MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 7 de 7)

— OGAGO, GAROA… — O xamã sentado no trono agitou seu cajado e recitou uma magia ininteligível.

— GUAI? — Ele foi interrompido pela lança de Matador de Goblins o perfurando no peito. Ele estrebuchou e tombou para trás de sua cadeira.

Os goblins ficaram paralisados com essa tragédia, e Matador de Goblins aproveitou o momento. A espada de Guerreiro ressoou quando Matador de Goblins a liberou da bainha.

— Muito bem, vamos sair daqui.

— O quê?! S-sim, senhor!

Mesmo enquanto falava, Matador de Goblins já estava se virando e correndo. Chocada com sua velocidade e sem saber o que fazer, Sacerdotisa o seguiu. Os goblins recuperaram seus juízos quando a luz recuou e logo começaram a persegui-los.

No espaço de uma respiração, Matador de Goblins já estava muito à frente de Sacerdotisa enquanto ela corria para o declive. Ele estava acostumado a tomar o papel de vanguarda e de retaguarda, ou isso era o resultado de um enorme treinamento e experiência? Seja como for, era incrível para ela que ele pudesse ser tão ágil enquanto vestido com uma armadura de couro e malha, com sua visão limitada pelo capacete.

Foi quando o viu saltar ligeiramente na entrada do túnel que as palavras de seu mantra voltaram preenchendo sua mente. — Oh não…! — Ela esquivou por pouco do fio armadilhado no chão. Matador de Goblins já estava encostado na parede, e Sacerdotisa se apressou para fazer o mesmo no lado oposto.

— GUIII!!

— GYAA!!

Eles conseguiam ouvir as vozes enfurecidas e os passos pesados dos goblins subindo o declive. Sacerdotisa deu uma espreitadela furtiva e viu um corpo brutamonte à frente do grupo: o hobgoblin.

— Agora! Faça de novo! — Matador de Goblins lançou essas palavras para ela.

Sacerdotisa deu um aceno e esticou seu cajado com os símbolos de seu sacerdócio para o túnel. Ela falou as palavras da oração sem gaguejar.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, conceda tua luz sagrada para nós que estamos perdidos na escuridão…

Misericordiosa era a luz da Mãe Terra para eles, mas não para os olhos dos goblins, que queimaram com seu esplendor.

— GAAU?!

O hobgoblin cegado tropeçou no fio armadilhado e tomou um tombo desajeitado.

— Onze. — Matador de Goblins saltou nele e golpeou implacavelmente sua espada no cérebro da criatura. Ela gorgolejou uma vez, duas vezes, depois espasmou e morreu.

— A-aí vem os outros! — chamou Sacerdotisa. Ela estava sem milagres, e a repetição do ritual consome-alma a deixou enfraquecida, com o rosto pálido pelo esforço.

— Eu sei. — Matador de Goblins puxou uma garrafa de sua bolsa e jogou contra o corpo do hobgoblin. Ela quebrou, liberando uma substância preta e espessa de dentro. O cheiro enjoativo fez Sacerdotisa pensar que talvez fosse algum veneno desconhecido.

— Vejo vocês no inferno.

Matador de Goblins chutou o corpo encharcado para o túnel. Os goblins se aproximando, apanhados de surpresa pelo pedaço de carne rolando na direção deles, acertaram suas espadas nele.

Foi uma reação instintiva. Quando perceberam que era o seu próprio guardião que haviam apunhalado, eles entraram em pânico. Os goblins lutaram para extrair suas armas, enfiadas no fundo da carne do hobgoblin e agora cobertas pela substância preta…

— Doze, treze.

Era tarde demais para eles.

Sem uma pitada de remorso, Matador de Goblins lançou a tocha no túnel com eles. Houve um ssssss quando o cadáver do hobgoblin pegou fogo, apanhando dois dos seus perseguidores com isso.

— GYUIAAAAAA!! — Os goblins gritaram esbracejados no chão, queimando enquanto rolavam de volta para o fundo do declive. Sacerdotisa se engasgou com o cheiro de carne assada que flutuou até ela.

— O-o que era aquilo?

— Alguns chamam de óleo de Medeia. Outros, petróleo. É gasolina. — Ele havia conseguido isso com um alquimista, ele disse indiferentemente, acrescentando: — Terrivelmente caro para um efeito tão simples.

— M-mas lá… dentro, as garotas raptadas…

— O fogo não se espalhará para longe só com alguns corpos para se alimentar. Se essas garotas ainda estiverem vivas, isso não vai matá-las. — Ele murmurou: — E ainda não estamos livres dos goblins — fazendo Sacerdotisa morder os lábios novamente.

— Então, v-você vai voltar?

— Não. Quando eles não conseguirem mais respirar, eles sairão sozinhos.

