MdG – Volume 1 – Capítulo 5 (Parte 3 de 4)

Quando eles entraram na sala de reuniões, a elfa retirou o arco de seu ombro e perguntou: — Então, você é mesmo ranque prata?

As cadeiras na sala estavam cobertas com um pano de cor bronze e rodeavam uma mesa que fora limpa até brilhar. As prateleiras estavam forradas com crânios e presas de monstros, os troféus de aventureiros passados.

— Segundo a guilda. — A armadura e o capacete imundo de Matador de Goblins não pareciam evidenciar seu ranque. Ele se sentou com força em uma cadeira.

— Francamente, eu não consigo acreditar nisso — disse a elfa. Ela se sentou à frente dele com não mais que um passo e balançou a cabeça. — Quero dizer, olhe para você. Eu já vi insetos que pareciam mais intimidantes.

— Não seja estúpida, Orelhuda! — O anão, sentado alegremente de pernas cruzadas no chão, deu uma risada zombeteira. Embora os seres humanos tentassem ser atenciosos com as outras raças, suas cadeiras eram grandes demais para os anões e rheas. — Antes de serem polidos, todas as joias e metais preciosos parecem pedras. Nenhum anão julgaria uma coisa só pela sua aparência.

— Ah, sério?

— Sim, é sério! A armadura de couro garante facilidade de movimento. A malha deixaria uma adaga às escuras — pontificava Anão Xamã, avaliando Matador de Goblins com um olhar abrangente. Ainda que a maioria dos seus deveres fossem pastorais, quando se tratava de armas e equipamentos, até uma criança anão sabia mais do que muitos comerciantes de longa data. — …Seu elmo, o mesmo. Espada e escudos são pequenos, fáceis de usar em um espaço apertado.

Matador de Goblins não disse nada.

A elfa olhou suspeitosamente para ele.

— Ele podia ao menos procurar um equipamento mais agradável.

— Itens limpos cheiram a metal — disse Matador de Goblins, com um tom de aborrecimento em sua voz. Goblins têm um excelente olfato.

— Deuses. Vocês habitantes da floresta são tão apaixonados por seus arcos, que não saberiam se uma espada estivesse apunhalando vocês no pescoço.

— Tsc… — rangeu os dentes a elfa com a farpa do anão. Ele estava irritante, mas não errado. A caça era tão natural como a respiração para os elfos. Essa arqueira, por sua vez, sabia alguma coisa sobre supressão de odores. Mas ela era jovem entre os alto-elfos e havia deixado sua casa na floresta ainda recentemente. Os vários anos que ela gastou até agora no resto do mundo eram um piscar de olhos para um elfo. Ela ainda carecia de muita experiência.

O anão acariciou a barba com um olhar de autossatisfação. — Minha vida tem sido mais longa que suas orelhas, garota. Por que não aprende algo do seu venerável ancião?

— Hmph. — Mas, então a elfa estreitou os olhos como um gato brincando com um rato. — Tenho dois mil anos — disse ela. — Quantos anos você tem mesmo?

O anão não disse nada por um longo tempo. Então, relutantemente: — Cento e sete.

— Ah, meu, nossa. — A elfa riu dissimuladamente, e o anão acariciou sua barba abatidamente.

Eles pareciam prontos para continuar assim para sempre. Assim que Matador de Goblins estava começando a achar que era hora de ele ir para baixo, Lagarto Sacerdote balançou a mão.

— Vocês dois, já chega de falar de suas idades. Vocês envergonham aqueles de nós que não medem nossas vidas em séculos ou milênios. — Ele estava encostado na parede. Os homens-lagarto não se sentavam em cadeiras humanas, principalmente, parecia, que suas caudas atrapalhavam.

— Então, o que vocês querem comigo? Uma missão? — Matador de Goblins foi direto ao ponto como sempre.

— Sim, é isso — disse a elfa. Ela parecia séria. — O número de demônios ao redor da capital vem aumentando, como tenho certeza de que você sabe…

— Não, não sei.

— Isso pode ser traçado de volta ao renascimento de espíritos malignos. Eles querem usar um exército para destruir o mundo!

— Entendi.

