MdG – Volume 1 – Capítulo 8 (Parte 2 de 2)

Seguindo o mapa, o grupo logo encontrou a galeria.

A elfa foi na frente, nas pontas de seus pés como um gato espreitando. Ela gesticulou para os outros sobre como proceder.

Por isso ela foi a primeira a ver o vasto salão.

Tal como o mapa mostrava, a galeria ficava ao lado de um átrio enorme. O teto tinha que ser tão alto quanto o nível do solo. Os elfos viviam por milhares de anos, e ali dificilmente poderia ter tido um morador da floresta tão antigo quanto esse lugar.

Apesar de sua idade, as paredes de pedra branca ainda exibiam ilustrações impressionantes das batalhas da Era dos Deuses. Os deuses belos lutando com os abomináveis, espadas cintilando, raios voando, até finalmente chegar aos dados.

Era uma representação da criação do mundo. Se esse lugar fora outrora uma fortaleza, o que os soldados daqui sentiam ao ver isso? Se as circunstâncias fossem diferentes, Alta-Elfa Arqueira teria deixado escapar um suspiro fascinado.

Mas as circunstâncias não eram diferentes, e ela manteve a boca fechada.

Ela se inclinou sobre a balaustrada da galeria e espiou o átrio. Por um muro que se erguia absoluto como um penhasco, ela pôde ver goblins.

E não um ou dois. Nem mesmo dez ou vinte.

Um vasto exército. Cinco aventureiros não podiam contar o número com seus dedos em conjunto.

A elfa engoliu em seco. A fúria abrasadora em seu peito ficou fria de repente.

Aquela prisioneira pôde ter sido feita de brinquedo por cada goblin nesse lugar. A elfa gravou de repente o que poderia acontecer com ela no menor dos deslizes.

Ela não possuía a coragem para enfrentar isso sozinha. Ela mordeu os lábios para parar seus dentes de rangerem.

— Como está?

A elfa quase saltou de surpresa. As suas orelhas voaram para trás.

Como Matador de Goblins aparecera ao lado dela sem notar?

Em parte, a elfa esteve focada em outras coisas. Mas Matador de Goblins se moveu agora com uma sutileza que ela nunca poderia ter imaginado a partir de seu passo violento habitual. Ele não fez nenhum barulho.

Ele não estava segurando uma tocha, talvez por preocupação de ser visto.

— N-não me assuste assim…

— Foi sem querer.

A elfa olhou furiosamente para o capacete de aço. Ela limpou o suor que surgiu em sua testa.

— De qualquer forma, veja por si mesmo. Eles são muitos.

— Não será um problema — disse Matador de Goblins calmamente.

Ele gesticulou para os outros membros do grupo para se juntarem a eles, depois explicou seu plano.

Ninguém argumentou.

O primeiro a notar algo incomum foi um goblin que saiu da cama. Era quase a hora de mudar a guarda, mas a última patrulha ainda não voltara.

Bem, talvez ele tivesse ido atormentar aquela elfa um pouco mais. Verdade, não era tão divertido agora que seus gritos estavam ficando mais fracos. Com sorte, eles apanhariam outra em breve.

Sem ele saber, uma oportunidade para fazer exatamente isso estava a caminho.

O goblin fez um bom alongamento, afrouxando seu corpo fino e deixando sua barriga saliente se pender. Assim que seu alongamento se tornou um bocejo, ele viu algo estranho empoleirado sobre a galeria.

Um anão.

Um anão emborcando o conteúdo de uma jarra vermelha.

— GUI…?

Naquele momento, o anão olhou para o goblin desnorteado e cuspiu nele. O cuspe veio abaixo como uma névoa.

O goblin espirrou. Isso era licor! Aquele anão lhe cuspiu álcool!

Beba fundo, cante alto, deixe os espíritos te guiar! Cante alto, pise rápido, e quando você dorme eles te vejam, que uma jarra de vinho de fogo esteja em seus sonhos para te cumprimentar! — E então, mais uma vez, o anão deixou algumas gotas de sua bebida escorrer no monstro confuso.

O goblin estava totalmente perplexo com tudo isso, mas ele estava ciente o suficiente para alertar seus companheiros. Ele abriu a boca e…

…não fez nenhum som.

Sua língua se moveu e ele respirou, mas sua voz não saiu.

Então, por que acha que isso aconteceu?

Olhando atentamente, o goblin pôde ver uma linda garota humana ao lado do anão, agitando um cajado de monge.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, nos conceda paz para aceitar todas as coisas…

O goblin não pareceu entender as palavras que a voz baixa dizia. As engrenagens enferrujadas em sua pequena cabeça se tornaram tão rápidas quanto podiam, mas de alguma forma ele se sentia tonto e um pouco… agradável.

A última patrulha ainda não voltou. Por que não tirar mais outro cochilo até eles voltarem?

Ele deu um bom bocejo e voltou para a cama.

E depois morreu.

Ele nunca soube que fora vítima de Silêncio e Estupor. Matador de Goblins cortou a sua garganta com uma adaga antes de ele ter tido a chance de descobrir. O goblin abriu os olhos, o sangue surgiu da ferida, mas Matador de Goblins pressionou mais a adaga e o matou.

