MdG – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 6 de 9)

— Por favor, deixe dessa vez… Por favor, por favor, me deixe avançar dessa vez…

No corredor fora da sala de entrevista, uma prece soou entre os aventureiros que estavam esperando.

O interlocutor era um homem de meia idade vestido com trapos.

Provavelmente um monge, bem, não qualquer monge.

Sua pele já estava enrugada devida à idade. Com ele estava um cajado de madeira surrado, provavelmente uma espécie de arma. Sua testa estava raspada, mas aparentemente ele não tinha óleo para colocar, e o resto de sua cabeça estava coberta de cabelos finos.

— Cale a boca, vovô! Você não precisa cantar o tempo todo só porque você é um monge. Você está me incomodando pra caramba!

O crítico era um jovem com olhos frios muito parecido com um guerreiro.

Suas palavras foram grosseiras, mas ele mesmo se mexia como se incapaz de manter a calma. Cada vez que ele fazia isso, sua armadura bem usada e seu machado de guerra colidiam um com o outro, com um barulho de metal raspando. Eles não estavam enferrujados, mas eles estiveram em dias melhores. Não eram equipamentos da melhor qualidade.

— Maldição. Eu deveria pelo menos ter limpado eles…

— Tarde demais. O velho é a única pessoa aqui com casa própria. Faz você querer ter religião — sussurrou tranquilamente uma jovem quase maga ao homem com o machado. — E um pouco de polimento não teria feito muita diferença, de qualquer maneira.

Com as orelhas superficialmente pontudas escapando para fora de seu capuz rasgado, uma meia-elfa. Seu grimório, que ela paginou de uma ponta a outra agitadamente, também parecia bem usado. A capa estava caindo e tinha sido reatada com cola.

— Ahh, pega leve. Não faz nada bem ficar aborrecido…

O interlocutor então deu uma gargalhada. Ele era jovem, baixo, de fato, mal sendo a metade do tamanho de qualquer outra pessoa ali. Ele vestia uma armadura de couro impecável, uma adaga no quadril e botas revestidas com pele em seus pés.

Ele era um rhea batedor, ou de qualquer forma, assim se assumia.

— Sim, eu sei — disse o guerreiro com machado. — Mas há um grande salto entre Aço e Safira, tanto em pagamento quanto em missões.

— Se pudermos avançar hoje, podemos finalmente parar de caçar ratos nos esgotos — acrescentou a elfa maga.

O guerreiro continuou, rápido como um machado se movendo: — Nós podemos finalmente fazer mais do que os juros sobre nossas dívidas. O velho aqui será capaz de se manter. Isso é importante.

— Eu também preciso disso. Os grimórios são caros. Se uma oração é o que é necessário para conseguir esse ranque, eu vou rezar todos os dias — murmurou a elfa filosoficamente. Ela encarou o rhea batedor sob seu capuz. — De qualquer forma, não aja como se isso não te preocupasse.

— Sim, ha-ha-ha… — O rhea coçou a cabeça de constrangimento. — Eu estou, sabe, eu estou bastante assustado com o perigo. E eu não tenho nenhuma dívida, então…

— Seu vagabundo.

— Covarde.

O guerreiro e a maga pareciam irritados, mas o batedor apenas deu de ombros.

— Próximo, por favor!

A voz animada de Garota da Guilda flutuou da sala de reunião.

— Oh! Esse sou eu! — O rhea batedor avançou agilmente.

O monge calvo se agarrou a sua armadura, praticamente de joelhos. — Por favor… Por favooor seja forte…

— Eu sei, eu sei, dá o fora — disse o batedor, afastando a mão do monge. Ele abriu a porta…

— …Caramba.

…e seus olhos se arregalaram.

Três pessoas sentadas na sala de reuniões. A primeira, era uma funcionária da guilda, a recepcionista de olhos brilhantes. (Um dia ele espancaria ela até que chorasse). A segunda era outra mulher magra vestindo o uniforme da guilda. Quem era essa? O rhea batedor inclinou a cabeça. Ele não conseguia se lembrar se tinha a visto antes. E então, havia um aventureiro de ranque alto, mas com um aspecto muito estranho.

Um capacete de aparência barata. Uma armadura de couro suja. Equipamentos pouco adequados para uma aventura. Ele não tinha uma espada ou escudo, mas não havia como se enganar.

— M-Matador de Goblins…

— Há algum problema? — perguntou ele.

— N-nenhum, senhor. — O batedor respondeu ao homem brusco com um riso obsequioso, voltando para trás para fechar a porta.

