MdG – Volume 1 – Capítulo 12 (Parte 1 de 2)

Era o início de uma longa noite.

— GRARARARARARA! GRARARARA!!

Vendo a lua no topo do céu — “meio-dia” para o seu povo — o senhor goblin deu suas ordens.

Suas palavras foram transmitidas em um instante, com um clamor de vozes rosnantes, e o exército de goblins começou a avançar. Escondidos em um campo de gramas tão altas quanto a si mesmos, eles levantaram seus escudos quando ficaram em pé. Os goblins os chamavam de “escudos de carne”: tábuas nas quais mulheres e crianças capturadas foram amarradas. Em suma, dez prisioneiros nus estavam presos diante do exército. Eles gemiam periodicamente, espasmavam ou se contorciam incompreensivelmente.

Os goblins, por sua vez, já tiveram muita diversão com esses prisioneiros. Se o escudo de carne vivia ou morria, não importava nada para eles. O que importava era que isso causaria resistência dos aventureiros ao lançarem uma flecha ou uma magia. Em contrapartida, se um aventureiro capturasse um goblin e o usasse da mesma forma, nenhum outro goblin hesitaria em disparar diretamente por ele. É verdade, ele poderia ficar zangado por ter que matar seu companheiro goblin, mas só seria mais uma motivação para rasgar seus inimigos em pedaços.

O senhor goblin gargalhou só de pensar o quão tolos os aventureiros eram.

No limite de suas vistas, eles podiam identificar as luzes da fazenda. A cidade só poderia ser vista mais além.

Havia aventureiros na cidade. Aventureiros! Uma palavra nojenta para criaturas nojentas.

O senhor goblin chegou a uma decisão repentina. Ele pegaria cada aventureiro e os socariam de estacas até morrerem. Talvez antes do fim, eles se arrependeriam por tudo o que haviam feito à sua espécie.

Assim como os aventureiros que atacaram seu ninho — sua casa — e o abandonaram no deserto porque era muito jovem.

Eles começariam com a fazenda. Roubar o gado e a ovelha para encher suas barrigas. Pegar a garota para si mesmo e aumentar seus números.

A fazenda daria uma cabeça de ponte conveniente para atacar a cidade, massacrar os aventureiros e reforçar ainda mais suas fileiras. Então, finalmente, eles se voltariam para a capital humana, a arrasariam, e ergueriam um reino goblin no seu lugar!

Esse dia ainda era um sonho, mas o plano na mente do senhor goblin era bastante real.

Os recrutas abaixo dele não conseguiam entender isso. Mas, eles tinham sua raiva, seu ódio e sua luxuria se agitando dentro deles. O reconhecimento da fazenda revelara a presença não só de carne fresca, mas de uma jovem.

Eles se moviam ardentemente pela grama, que farfalhava enquanto avançavam. Finalmente, as luzes da fazenda estavam próximas. Em momentos, o ataque começaria.

Então aconteceu.

— GRUUU?

Uma névoa perfumada flutuou sobre o campo. Um dos portadores do escudo na frente do exército foi tragado, e um momento depois, ele reapareceu, se virando bem para outra direção e caindo no chão. Os outros portadores do escudo começaram a cair um por um. No tempo que o senhor goblin levou para piscar, formas escuras avançaram das sombras ao redor do muro da fazenda.

Aventureiros! Isso é magia!

— GAAAUU!! — O senhor deu um grito.

— GAUGARRR!! — Um goblin xamã gritou algo e agitou seu cajado. Um raio foi disparado e atingiu um aventureiro no peito. Mas, enquanto o aventureiro caía, os outros diminuíram rapidamente a distância com os goblins e agarraram os escudos de carne. Eles ignoraram completamente o inimigo, recuando em vez disso tão rápido quanto chegaram. O xamã balançou seu cajado de novo e entoou, na esperança de atingir um dos aventureiros em fuga.

— GAAA?!

Uma flecha feita de galho perfurou seu peito. Sua boca se abriu e fechou por um momento, e então ele caiu de costas na grama, morto.

Graças a sua excelente visão noturna, os goblins logo localizaram a fonte do disparo.

Em cima de uma das árvores na fazenda: um elfo. Um elfo estava disparando neles!

Os arqueiros goblins se apressaram em devolver o fogo com seus arcos curtos, mas o elfo apenas bufou e saltou nos arbustos.

