MdG – Volume 1 – Capítulo 9 (Parte 2 de 2)

— Aqui vamos nós. — Matador de Goblins se apoiou com a espada quebrada enquanto se levantava. — Onde… está minha bolsa?

— Hum, aqui está…

Seus membros exaustos tremiam tanto quanto as mãos. Mas ela não deixou transparecer ou se queixou. Ela apenas puxou o equipamento para perto.

— …Muito bem.

Matador de Goblins remexeu o conteúdo de sua bolsa, finalmente encontrando o pergaminho.

Sacerdotisa empalideceu. Ela olhou para Matador de Goblins; aos seus olhos, ele estava turvo pelas lágrimas. — Você não pode…

— Se trará a vitória nessa batalha, eu certamente posso. — Ele balançou a cabeça suavemente. — E se isso funcionar… as coisas não serão tão ruins, pelo menos. — Ele forçou suas mãos e ficou de pé, depois pisou em frente.

Ele ouvia o sangue pingando de alguma de suas feridas, manchando o chão de vermelho debaixo de seus pés. Contanto que não o fizesse escorregar, ele não se importava.

— Orcbolg! — gritou Alta-Elfa Arqueira quando o viu.

— Eu tenho um plano. Aqui vai.

— Claro! Faça! — Alta-Elfa Arqueira não perguntou qual era o plano, apenas disparou outra flecha de seu arco.

— Certo, Corta-barba! Eu tenho fé em você!

— Lamentavelmente, estamos muito pressionados aqui.

Anão Xamã e Lagarto Sacerdote assentiram um para o outro, depois saltaram para fora da luta sob a cobertura das flechas da elfa.

Mas…

— Oh…! — Alta-Elfa Arqueira mordeu os lábios.

Matador de Goblins entrou na frente deles, levantou seu escudo quebrado e tomou uma postura firme. Suas feridas eram obviamente severas. Mais um golpe poderia dividir sua carne e ossos, o matando.

Não, espere… Alta-Elfa Arqueira balançou a cabeça. Ele está procurando por sua chance… Ele faria alguma coisa. Se houvesse algo que pudesse ser feito, ele encontraria. Então me deixe fazer minha parte também…

O anão agarrou alguns escombros do chão e lançou com a funda. O homem-lagarto correu em direção ao ogro, o cortando com as garras. E claro, as flechas da elfa caíram como chuva.

— Seus insetos! Seus insetinhos irritantes!

O ogro, com flechas alojadas por todo o seu corpo, ficou enfurecido. Seu martelo de guerra se movia para lá e para cá com um som parecido com uma tempestade. Cada golpe derrubava mais escombros e fazia os cadáveres no chão se remexerem.

Apesar de tudo, Matador de Goblins manteve sua distância, sem vacilar.

O ogro olhou com desgosto para o guerreiro meio morto, e então, distorcendo o rosto horrivelmente, ele riu.

— Pensando nisso, se bem me lembro, sua amiga pequenina estava sem milagres… sem força… — Ele esticou sua palma gigante. — Carbunculus… Crescunt… — A bola de fogo branca familiar começou a se formar na palma de sua mão enquanto ele entoava as palavras.

Alguém engoliu em seco.

— Ah… Oh! — Sacerdotisa tentou ficar de pé, mas tombou de volta ao chão. Seu cajado de monge caiu de suas mãos trêmulas.

— Não se preocupe. Se por acaso ela sobreviver a isso, eu prometo não a matar… imediatamente.

O fogo na mão do ogro brilhou em branco, depois finalmente azul, ameaçando queimar os aventureiros. Não havia como detê-lo.

— Eu tenho comida, depois de tudo. O que eu preciso é de alguém para me ajudar a reconstruir as fileiras dos meus goblins.

Naquele momento, Matador de Goblins saltou como uma verdadeira flecha em direção a bola de fogo em expansão.

O ogro bufou. O que esse guerreiro poderia fazer com ele? Esse aventureiro moribundo?

— Me deixe conceder teu desejo, garoto! Eu vou te queimar até que nem mesmo cinzas permanecerão! — A última das palavras de poder, as palavras que poderiam alterar o próprio funcionamento do mundo, foi expelida por ele e foi para a chama turbulenta.

— Iacta!

A bola de fogo voou da palma do ogro. Ela parecia colocar o próprio ar em chamas.

A morte correu em direção a eles.

Sacerdotisa — ou foi Alta-Elfa Arqueira? — gritou.

Lagarto Sacerdote e Anão Xamã se moveram para proteger as mulheres.

E depois:

— Tolo.

A palavra calma e solitária de um homem encontrando seu inimigo.

Um rugido.

Um clarão.

