MdG – Volume 4 – Capítulo 9 (Parte 1 de 5)

A palavra taverna podia significar muitas coisas. Nem todos esses lugares eram ligados à Guilda dos Aventureiros.

Vague pela cidade e encontrará várias, com quadros de avisos e luzes brilhantes.

Elas normalmente tinham estalagens anexadas, e por vezes os aventureiros só desejavam uma mudança de ares. Esses eram lugares onde aventureiros podiam facilmente aparecer, comer e beber tanto quanto quisessem, e depois sair para cidade.

Em uma dessas tavernas, um menestrel dedilhou seu instrumento e começou a cantar:

 

Quantas vezes nos encontramos e separamos?

O que importa, proclamou você, é o que está no coração

Sem ninguém para gostar, elas vêm e vão

Até que viste aquela coisa fofa um dia; oh-ho!

Seja você um senhor ou um espião,

Você não sabe o nome dela, mas você aprecia os olhos dela

Você exerce sua conversa mole, mas passa pela porta da taverna

Você percebe tarde demais: ela já se foi

Quantas vezes nos encontramos e separamos?

Uma reunião, uma despedida, um coração partido…

 

— Muito bem então. Acho que temos um grupo, ei, Escamoso?

— Ha-ha-ha. Ainda que eu desejasse um guerreiro e um batedor.

Sentados bem adentro da taverna aconchegante, dois aventureiros conversavam afavelmente e riam.

Um era um anão, que acariciava sua barba branca, batia em sua barriga redonda e se servia de vinho e comida. E do outro lado dele estava um homem-lagarto, comendo com as próprias mãos, com seu corpo grande e escamoso sentado em um barril de vinho. Eles bebiam o vinho que lhes foi trazido como água, de uma forma que ultrapassava o saudável e já era quase festivo.

— Um bloqueador, um patrulheiro, um sacerdote-guerreiro e um mago. Eu diria que temos uma boa combinação.

— De fato.

Lagarto Sacerdote deu uma dentada na perna de javali que segurava com as duas mãos, enquanto Anão Xamã lambia um pouco de vinho que derramara na ponta de sua barba. Ele despejou vinho da garrafa em seu copo com um glub, glub, depois sorveu o que transbordava. Ele bebeu o vinho em um só gole e soltou um arroto.

— Não é o suficiente na linha de frente, não é o bastante na retaguarda, conexões insuficientes para obter equipamentos e itens… Reclame de tudo e depois não terá mais nada para reclamar.

— Acontece, acontece — disse Lagarto Sacerdote, batendo a cauda no chão. — Um grupo com três usuários de magia é certamente abençoado.

— Tenho que admitir, é um bocado surpreendente.

— Você quer dizer…?

— Você. — O anão com o rosto vermelho empurrou seu copo vazio em direção ao Lagarto Sacerdote. — A princípio… achei que não ia se interessar em fazer grupo com outro clérigo.

— Ha-ha-ha-ha-ha-ha! Oh, mestre conjurador. Nunca sei o que vai dizer a seguir. — Lagarto Sacerdote riu deliberadamente. Terminado com a carne, ele roeu o osso da perna, dando uma demonstração feroz de seus dentes. — Todos os nossos semelhantes vieram do pó do mar, então não há por que para mim ficar chateado por um descendente dos ratos nos conduzir. — Talvez o álcool estivesse acabando, pois Anão Xamã parecia enfadado enquanto Lagarto Sacerdote revirava os olhos triunfantemente. — Brincadeira, brincadeira.

— Receio não conseguir achar engraçado — disse Anão Xamã, mandando embora a indiferença do lagarto.

— Bem, cada um tem sua própria crença. Se alguém optasse por discutir sempre que houvesse uma diferença, não haveria fim.

— Mas hereges e seguidores do Caos são diferentes, não…?

— Isso não é argumento. Eles devem ser mortos até que não restem nenhum.

A cabeça de Lagarto Sacerdote balançou com a maior severidade; era difícil dizer quão sério ele estava sendo.

Anão Xamã empurrou seu prato vazio, agarrando uma atendente para pedir um pouco de carne, e repousou o queixo nas mãos.

— Só por curiosidade, ouvi rumores sobre os homens-lagarto. Eles são todos canhotos, ou que seus corações estão na direita. Algo disso é verdade?