A verdade era que o rhea não odiava o homem chamado Matador de Goblins, o homem que tinha chegado ao ranque Prata mediante a simples trabalhos envolvendo goblins. O rhea precisava de dinheiro. Ele queria fama. Ele queria ser reconhecido. Mas, ele odiava ter medo, e ele não queria morrer. Ele estava seguro de que Matador de Goblins devia se sentir de forma semelhante. Se ele realmente não gostava de alguma coisa sobre o homem, era aquele capacete inexpressivo…

Matador de Goblins observou o rhea batedor se sentar de frente para ele.

O batedor tremia levemente. Ele não odiava Matador de Goblins, mas ele também não achava fácil encarar ele.

— Então, hum, é agora, né? O teste de avanço. — O rhea deu uma risada fraca e esfregou as palmas das mãos. — Vamos atravessar Safira, além de Esmeralda, Rubi… O que vocês acham de irmos direto a Cobre?

— Eu duvido irmos tão longe — respondeu Garota da Guilda com um sorriso. Ela folheou alguns papéis em sua mão. — Não posso deixar de notar a sua armadura e botas novinhas em folha.

— Oh, você notou? — Os cantos dos lábios do batedor se ergueram, e ele colocou os pés em cima da mesa. Suas botas estavam completamente reluzentes, sem arranhões, e mesmo a luz negra quase não conseguia escapar de sua superfície. — Elas são de qualidade bastante elevadas. Eu as tinha atapetado e tudo mais. Elas são perfeitas para mim.

— Sério!

Ele falhou em perceber o que estava por vir.

— Por que você é o único a ter se dado tão bem quando todos vocês assumiram as mesmas missões? — Seu tom era terrivelmente simples e sistemático. — Esses equipamentos são bastante luxuosos mesmo na perspectiva da recompensa agregada do seu grupo. Espero que não tenha havido um erro de cálculo.

Garota da Guilda disse em seguida, ignorando a forma do rhea batedor que subitamente ficou rígido.

— Alguns relatórios bastante ambíguos sugerem que, ao contrário de seus amigos, você está pegando missões por contra própria.

— Oh, isso é, bem, é…

O batedor puxou apressadamente os pés da mesa.

Ele olhou para a direita, para a esquerda. Não havia nenhum lugar para correr. Ele falou o mais rápido quanto poderia pensar.

— S-sabe, eu tive recentemente uma encomenda em casa…

— Uma mentira.

A palavra afiada veio da funcionária que tinha permanecido em silêncio até aquele momento.

O sorriso congelou no rosto do batedor, mas ele se amaldiçoou interiormente.

Ela usava a espada e a balança em volta do pescoço, o símbolo do Deus Supremo.

— Eu juro em nome do Deus Supremo. O que ele acabou de dizer foi uma mentira.

O milagre Discernir Mentira. Malditos sejam esses videntes!

É por isso que ele não tinha a reconhecido. Ela era uma inspetora, uma funcionária da guilda, mas também uma sacerdotisa do Deus Supremo, governante da lei e da justiça.

O que era isso? Eles tinham suspeitado dele? Mas, por quê?

Garota da Guilda fez um show através de seus papéis. Nós sabemos tudo, a atitude dizia.

— Parece que você obteve equipamentos novos depois da invasão nessas ruínas outro dia… Ah, entendo.

Com um sorriso e uma risadinha, ela bateu as mãos e assentiu.

— Você disse aos outros que você estava indo em frente explorar, encontrou um baú do tesouro, manteve o conteúdo para si e os vendeu!

— Tsc…

Isso era exatamente o que ele tinha feito.

Adentrar de repente em ruínas, monstros e armadilhas eram muitas e letais. Era apenas natural que o rhea batedor se voluntariasse a fazer o reconhecimento, e que seus companheiros concordassem. Ele tinha entrado nas ruínas sutilmente, explorou vários caminhos, e então…

Ele encontrou um baú do tesouro.

Ele não estava com armadilha, e abrir a fechadura foi fácil. No seu interior havia dezenas de moedas antigas, mas douradas. Baús do tesouro vazios não eram uma coisa rara. E ainda havia muito espaço em sua mochila.

— T-tipo assim, is-isso foi… eu…

Ele riu desajeitadamente, coçou a cabeça como uma criança repreendida e assentiu. Seria muito benéfico para si simplesmente se desculpar, ele decidiu.

— Eu… sinto muito.

— Bem, isso torna as coisas difíceis. — Garota da Guilda riu.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

4 Comentários

    1. Essa parte do capítulo e a próxima é mais para “conhecermos” a Garota da Guilda, e de brinde nesse capítulo soubemos um pouco mais sobre os rheas, que eles são bem pequenos, o que me dá mais confiança em dizer novamente que eles nada mais são do que os hobbits aqui nessa história…

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