— …E nós estávamos contando, com sua ajuda…

— Encontre outra pessoa — disse ele sem rodeios. — Se não for goblins, então não me importo.

A elfa se enrijeceu. — Você entende o que estou dizendo? — perguntou ela, com os dentes cerrados e uma onda de raiva em sua voz. Suas orelhas características em formas de folha tremiam. — Um exército de demônios está vindo. Estamos falando sobre o destino do mundo aqui!

— Sim, eu ouvi.

— Então por que…?

— Antes de o mundo acabar, os goblins acabarão com muitas mais aldeias — disse Matador de Goblins com sua voz uniforme, quase mecânica. Como se dissesse: Isso é tudo para mim, minha verdade. — Não podemos ignorar os goblins porque o mundo está em perigo.

— Como pode…?! — A elfa chutou sua cadeira, seu rosto pálido ficou vermelho. Ela se inclinou sobre a mesa para agarrar Matador de Goblins. Foi o anão que a impediu.

— Bem, espera lá, Orelhuda, pense no que está fazendo.

— Como assim, anão?

— Nós não podemos simplesmente entrar aqui e ordenar que ele faça algo. Um platina poderia se safar assim, mas nós não.

— Si… Bem, sim, mas…

— Nada de “mas”, então. Sossegue. Nos deixe ter uma boa conversa civilizada. — Ele repreendeu a elfa com um aceno de sua mão pequena e áspera.

— …Está bem — bufou ela de má vontade e se sentou de volta na cadeira. Vendo isso, e vendo que Matador de Goblins não pareceu nem um pouco chateado com o incidente, o anão deu uma risada satisfeita.

— Ele pode ser jovem, mas ele é “Corta-barba” de fato! Ele é tão rígido quanto uma pedra!

— Então — disse Lagarto Sacerdote — você não vai se opor caso eu continue a lhe oferecer essa missão?

— Por mim tudo bem — disse o anão, passando sua mão em sua barba. — Melhor isso que um covarde.

— Meu senhor Matador de Goblins, por favor, não confunda nossa intenção. Viemos, de fato, para lhe pedir que nos ajude a matar os diabinhos.

— Entendi. Então estamos falando de goblins — disse Matador de Goblins. — Nesse caso, eu aceito.

Houve um silêncio.

— Onde eles estão? Quantos são?

Alta-Elfa Arqueira parecia um pouco horrorizada; os olhos de Lagarto Sacerdote se arregalaram. O anão riu vigorosamente.

— Ora, qual é a pressa, garoto? Não quer ouvir o resto da história de Escamoso?

— Claro — disse Matador de Goblins com um aceno firme. — Informação é crucial. Preciso saber o tamanho do ninho, se há um xamã. E quanto aos hobs?

— Eu esperava que você fosse perguntar primeiro sobre a remuneração — disse Lagarto Sacerdote, com sua língua balançando para fora e tocando o nariz. Poderia ser considerado como cobrir o rosto para esconder seu constrangimento. — …Para começar, como minha humilde companheira disse antes, há um exército de demônios se preparando para invadir.

Silêncio.

— Um dos senhores demônios, até então selado, despertou e agora procura nos exterminar…

— Não estou interessado — disse Matador de Goblins. — A mesma coisa aconteceu há dez anos.

— Hmm. Eu também pensava que isso não era de meu interesse. — O homem-lagarto revirou os olhos com uma careta.

Uma variedade de expressões passou pelo rosto da elfa quando ele falou, transmitindo principalmente Eu não posso acreditar nesse cara. Ela olhou carrancuda para Matador de Goblins, mas seu rosto, e qualquer expressão, estava escondido atrás do seu elmo.

— Mas, subsequentemente, os chefes de nossas tribos, todos os reis dos homens e os líderes dos elfos e dos anões realizaram uma grande conferência.

— Os rheas não são muita coisa em combate, então nos falta um… mas por outro lado, somos os representantes que eles enviaram — disse o anão, batendo na barriga. — Somos aventureiros, afinal. Faremos o mundo e nossas fileiras algo de bom como parte da barganha!