E finalmente, silêncio.

— Hmm… Hrr? — O ogro não conseguia entender o que havia acontecido.

Ele se sentiu flutuando. E depois seu corpo enorme bateu em uma pilha de escombros.

Talvez ele tenha feito a bola de fogo poderosa demais e fora um pouco atordoado pelo recuo. Ou isso foi um estratagema de seus pequenos oponentes?

Na verdade, não era nenhum dos dois.

— Hrgh…?! — O ogro perdeu o fôlego com o impacto. Ele conseguia ver suas próprias pernas.

Mas, elas não estavam mais ligadas a ele.

Matador de Goblins caminhava em direção ao ogro, com fumaça subindo dele. Finalmente o ogro se deu conta que foi cortado ao meio.

— Grr… Hrrrghh! — Quando abriu a boca para falar, ele começou imediatamente a vomitar sangue. No mesmo momento, seu nariz se preencheu com o odor de ferro e outro cheiro estranho.

Sal.

A câmara estava inundada com água do mar.

A água estava vermelha de sangue: do ogro e de Matador de Goblins.

Por quê?! O que aconteceu?! O que… o que você fez comigo?!

Quando o ogro se contorceu de dor, suas entranhas se esparramaram para fora, uma voz calma o respondeu:

— O pergaminho continha a magia Portal.

Matador de Goblins desfez o nó e revelou o pergaminho mágico sendo queimado por uma chama sobrenatural. O fogo continuou a consumir a folha mesmo enquanto encharcada com água, até que finalmente o pergaminho desapareceu sem deixar vestígios.

— Ele abriu para o fundo do mar. — Quando Matador de Goblins falou, a elfa (com efeito, todos) ficaram sem palavras.

Pergaminhos eram procurados por um bom preço, mas mesmo muito raramente, existia um aventureiro que não desejava se separar de um.

Um artefato antigo, esse pergaminho continha a magia perdida Portal. Escreva o destino nele com as palavras de poder, e poderia abrir uma porta para aquele lugar. Para um aventureiro, poderia ser uma arma poderosa ou uma rota de fuga salva-vidas. Mas, as chances de tal item aparecer em um mercado eram quase nulas. Se você quisesse um, você tinha que procurar em masmorras profundas e ruínas antigas por si mesmo…

…e ainda assim, você precisaria de uma insígnia platina ou muita sorte para encontrar um. Matador de Goblins usou seu pergaminho sem hesitação, e nem sequer para escapar, mas para atacar. Isso depois de ele ter pagado Bruxa da Guilda dos Aventureiros um bom dinheiro para conectar o pergaminho ao fundo do mar.

A água do mar retida viera voando com tanta força que extinguiu instantaneamente a bola de fogo e cortou o ogro em dois.

— Hrg! Yarr! Graaaa!!

O ogro observou mudamente suas pernas caídas no chão. Ele se debateu na piscina de água, cuspindo e tossindo sangue. Ele não mostrava nenhum sinal de curar a si mesmo. Os ogros possuíam grandes capacidades de regeneração, mas mesmo eles não podiam voltar das garras da morte.

Eu vou… morrer? Eu? Morrer?!

— Grrrrawwwwooooohhhh!!

Talvez fosse a falta de sangue no cérebro, mas o ogro foi apanhado por um terror inarticulado. Ele deu uma grande e patética lamúria.

Ele não conseguia entender.

— Agora mesmo… o que você disse que era? — O homem caminhou até o ogro e ficou acima dele.

Que não era um goblin, não é?

As palavras deram voltas na cabeça do ogro, como um eco.

Isso significava… Isso significava…

Que ele havia preparado essa magia… apenas para matar alguns goblins!

— Esqueça. Não importa.

O ogro se moveu para falar; se era para implorar por sua vida ou para lhes provocar uma última vez, ele mesmo não sabia. Mas, suas últimas palavras não chegaram a sair de sua boca. Matador de Goblins esmagou a garganta do ogro com seu calcanhar. O ogro deu um suspiro final mudo, olhando vagamente para o capacete de aço impiedoso.

— Você está muito longe de ser tão assustador…

O homem levantou a espada. Era isso. O fim. O ogro viu os olhos frios brilhando na escuridão dentro desse elmo.

— …quanto os goblins que já enfrentei.

A consciência do ogro foi consumida pela dor e a humilhação, medo e desespero; depois ela foi submersa em escuridão; então foi extinguida.

Quando eles saíram das ruínas, eles encontraram uma carruagem élfica à espera deles. O guerreiro dragãodente escoltara com sucesso a prisioneira ao seu lar, e a sua gente enviou apressadamente um grupo às ruínas. Os guerreiros que acompanhavam a carruagem portavam, para um elfo, um equipamento impecável. Todo ele era feito apenas da generosidade da terra: madeira, couro e pedra.