Os aventureiros que carregavam os escudos de carne passaram pelo muro, e em troca, um grupo dos seus companheiros armados apareceram. Eles continuaram abaixados enquanto corriam em direção aos goblins, acompanhados do barulho de suas armaduras.

— GORRRRR!!

O senhor goblin gritou apressadamente para suas tropas contra-atacarem, mas eles não estavam conscientes o bastante para lhe obedecerem. A magia Estupor agia magicamente sobre eles, e um atrás do outro, eles foram derrubados por flechas com suas mentes ainda esvoaçadas.

— Então esses são os seus “escudos”. Criaturas macabras — disse a elfa, com nojo estampado em seu rosto. Ela atravessava velozmente o campo, disparando flechas como o vento. Ela podia disparar tão facilmente quanto podia respirar. Ela conseguia acertar seus alvos com os olhos fechados. Suas flechas ceifavam goblins como uma foice através do trigo.

Ela não matara realmente muitos dos inimigos. Mas, ela não conseguiria continuar para sempre.

— Eu peguei o conjurador deles!

— Muito bem, seus arruaceiros! Hora de ganharem seu dinheiro!

— Ha-haaa! Olhem nosso ouro marchando bem na nossa direção!

Os aventureiros fizeram contato com o inimigo antes que o exército confuso de goblins pudesse se reformar.

Agora, nenhum dos lados poderia usar magias, pois poderia apanhar seus próprios aliados no efeito; os aventureiros naturalmente, mas até mesmo os goblins possuíam algum senso de risco e vantagem. Eles não possuíam escrúpulos em usar seus companheiros como escudos, mas eles tinham que ter cuidado para que o número de escudos disponíveis não ficasse muito baixo. E de qualquer forma, mesmo quando se tratava de usar magias, goblins ainda eram goblins. Eles eram covardes e cruéis.

Assim, a batalha começou.

O tinir das espadas ressoavam. O cheiro de sangue estava em toda parte sobre a planície envolta pela noite. Berros, gemidos, gritos de guerra. Em meio ao clamor, silhuetas — aventureiros, goblins — podiam ser vistos desaparecendo um a um enquanto os combatentes caíam.

— Deuses, há goblins suficientes aqui para te libertar dessa vida! — rugiu de rir Lanceiro enquanto derrubava inimigo após inimigo.

À medida que cada monstro tombava no chão, Lagarto Sacerdote saltava neles e os atingia com um golpe final. — De fato, até mesmo o meu senhor Matador de Goblins estava desesperado… — Ele fez o gesto das palmas juntas e sacou a espada-presa. Ainda existia muitos goblins para matar.

— Não que, me importe, mas para teu próprio bem… fique dentro, de minha magia Deflexão de Projéteis, está bem? — Bruxa estava próxima, com o cajado na mão e lançando magia atrás de magia, seus seios fartos arquejavam enquanto ela respirava profundamente.

Por perto, Anão Xamã havia usado Estupor quantas vezes fora capaz e havia recorrido a sua funda. — Me enterrem, Corta-barba estava certo de que ninguém poderia lidar com esse monte sozinho! — Ele disparou uma pedra que traçou uma linha perfeita de sua funda até a cabeça de um goblin. — Céus — disse ele — aqui você quase nem precisaria mir… O qu…?!

Anão Xamã semicerrou os olhos. Alta-Elfa Arqueira reparou imediatamente e gritou: — O que é isso, anão?

— Montadores, Orelhuda! Goblins montados a caminho!

Uivos ecoaram por todo o campo iluminado pelas luas. Goblins montando lobos cinzentos enormes e brandindo espadas vinham correndo através da escuridão.

— Vou atirar neles daqui! Segure eles!

— Certo! Parede de lança, não os deixem passar! — Com as ordens de Lanceiro, os aventureiros próximos ficaram ombro a ombro e posicionaram suas armas para frente. Os lobos vieram como se alheios a chuva de flechas caindo sobre eles. Os aventureiros impulsionaram suas lâminas com prazer na barriga das feras.

Houve um uivo e um grito estridente.

— Errraggghh!

Um aventureiro fora atingido por um montador investindo e encontrou um lobo em sua garganta. Muito dos animais, no entanto, sucumbiram aos ataques dos aventureiros, lançando os goblins de suas costas.

— Atacaaaaaar! — O homem-lagarto liderou com um grande berro e voou para finalizar os cavaleiros derrubados. Como o guerreiro sacerdote que era, de vez em quando, ele gritava estridentemente no que parecia ser uma oração dos homens-lagarto.