— Parece que estamos indo para uma batalha enorme. — Não que você se importe. A elfa parecia ter desistido.

O anão continuou alisando a barba. — O problema, veja, é que esses insetinhos desagradáveis começaram a ficar mais ativos nas terras dos elfos.

— Surgiram campeões ou senhores? — perguntou Matador de Goblins com um murmúrio.

O anão respondeu: — Talvez.

A elfa levantou suas longas orelhas com as palavras desconhecidas. — Campeões? Senhores? O que são esses?

— Heróis goblins. Reis dos goblins. Pense neles como goblins de ranque platina, em nossos termos. — Matador de Goblins cruzou os braços com um longo “hmmm”. Ele parecia muito sério. A elfa pensou que ele parecia estar calculando algo. Depois de uma longa pausa, ele disse:

— Não importa. Ainda não existem informações suficientes. Continue.

— Após nossa investigação, descobrimos um ninho único e excepcionalmente grande. Mas… bem, política, sabe.

— Os militares não se moverão contra goblins. Como sempre. — Acompanhando o pensamento do homem-lagarto, Matador de Goblins parecia perguntar e afirmar ao mesmo tempo.

— Os reis humanos nos veem como aliados, mas não como iguais — disse a elfa, com os ombros rígidos. — Se tentássemos trazer nossos soldados nisso, eles pensariam que estaríamos tramando alguma coisa.

— Por isso, um grupo de aventureiros… Mas, só nós não poderíamos nos apresentar diante dos humanos.

— Então, Orcbolg… De muitos, nós escolhemos você.

— Orelhuda tem um jeito verdadeiro com as palavras, não é? — disse o anão com uma risada seca. A elfa olhou para ele, mas o olhar passou rapidamente.

— Vocês têm um mapa? — perguntou calmamente Matador de Goblins.

— Aqui. — O homem-lagarto pegou um pergaminho de sua manga e o entregou a Matador de Goblins. Matador de Goblins o desenrolou de forma bruta. O mapa foi desenhado com tinta de cascas de árvore. O estilo abstrato, porém, preciso, era típico da cartografia élfica.

Representava um campo árido com um edifício de aparência antiga. Matador de Goblins apontou para a estrutura.

— Ruínas?

— Provavelmente.

— Número?

— Só sabemos que o ninho é muito grande.

— Eu vou partir imediatamente. Me paguem o quanto quiser. — Matador de Goblins assentiu, enrolou o mapa com um movimento casual e ficou de pé vigorosamente. Guardando o mapa, ele deu uma verificação rápida em seu equipamento e então começou a caminhar em direção à porta.

A elfa ficou nervosa. — E-espere um segundo! — Suas orelhas tremiam, e como antes, ela chutou a cadeira e estendeu a mão. — Você fala como se estivesse indo para lá sozinho.

— Estou.

A carranca da elfa dizia: Você só pode estar brincando.

O homem-lagarto fez um barulho intrigado. — Essa é só a minha humilde observação, mas aquela estimada acólita da Mãe Terra é membro de seu grupo, não é, meu senhor Matador de Goblins?

— Você está indo lidar com eles sozinho? — disse a elfa. — Você está louco?

Matador de Goblins parou e expirou lentamente. — Sim.

E sem mais uma palavra, ele saiu da sala de reuniões.

Qual pergunta ele teve a intenção de responder, eles não conseguiam dizer.

Não tinha como saberem.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

8 Comentários

  1. Primeiro uma pergunta: que tipos de criaturas são os rheas? Depois eu não poderia deixar de dizer: o prota realmente bem objetivo kkkkk. E por último, mas não menos importante, obrigado pelo capítulo

    1. Olha, eu tenho uma ideia — pelo menos na minha cabeça, — de que eles são como os hobbits… você consegue pescar algumas observações ao longo do romance se tu observar direitinho.

  2. Adorei a explicação do equipamento! Adorei a parte do “pague o que quiser”! E adorei o “the fade away.”, se fosse uma direção do Michael Bay ia ter explosões quando ele virou as costas e saiu da sala! hahaha

  3. Eu acho que a resposta foi pra segunda pergunta já que ele vai com a sacerdotisa nas missões.

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