A espada de Matador de Goblins agora estava perdida, presa no cadáver ardente do hobgoblin no fundo do túnel. Ele provavelmente não estava ansioso para lutar com uma lâmina encharcada de cérebro, de qualquer maneira.

Ele pegou a arma que o hobgoblin deixara cair, um machado de pedra. Era apenas uma rocha amarrada em um galho, rústico em todos os sentidos da palavra. Mas também, isso o tornava fácil usar.

Matador de Goblins brandiu o machado rapidamente pelo ar, o testando e descobriu que poderia empunhá-lo facilmente com uma mão.

Satisfeito, ele alcançou sua bolsa e tirou outra tocha.

— Toma — disse Sacerdotisa, oferecendo uma pederneira, mas Matador de Goblins não olhou para ela.

— Essas bestas nunca pensam que alguém poderia criar uma emboscada para eles — disse ele.

Ela ficou em silêncio.

— Não se preocupe. — Ele brandiu o machado com golpes cuidadosamente coordenados, acertando cada golpe na pederneira. — Terminará em breve.

Ele estava certo.

Ele lidou com cada um dos goblins quando emergiram das chamas e da fumaça. Um tropeçou na corda e encontrou sua cabeça partida. O segundo saltou sobre a corda, mas foi derrubado pelo machado que o aguardava. O terceiro foi o mesmo. O machado não saía da maçã do rosto da quarta criatura, então Matador de Goblins tomou a clava do monstro no lugar.

— Esse é dezessete. Vamos entrar.

— S-sim, senhor! — Sacerdotisa se apressou para acompanhar Matador de Goblins enquanto ele mergulhava na fumaça turva.

O lugar tinha uma aparência terrível. O hobgoblin foi queimado para lá do reconhecimento, e seus companheiros estavam pouco melhores. O xamã estava caído com a lança ainda atravessada em seu corpo. E as garotas estavam deitadas na imundice do chão.

Como Matador de Goblins previu, a fumaça flutuava acima delas.

Mas, sobreviver nem sempre é uma benção; algo que Sacerdotisa percebeu quando reconheceu o corpo de Lutadora entre elas.

— Uggh… euhrrrgh…

Nada sobrava no estômago de Sacerdotisa. Ela vomitou apenas a bílis amarga queimando em sua garganta, e sentiu as lágrimas em seus olhos marejando outra vez.

— Bem assim.

Enquanto Sacerdotisa vomitava, Matador de Goblins erradicou as chamas que percorriam ao longo da gasolina no chão.

Ele caminhou até o xamã perfurado. O goblin parecia surpreso com sua própria morte. Ele permanecia completamente imóvel. A imagem de Matador de Goblins de pé sobre ele se refletiu em seus olhos vidrados.

— Como eu imaginei — disse Matador de Goblins, levantando imediatamente sua clava.

— GUI?! — Quando o xamã assustado tentou se levantar, a clava desceu e então ele estava morto de vez.

Sacudindo a clava salpicada com miolos do xamã, Matador de Goblins murmurou: — Dezoito. Os de níveis alto são durões.

Matador de Goblins começou a chutar violentamente o trono, agora vazio em todos os sentidos. Sacerdotisa se nauseou novamente quando viu que ele era feito de ossos humanos.

— Truque típico dos goblins. Olhe.

— O… o quê? — Sacerdotisa limpou os olhos e a boca enquanto levantava a cabeça. Atrás do trono pendia uma das tábuas podres de madeira que os goblins usavam em vez de portas.

Um armazém escondido, ou era mais que isso? Sacerdotisa agarrou seu cajado quando um som estridente veio de dentro.

— Você teve sorte.

Quando Matador de Goblins puxou a tábua para o lado, houve vários gritos agudos. Junto com um estoque de pilhagem, havia quatro crianças goblins aterrorizadas agachadas dentro.

— Essas criaturas se multiplicam rapidamente. Se seu grupo tivesse chegado mais tarde, haveria cinquenta deles e eles teriam atacado em massa.

Só de pensar nisso — sobre o que teria lhe acontecido e a todos — Sacerdotisa tremeu. Ela imaginou dezenas de goblins a levando, produzindo crianças meio-goblins…

Olhando para as formas encolhidas, Matador de Goblins ajustou sua clava.

— Você vai… matar as crianças, também? — perguntou ela, mas já sabia a resposta. Ela tremeu quando ouviu o tom uniforme de sua própria voz. Havia seu coração, suas emoções, sido anestesiados pela investida da realidade? Ela queria que fosse verdade. Só dessa vez.

— Claro que sim — disse ele, com um aceno calmo.

Ele devia ter visto isso muitas, muitas vezes.

Ela sabia que ele se chamava “Matador de Goblins” por uma razão.