— Bom trabalho! O que reside nessas ruínas? São os goblins…?

Mas os aventureiros subiram diretamente na carruagem. Mesmo o anão, que normalmente teria algumas boas palavras para os elfos, não disse nada.

Todos eles estavam completamente esgotados.

— …Em todo caso, nós procuraremos lá dentro — disse um dos guerreiros, grosseiramente. — Por favor, tenham uma boa viagem até a cidade. — E com isso, eles desapareceram nas ruínas.

O cocheiro deu um grito aos cavalos, e a carruagem começou a se movimentar com o barulho de cascos.

O sol se pôs sem que o grupo percebesse, e as luas seguiram o seu curso. Logo o sol estava nascendo de novo. A luz do amanhecer brilhava no céu pálido do outro lado do horizonte. Deveriam ter levado a noite toda até chegarem à cidade.

Os companheiros de viagem deixaram suas armas envoltas em embrulhos. Cada um deles estava à vontade; ninguém se movia. Bem, quase ninguém.

Alta-Elfa Arqueira se moveu até que sua boca estivesse perto da orelha de Sacerdotisa.

— Ei… — disse ela.

— Sim…? — Sacerdotisa ergueu seus olhos preguiçosamente. Ela estava morta de cansaço, estafada de suas orações consome-alma, e, no entanto, estava com um sorriso valente.

— Ele é sempre assim? Digo, ele sempre faz esse tipo de proeza? — A elfa não parecia melhor que Sacerdotisa, preta e vermelha de sangue e mal conseguia manter os olhos abertos. Ela apontou para Matador de Goblins, caído contra uma caixa de madeira.

Ele ainda usava sua armadura amassada e segurava sua espada quebrada… mas ele estava finalmente dormindo. Todos os traços de suas feridas foram removidos pela magia Revigorar de Lagarto Sacerdote. Não era uma surpresa que fosse muito mais poderosa que Cura Menor de Sacerdotisa. Essa era simplesmente a diferença entre um ranque porcelana e um prata.

O problema…, meditou ele, balançando a cauda, o problema é a fadiga acumulada.

Depois de acabarem com o ogro, Matador de Goblins queria fazer uma busca por quaisquer goblins sobreviventes. Embora estivesse claro que ele era o membro mais esgotado do grupo. E ele tentava de tudo para não demonstrar isso…

— Sim… — disse Sacerdotisa com uma expressão tensa. — Ele é sempre assim.

— Hmm…

— Mas você ficaria… surpreendida com o quanto ele se preocupa com os que estão ao seu redor. — Ela tocou na armadura dele com seu dedo fino. Ele não se mexeu. Ela acariciou suavemente o couro sujo. — Ele não tem que nos ajudar. Ou nos ensinar. Mas ele o faz.

— Hmm — murmurou outra vez a elfa.

Ela estava zangada.

Ela não conseguia se conciliar com o que aconteceu. Isso não foi uma aventura. Como alguém poderia chamar aquilo disso?

— Não posso evitar. Eu não consigo suportar Orcbolg.

E isso foi tudo.

Eu pensava que as aventuras deveriam ser divertidas.

Isso não foi uma aventura.

Não teve a emoção ou a satisfação de descobrir coisas novas, o prazer de experimentar o desconhecido.

Ela foi deixada com apenas um cansaço vazio.

Então, existia pessoas por aí que não faziam nada além de caçar goblins, nunca encontrando um único prazer em suas “aventuras”.

Para ela, isso era imperdoável.

Ela era uma aventureira. Ela deixara a floresta porque amava aventuras.

A elfa assentiu com convicção. Sim. Algum dia ela o mostraria. Talvez não agora, possivelmente, mas um dia.

— Eu vou lhe mostrar o que uma verdadeira aventura é.

Pois, se ela não mostrasse, ele — e todos eles — poderiam estar perdidos…

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

    1. Harém do Matador de Goblins só aumentando, famoso garanhão, mais um pouco vai virar o Geraldão de Rivia!

  1. “Eu pensava que as aventuras deveriam ser divertidas.

    Isso não foi uma aventura.

    Não teve a emoção ou satisfação de descobrir coisas novas, o prazer de experimentar o desconhecido.

    Ela foi deixada com apenas um cansaço vazio.”

    E assim a criança é apresentada ao mundo dos adultos, onde as coisas não são um mar de rosas, e se revolta com essa descoberta…
    Poor child…

    Muahhahahahahahha
    Elfa chata da p…

    Ponto pra Sacerdotisa (palmas)

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