Apesar de tudo, os aventureiros estavam ganhando bem comodamente.

Em geral, em uma disputa direta entre um aventureiro e um goblin, o aventureiro normalmente se sairia melhor, desde que a má sorte não intervisse. E o que era mais…

Matador de Goblins disse: — Estabeleçam emboscadas. Eles são especialistas em ataques surpresas, mas nunca esperam ser emboscados.

Ele disse: — Tomem uma postura baixa. Apontem para as pernas. Eles são pequenos, mas não podem voar.

Ele disse: — Eles certamente terão escudos de carne. Lancem magias de sono, então usem esse momento para salvar os reféns.

Ele disse: — Mesmo que vocês pensem que podem matá-los enquanto resgatam os escudos, não o façam. Se eles acordarem, só será um problema.

Ele disse: — Não usem magias de ataque. Guardem suas magias para outras coisas.

Ele disse: — Espadas, lanças, flechas, machados, qualquer tipo de arma pode ser usado para matá-los. O que vocês não podem fazer com uma arma, façam com magia.

Ele disse: — Eliminem primeiro os seus conjuradores.

Ele disse: — Não os deixem chegar atrás de vocês. Sempre continuem se movimentando. Façam movimentos pequenos com suas armas. Conservem suas forças.

Ele disse…

Os outros aventureiros ficaram francamente atônitos com a quantia de conhecimento que Matador de Goblins lhes transmitiu.

Aventureiros não eram soldados, mas eles não eram estranhos quanto a estratégias. Ainda assim, eles não estavam acostumados a tomar tanto cuidado contra os goblins. Aventureiros experientes e inexperientes viam os goblins como inimigos insignificantes.

— Cara! Não só eu farei um bom dinheiro; eu começarei a impressionar a minha garota! — Com essas táticas em mãos, os goblins eram fáceis de se lidar, contanto que pudessem ser forçados a combates um contra um. Lanceiro e os outros guerreiros impulsionavam suas armas para a esquerda e para a direita, por todo o lado encontrando um goblin para matar.

Nas profundezas das fileiras inimigas, todavia, eles podiam ver uma forma enorme erguida, formando uma silhueta contra a lua.

— Ali está! Um hob… Espera, é isso?

— GURAURAURAURAURAUUUU!!

O grande rugido atravessou o campo de batalha sangrento.

A criatura era tão grande que poderia ser confundida com um ogro. Ela segurava uma clava manchada de sangue e cérebro. Um campeão goblin.

Um goblin, sim, mas um tão poderoso que poderia com suas próprias mãos, virar a maré da batalha.

Todavia, estava longe de qualquer aventureiro recuar de um desafio só porque possuía o dobro do tamanho deles e carregava um porrete grande.

— Ahhh, aí está o grandalhão! Eu estava ficando cansado desses frangotes! — Guerreiro de Armadura Pesada foi o primeiro a mergulhar no campeão, com sua arma no ombro e um sorriso selvagem nos lábios. Revirando os olhos, Cavaleira o seguiu, com seu escudo erguido.

— Justo quando estava ocupada contando quantas cabeças de goblins eu havia recolhido — disse ela.

— Os conte depois! Lute agora!

— Vocês guerreiros têm mentes tão obcecadas. — Com essa brincadeira, eles avançaram alegremente para a batalha contra o novo inimigo.

Por todo o campo, armas tocavam umas às outras, e sangue jorrava pelo ar.

— E onde está o nosso líder destemido nisso tudo? — perguntou Lanceiro, enquanto parava para limpar a ponta de sua lança no pelo de um lobo. Sua respiração estava ficando irregular.

Atravessando o campo, uma nova massa escura apareceu.

Reforços dos goblins. Não havia tempo para descansar. Ele segurou perto sua lança e se preparou.

— Ah, eu acho, que você sabe, a resposta, para isso — sussurrou Bruxa, com uma voz melosa, enquanto dava uma longa tragada em seu cachimbo e soltava lentamente a respiração. Um vapor rosa perfumado flutuou ao vento, e todos os goblins que o respiraram, encontraram seus sentidos entorpecerem. Ao longe, os reforços começaram a se mover mais lentamente também.

— Obviamente — disse Alta-Elfa Arqueira, com uma risada, disparando contra os inimigos estupefatos. — Ele foi matar goblins.

 

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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