— Nós destruímos seu ninho. Eles nunca vão esquecer isso, muito menos perdoar. E os sobreviventes de um ninho aprendem, se tornam mais inteligentes. — Enquanto falava, ele levantou casualmente a clava, ainda coberta com cérebro do xamã. — Não há razão para os deixar viver.

— Mesmo que houvesse… um goblin bom?

— Um goblin bom? — Ele exalou de uma forma que sugeria estar realmente perplexo com a ideia.

— Pode haver… se procurássemos, mas…

Ele não disse nada por um longo momento. Então ele falou:

— Os únicos goblins bons são os que nunca saem de seus buracos.

Ele deu um passo.

— Isso tornará vinte e dois.

É uma história comum, uma que ouvimos o tempo todo.

Uma aldeia é atacada por goblins. Algumas donzelas são raptadas.

Alguns recrutas decidem que irão se livrar dos goblins como sua primeira missão.

Mas os goblins são muitos, e o grupo todo é abatido.

Ou talvez só um se safe e salve as garotas também.

Durante seu cativeiro, as garotas foram forçadas a servirem de brinquedos aos goblins.

Desesperadas, elas se abrigam no templo.

O sobrevivente solitário foge lentamente do mundo e nunca deixa sua casa novamente.

Nesse mundo, esses tipos de coisas são uma ocorrência diária, tão comum quanto o nascer do sol.

Era mesmo? Sacerdotisa não tinha certeza. Esses eventos avassaladores da vida realmente aconteciam o tempo todo?

E se sim, poderia ela, sabendo disso em primeira mão, continuar a acreditar na Mãe Terra?

No fim, havia apenas duas coisas de que Sacerdotisa tinha certeza.

Que ela iria continuar como uma aventureira.

E que esse Matador de Goblins exterminou cada goblin naquele ninho.

Mas então, isso, também, não é mais do que outra dessas histórias contadas muitas vezes.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

  1. E assim a sacerdotisa aprendeu que jamais deve ter misericórdia, mate todos ate os filhotes só assim as ervas daninhas não irão cresce no seu jardim atrás de você… To ficando demais com os meus comentários ( narcisismo ON)

    1. Aqueles que são intrinsecamente bárbaros, quando se desenvolverem, só podem se tornar uma coisa: bárbaros… ou será que não…?

  2. Que desfecho satisfatório! uma pura sacerdotisa se depara com a cruel realidade do mundo, um guerreiro traumatizado (especulação) segue sua vida caçando essa raça baderneira e cruel! Cenas de sangue e violência sem escrúpulos vindo a mente! Incrível!
    Agora o meu interesse é… Porque ele só caça goblins? Porque ele usa esse elmo que cobre todo o rosto?(cicatriz ? meio goblin ?).
    Mas eu realemente admiro essa nova ideia. As historias de aventureiros que seguem as vidas sempre almejando uma caçada mais difícil, mesmo que as vilas continuem sendo assoladas pelos monstros de “low level”, sempre me deixavam com aquela sensação de que os goblins iam acabar com a sociedade (por causa da rápida reprodução) enquanto os aventureiros lutam contra dragões ! haha

    1. Muitas dessas perguntas — para não dizer todas, — que você tem agora, serão explicadas no decorrer do próprio volume 1.
      E sobre como surgiu a ideia de fazer uma história desse tipo, o autor explica no posfácio, ou seja, após o último capítulo do volume.

    2. Também pensei nessa hipótese, meio goblin kkkk
      Mas então o que seria o comentário dele de que o único goblim bom é o que não saída caverna. Não faria sentido, creio eu.
      Poderia ser um desses sobreviventes mencionados no final do capítulo, nas que decidiu continuar , só que erradicando apenas os goblins.
      Sei lá kkk só lendo para saber

      Fiquei pensando nisso que você falou, dos caras subirem o nível e esquecerem os mobs low level, uns capítulos atrás.
      Talvez seja aquela premissa de que sempre haverá um novato para substituir o anterior que subiu de nível. Porém seria muito mais fácil e rápido pegar um grupo forte de aventureiros e acabar com cada ninho erradicando de uma vez o problema com goblins, trazendo paz aos vilarejos.
      Se parar para pensar, chega a ser egoísta da parte dos supostos “heróis”, querer logo ser mais forte para poder se regozijar da capacidade de matar vampiros ou dragoes

  3. O matador comentando sempre que matava ou ia matar um goblin, isso me lembrou Skyrim, jogando com minha Orc descendo a porrada em tudo kkk
    E sempre saia aqueles comentários aleatórios entre cada morte hahahahah

    Pior de tudo era dota com meu irmão, que quase quebrávamos o teclado e mouse ou mesmo a mesa de tanto xingar quando morria hahahahagahgah

  4. A guilda deveria oferecer um curso pra esses aventureiros noobs informando que os Goblin ainda são monstros, pq a galera já chega entrando que me uma retardado numa caverna.

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