— Hmm. Não posso falar quanto a localização do meu coração, mas quanto as minhas mãos, diria que sou ambidestro. — A ideia de que todos os homens-lagarto eram canhotos porque a mão esquerda de um deus os criara era, aparentemente, um absurdo.

Lagarto Sacerdote abriu significativamente ambas as mãos garradas. Então sacudiu a língua como se tivesse acabado de pensar em algo.

— Ouvi dizer que anões podem flutuar, de vez em quando.

— Se tivermos vinho, não há nada que não possamos fazer. Vinho e boa comida!

Anão Xamã disse a mesma coisa de vários meses antes e sorriu.

— Se tiver vinho, não há nada que não possa fazer. Vinho e boa comida!

Tal como muitos grupos de aventureiros, eles foram criados na taverna. No começo, contudo, era apenas três pessoas, e antes disso, apenas uma.

O vento soprava ao longo do canal, tornando o ar refrescante enquanto entrava pela porta. Era o anoitecer, e a taverna da cidade da água estava viva com os sons de vozes fazendo brindes.

— Mas, meu honorável tio! Não acha que é demais para pedir, mesmo ao seu sobrinho?

Anão Xamã soou muito descontente. Ele cruzou os braços com firmeza e virou as costas.

Em frente a ele estava um anão com mais músculos, mais barba e mais rugas do que ele, bebendo cerveja com uma expressão fixa. No seu banco havia um martelo de guerra bem-usado, juntamente com um gancho. Ele era um quebra-escudos. O rosto sombrio do anão veterano, com o aroma da cerveja flutuando na frente dele, mostrava com eloquência a seriedade da situação.

— Mesmo assim, escute. Nesse momento, você é o único quem posso chamar.

— Mas até mesmo para você, querido tio; simplesmente não há nada a se fazer sobre isso. — Anão Xamã bebeu sua cerveja e fixou seu tio com os olhos meio fechados.

O rosto do anão tinha ainda mais rugas do que antes, e estava começando a ficar careca. Ele estava realmente envelhecendo. Era compreensível: um dos jovens de sua tribo partira em busca de magia e agora estava agindo como um rufião.

Mesmo assim… isso!

— Ir em uma aventura com um elfo? — disse Anão Xamã. — Um escolhido provavelmente pelo seu líder, rei, ou seja lá quem?

— Provavelmente.

— Alto, características chamativas, nobre demais; quase que uma beleza reluzente, e, oh, tão frágil.

— Muito provavelmente.

— Ainda um orador elegante, um poeta excelente, e os deuses lhe deram o dom de arquearia?

— Bem, ainda não os conheci…

— Baaah! — Absolutamente impossível, sem chance! Anão Xamã balançou as mãos calejadas enfaticamente. Ele não estava brincando. — Não conseguiria respirar junto de alguém assim. Eu morreria de asfixia!

— Ouça, seu egoísta…

— Disse que o mundo está em perigo? Estou mais do que disposta a ajudar… mas não com um elfo!

Então aconteceu. Uma xícara veio girando pelo ar, jorrando vinho, e acertou a parte de trás da cabeça do tio de Anão Xamã.

— Ei! Diga isso de novo!

De trás de seu tio, que agora estava de bruços na mesa e esfregando a cabeça, veio uma voz clara e tonificada. Anão Xamã olhou para cima e viu uma elfa de olhos afiados, com as mãos na cintura em uma postura imponente. Ela era de fato delicada, esbelta e de aparência modesta; e ela usava um traje justo de caçador, com as orelhas balançando energicamente. Alguém não teria adivinhado isso pelo seu tom de voz, mas suas orelhas, mais longas do que as de outros elfos, eram a prova de que ela era descendente dos antigos alto-elfos.

Esperando um combate, Anão Xamã agarrou seu machado, mais do que feliz em participar, mas um felpubro com rosto de cachorro disse: — Eu vou dizer quantas vezes você quiser!

A pelugem do felpubro era difícil de se dizer, mas a julgar pelo peito extenso, provavelmente era uma mulher. E sua voz rouca, mas aguda, a fazia parecer que fosse, em termos humanos, só uma adolescente. Provavelmente não uma aventureira. Ela estava em boa forma física, seus movimentos eram precisos; sinal de treinamento adequado. Uma soldada, muito provavelmente. Ela limpou o vinho que escorria de sua cabeça e bufou.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

4 Comentários

  1. A Alta-Elfa Arqueira já chegou fazendo confusão, mas parece que tem um motivo para isso kkkk

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!