Alta-Elfa Arqueira e Lagarto Sacerdote desceram da galeria sem fazer barulho e colocaram suas armas para trabalhar por todo o grande salão. Eles tinham que se mover rapidamente a fim de terminar o serviço enquanto as magias lançadas por Sacerdotisa e o anão ainda estivessem ativas.

Eles tinham que ser calmos, implacáveis. Cortar a garganta de um goblin dormindo, o esmagar até ele parar de se mover e então partir para o próximo. Não era uma batalha. Era só um trabalho.

Mas não era um trabalho fácil. A elfa fez um som baixo de cansaço. Ao cortar a terceira ou quarta garganta goblin, ela não podia mais esconder o esforço que aquilo estava exigindo dela.

O suor formava gotas em sua testa. A lâmina de sua faca de pedra estava empapada de gordura que não sairia não importa o quão bem ela limpasse.

Ela olhou em volta, tentando ver o que seus companheiros estavam fazendo. O homem-lagarto carregava uma espada feita de dente polido de algum animal. A lâmina branca já ficara vermelha, mas o fio de corte não parecia ter ficado cego. Ela realmente devia ter sido forjada por algum poder milagroso.

Matador de Goblins, é claro, se movia facilmente de uma garganta para outra.

E ele nem sequer tem uma arma especial. Alta-Elfa Arqueira observou as mãos dele com a perspicuidade da visão que apenas um caçador élfico possuía. Quando ele matou outro goblin, ele cortou alguns dedos para liberar a adaga de sua mão, e trocou sua lâmina cega por essa nova.

Entendi. A elfa deslizou sua própria lâmina de volta a bainha e o imitou.

Ela começou a matar mais dos monstros adormecidos. Cada um morreu sem saber que não foi o primeiro e não seria o último.

E no meio do massacre, a elfa viu sua raiva diminuindo.

Não era que tivesse esquecido a visão terrível da outra elfa. Isso era impossível. E mesmo assim…

— ………

Em seu coração, havia uma frieza mecânica, estranha e nova.

Ela engoliu em seco inconscientemente. Os olhos dela começaram a divagar… na direção do homem, com sua armadura barata de couro e elmo de aço, que ainda cortava indiferentemente as gargantas dos goblins. Enquanto ele fazia seu trabalho, ele tomava um tempo extra para apunhalar cada corpo duas vezes, para assegurar que estava morto.

Como ele pode pensar em fazer isso sozinho? …Bem, acho que ele sempre trabalhou sozinho antes.

O que ela estava pensando desse homem? A elfa não sabia, mas mesmo enquanto fazia essa pergunta, suas mãos estavam arrancando a faca dos dedos de um goblin.

Eles acabaram de matar cada goblin no salão grande em pouco menos de trinta minutos.

A bela pedra branca, os desenhos cativantes nas paredes; tudo estava encharcado de sangue de goblin.

Quando chamam o campo de batalha de um mar de sangue, eles não estão brincando, pensou a elfa.

Por fim, o anão e Sacerdotisa vieram sem fôlego da galeria. Matador de Goblins olhou para os aventureiros reunidos, depois apontou para mais profundamente adentro com a espada. Ele estava coberto de sangue da cabeça aos pés, mas… para a elfa, isso fazia pouca diferença. O mapa deixava claro que existia outro cômodo mais para dentro. Eles procurariam por sobreviventes e os matariam.

Seus olhos encontraram os dele; pelo menos, ela pensou que sim, embora não conseguisse ver através do capacete dele. Com um aceno, Matador de Goblins partiu com seus passos ousados. Como sempre, ele não olhou para trás.

Todo mundo estava em silêncio. O que ele faria se ninguém o notasse saindo?

Deuses.

O grupo se entreolhou e sorriu silenciosamente.

Foi Sacerdotisa que seguiu atrás dele primeiro. A elfa foi depois, com seu arco curto tão pesado quanto chumbo em suas mãos. E, finalmente, o homem-lagarto e o anão se juntaram a eles, o grupo todo preparado para sair do salão… e foi quando aconteceu.

Houve um baque de ar. No silêncio, foi quase o suficiente para os abalar.

Todos ficaram imóveis, olhando na direção que pretendiam se aventurar.

Matador de Goblins ergueu rapidamente seu escudo e desembainhou a espada — uma das lâminas que ele tirou de um goblin — com sua atenção jamais vacilando.

Houve outro barulho, mais perto do que o primeiro. Algo estava chegando.

Então, da escuridão, ele emergiu.

Ele possuía um grande corpo azul-escuro. Chifres cresceram em sua testa, e um odor pútrido os assaltava com cada respiração da criatura. Em suas mãos havia um martelo de guerra enorme.

Os olhos da elfa se arregalaram de choque, e sua voz saiu em um sussurro tenso. — Ogro…!

A primeira coisa que eles ouviram quando o som foi restabelecido no local, foi o eco dessa palavra.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

5 Comentários

  1. “Os olhos da elfa se arregalaram de choque, e sua voz saiu em um sussurro tenso. — Ogro…!

    A primeira coisa que eles ouviram quando o som foi restabelecido no local, foi o eco dessa palavra.”

    Na real ela quis dizer: F****!
    KKKKKKK

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!