inúmeras estrelas brilhando em seu interior. Pedras como ela são muito mais preciosas do que qualquer gema comum[1].

E muito mais caras também, pelo visto. Para ser vendida por 3400 moedas de ouro… O quão linda essa pedra mágica deve ser? — Yorko pensou e não pôde deixar de ficar curioso. Agora que ele havia “concluído a missão” dada por Otto, ele planejava passar o resto do tempo aqui vendo esses produtos magníficos para depois se gabar na frente de Denise.

Contudo, ao ver o último item do leilão, ele se sentiu bastante desapontado.

Era uma espada.

Havia quatro pedras preciosas de cores diferentes incrustadas no punho da espada. Yorko se perguntou se o leiloeiro apresentaria isso como um tipo de joia ou uma arma.

O leiloeiro começou a falar um monte de coisa sobre a espada. Ele disse que a espada havia sido encontrada num monumento antigo localizado na Cordilheira Intransponível, e que baseado nas pinturas que havia nas paredes ao redor, havia pertencido a uma guerreira inigualável. Com essa espada, essa guerreira conseguiu mudar fenômenos astronômicos; e os inimigos dela eram os demônios do inferno. Yorko riu dessas palavras do leiloeiro.

Teria sido melhor se o leiloeiro tivesse retirado essas quatro pedras preciosas da espada e as vendido separadamente.

A espada foi apresentada com um preço inicial de 50000 moedas de ouro, o que fez com que todos os convidados explodissem em alvoroço. Como resultado, ninguém quis dar um lance e essa rodada do leilão acabou rapidamente.

— Onde está a bruxa que eu comprei? — Yorko tocou na coxa de Número 76 e perguntou: — Ela já foi colocada no meu quarto?

— Mas é claro que sim. — Número 76 sorriu. — Os Mercadores Negros prepararam tudo para o senhor. Siga-me, por favor.


[1] – Gema, neste contexto, é o mesmo que “pedra preciosa”.

Kabum
Engenheiro Mecânico. Soteropolitano.

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