MdG – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 4 de 9)

Fim da tarde. O sol estava bem além de seu zênite e logo começaria a sumir.

O primeiro a notar seu regresso foi o dono da fazenda.

Uma estrada pequena percorria para cidade ao lado dos campos, agora colorido com o pôr do sol.

Ele caminhava lentamente por ela com seu passo ousado e despreocupado. Como sempre, ele usava um capacete sujo e uma armadura de couro, com sua espada de comprimento estranho e seu pequeno escudo redondo.

O dono tinha ido reparar uma cerca quando sentiu um cheiro de ferrugem e parou.

— …Você está de volta — disse ele brevemente.

Ele assentiu, andando até o dono. — Sim. Terminei meu trabalho.

— Estou vendo…

O dono balançou a cabeça para o jeito sincero do outro homem e desviou o olhar de seu capacete, que escondia seja o que for que a figura misteriosa estivesse pensando.

O dono não tinha nada a dizer a essa pessoa que ele tinha conhecido — ou achava que o tinha conhecido — desde a juventude do homem.

Na verdade, o dono tinha dificuldade em lidar com ele. Ele podia o entender, não queria o dispensar assim, mas também não era alguém que o dono queria por perto.

— Você sabe quantos anos já se passaram? — murmurou ele sem perceber.

Quando os goblins atacam sua aldeia, é como uma força da natureza, como um ato dos deuses.

Então, o homem tinha tido apenas uma escolha; correr. Mas ele não tinha só se salvado; ele agora estava revidando.

Isso não era suficiente?

— Sim. — Ele assentiu como se tivesse entendido.

— Então não exagere… eu tenho pena daquela garota.

— …Eu terei cuidado — respondeu ele, com um pouco de hesitação.

Era isso que deixava tão difícil, o dono pensou.

Se ele fosse um homem que não se importasse com nada, o dono não precisaria se preocupar com ele.

Talvez ele tenha adivinhado o que estava na mente do dono, pois ele continuou com sua voz ríspida: — Desculpe. Eu gostaria de alugar seu estábulo.

— …É o de costume. Não se preocupe com os detalhes, faça o que quiser.

Ele pareceu suportar essa curta resposta sem preocupação, e apenas passou pelo dono.

Agora, na fazenda propriamente dita, ele deu a volta atrás do celeiro de gado. Após um monte de grama seca, logo depois. Havia um estábulo bem velho que fora abandonado há muito tempo.

Tábuas tinham sido marteladas nas paredes e no teto para tapar os buracos. Era uma coisa certamente grosseira, mas isso era o trabalho de suas mãos, que ele tinha feito sem reclamar.

Vaqueira, a filha adotiva do dono e sua amiga desde a infância, tinha insistido que faria, mas ele achou que deveria fazer esses serviços, pois era o inquilino.

— Oh! — Assim que ele foi abrir a porta, uma voz soou atrás dele com um entusiasmo infantil. Ele se virou e viu uma mulher jovem apontando para ele; Vaqueira. Ela correu na direção dele, com seus peitos saltando, agitando seus braços.

— Bem-vindo de volta! Deuses, você podia ao menos me falar quando voltar!

— Eu não queria te incomodar.

— Não me incomoda me dizer olá.

— Não? — Ele assentiu calmamente; Vaqueira cutucou ele com o dedo indicador.

— Não! Então me cumprimente apropriadamente!

Ele não disse nada por um momento, então balançou a cabeça lentamente. — …Cheguei.

— Assim está melhor. Bem-vindo de volta. — Vaqueira sorriu, e seu rosto estava radiante como o sol.

— Eu ouvi você a primeira vez.

Ele abriu a porta desajustada com um rangido e entrou no estábulo.

Vaqueira o seguiu, se espremendo através da porta.

Ele parou e virou sua cabeça, olhando para o rosto de sua velha amiga. — Como está o trabalho…?

— Eu estou meio que em uma pausa.

— Hum?

— É!

Ele não parecia especialmente interessado. Ele jogou sua bolsa no chão; então pegou uma pederneira e acendeu a luz de um lampião velho pendurado em uma viga.

O estábulo pairou na visão, parecendo mais como uma caverna em si.

Um tapete estava esticado sobre o chão, e o lugar era a morada de algumas prateleiras estreitas e uma variedade de itens misteriosos. Frascos, ervas, uma arma estranha em forma de cruz quebrada, livros antigos escritos em letras indecifráveis, a cabeça de alguma besta… e muitas outras coisas cuja natureza Vaqueira não podia começar a adivinhar.

Ela suspeitava que mesmo a maioria dos aventureiros não seria capaz de compreender o que ele faria com muitos desses itens.

— Tenha cuidado.

— Com certeza…

Ele falou essas palavras para ela enquanto ela cutucava a coleção, então se sentou com força no meio do chão. Ele tirou a espada de seu quadril e a colocou de lado, a bainha e tudo mais, depois começou a desmontar sua armadura de forma barulhenta.

Vaqueira se ajoelhou próxima a ele, olhando as suas mãos sobre seus ombros.

— Ei, o que está fazendo?

— Reparando os golpes em meu capacete, mudando as dobradiças na minha armadura, consertando minha cota de malha, afiando minha lâmina e polindo a borda de meu escudo.

— O resto eu consigo entender, mas… a borda de seu escudo? Que diferença isso faz?

— No momento certo, isso pode ajudar.

— Hum…

Seus movimentos eram diligentes e cuidadoso. Com um martelo, ele retirou e substituiu os acessórios metálicos, modelou as correntes interligadas de fio dobrado de metal, e poliu sua espada e escudo com uma pedra de amolar.

Uma arma poderia ser substituída por algo tomado de um goblin, mas a armadura era uma questão diferente. Era extremamente incomum ver um goblin com um elmo de metal que realmente pudesse proteger sua vida. E mesmo que ele encontrasse um, ele não teria tempo para remover o seu capacete e colocar o outro.

Um golpe azarado na armadura, que estivesse em seus últimos momentos, teria boas chances de ser fatal. Isso fazia seu mais importante trabalho, o seu salva-vidas.

Vaqueira observava cada movimento dele com um olhar atento e um sorriso que sugeria que ela estava se divertindo.

— …Você acha isso interessante?

— Acho. Eu sempre gosto de ver o que você está fazendo. — Ela riu e estendeu seu peito um pouco teatralmente. — Então? Como foi a sua aventura?

Ela se aproximou dele, com os olhos brilhando. Havia um cheiro doce de leite nela.

Com um tom extremamente indiferente, ele respondeu:

— Havia goblins lá.

— Ah, é?

— Sim — respondeu rapidamente ele, ainda trabalhando. Então, ele acrescentou: — Alguns.

Vaqueira olhou atentamente suas costas, então…

— Iaa!

Ele soltou um suspiro quando sentiu de repente alguma coisa pesada e macia em suas costas.

Vaqueira se pressionou contra ele e bagunçou seu cabelo.

Suas mãos sossegaram; ele se virou para ela com um olhar desconfiado. — O que foi?

— Nada! Só queria o parabenizar pelo trabalho bem-feito — disse ela, bem-humorada.

— Eu teria cuidado se eu fosse você.

— Ahh, está tudo bem!

— Não está tudo bem.

— Aconteceu alguma coisa interessante? Que tipo de lugar era?

Ele ficou em silêncio. Talvez ele tenha sentido que nada que ele dissesse seria de alguma utilidade.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

6 Comentários

  1. ‘Havia um cheiro doce de leite nela’ Rapaz o que vc ou o tio dela fizeram nela? ( ͡° ͜ʖ ͡°)-☕

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