MdG – Volume 4 – Capítulo 9 (Parte 4 de 5)

A carruagem deixou o portão, envolto pela noite. A essa hora, ninguém além de aventureiros teriam achado mais seguro viajar em uma caravana ou algo parecido. Mas os três não tinham tempo, e eles foram forçados de mais de uma forma.

O veículo que estavam não era um muito bom, era apenas um de carga ligeiramente modificado. E o cavalo era apenas mediano… bem, talvez um pouco abaixo da média. Anão Xamã e Lagarto Sacerdote tinham as rédeas. Alta-Elfa Arqueira estava observando o céu, com seu arco preparado.

Viajar de carruagem significava ir mais rápido do que uma pessoa podia andar, mas mais lento do que um cavalo podia correr. Anão Xamã não estava satisfeito com essa situação. Ele queria ter obtido a melhor carona e o melhor cavalo possível, para não falar do condutor. Mas os fundos que recebera de seu tio eram limitados, assim como o tempo. Ele foi obrigado a ceder.

— E ainda por cima temos que ir devagar. Que desgraça.

— Tenha em mente que não temos o luxo de mudar de cavalo em um dos postos intermediários. — Sentado ao lado dele no assento do condutor, Lagarto Sacerdote respondeu o comentário cauteloso de Anão Xamã. — E se considerar o problema que teríamos se corrêssemos e assim atraíssemos atenção indesejada, dessa forma é de fato mais rápida.

— Atenção indesejada? — Alta-Elfa Arqueira inclinou a cabeça, agitando a ponta de suas orelhas em direção ao assento do cocheiro.

— Bandidos ou salteadores, suponho.

— Certo…

Seu rosto franziu com a resposta, como se achasse isso muito desagradável. Anão Xamã captou a demonstração clara de emoção com sua visão periférica e fez um som de aborrecimento.

— Estivemos bem de alguma forma na cidade, pelos auspícios daquela adorável senhora, mas agora estamos em campos aberto.

— Assim que nos afastarmos do santuário do Deus Supremo, pode ser só uma questão de tempo até que algum espírito mau decida atacar — disse Lagarto Sacerdote.

— Está falando daquilo que chamam de benção de deus? Nosso deus da ferraria e do aço só é bom para encorajar em batalha… — Não obstante, Anão Xamã murmurou uma oração ao grande deus Krome. Ele soltou os ombros e balançou a cabeça, dizendo sem malícia: — Preciso ao menos rezar para que a nossa elfa não perca a coragem quando for preciso.

— Hum…! — As orelhas da elfa dificilmente poderia deixar passar esse comentário desagradável. — Apenas veja! Você vai se curvar para me agradecer quando isso acabar!

— Ahh, claro. Não posso dizer que estou muito esperançoso. — Ele agitou sua mão aberta. Alta-Elfa Arqueira bufou furiosa e rolou de costas. Anão Xamã apanhou a dica dela, olhando para o céu. Estava cheio de estrelas e com as duas luas. As estrelas brilhavam como se alguém tivesse espalhado joias preciosas sobre o veludo preto. As luas brilhavam como um par de olhos, verdes e frios.

Talvez fosse o verão que se aproximava que dava ao ar sua lentura incomum e fazia difícil respirar.

— Eu poderia fazer com facilidade… — murmurou Alta-Elfa Arqueira. Anão Xamã sentia o mesmo, embora não tenha dito nada.

Seu grupo chegou a um pedaço abandonado de terra que parecia alguma vez ter sido uma aldeia. A estrutura sombria das casas sob a luz da lua lançava sombras repulsivas nas ruas. Esse cadáver em forma de aldeia se tornara ermo, deixado à proliferação; teria parecido desolada mesmo à luz do dia. Mas agora, à noite, não seria surpreendente encontrar fantasmas ou carniçais ali…

— Hr-ah?

Alta-Elfa Arqueira fez um som estranho. Ela olhou sobre os ombros, com seu nariz cocegando.

— O que foi agora? Parou para cheirar as flores ou algo assim? Hã?

— Ah, pare. Há um cheiro estranho… — Ela balançou a mão na frente do nariz, lançando uma olhadela ao redor da área com uma expressão de profunda suspeita. — É… meio forte e meio irritadiço… E posso sentir embora não haja vento algum.

— …Enxofre, muito provavelmente.

— Isso é enxofre?

— Algum tipo de vapor misturado com enxofre, para ser mais preciso.

O que isso significava não passou por eles. Eles se calaram e engoliram em seco coletivamente. A elfa olhou para cima, com uma expressão preocupada no rosto.

— Em cima de nós!

Parecia mais como uma máquina do que um ser vivo, com carne na forma de um inseto artificial. Seu corpo era vermelho, e a cabeça pontuda como se estivesse usando um chapéu. Algo vermelho.

Ele batia asas que lembravam as de morcegos, e garras curvas e cruéis eram visíveis em suas mãos.

Um demônio inferior. E havia dois deles. Isso foi um encontro aleatório.

— Eles estão vindo?! — gritou Anão Xamã, chicoteando com as rédeas e instando o cavalo a seguir. O animal relinchou, tendo sentido coisas que não eram desse mundo. As rodas da carruagem começaram a girar a sério quando o cavalo partiu com toda força.

— Faça ele ir mais rápido…! Não, me dê as rédeas. Você prepara suas magias!

— Todas sua!

Praticamente jogando as rédeas em Lagarto Sacerdote, Anão Xamã se virou no seu assento. Ele foi cuidadoso, é claro, para segurar firme a alça de sua bolsa de catalisadores em seu ombro para que não voasse.

— Não podemos fugir? — disse Alta-Elfa Arqueira, lambendo os lábios enquanto seu arco lançava flecha atrás de outra.

— Não sei quanto a isso, mas… — disse Anão Xamã.

— Não podemos arriscar da informação escapar — disse Lagarto Sacerdote acenando com a cabeça tão calmamente quanto se estivesse preparando jantar. — Temos que matá-los.

Os demônios pareciam ter a mesma ideia. Com uma rajada de ar, um deles mergulhou na carruagem. Enquanto alguém gritava que a iniciativa fora tomada, houve uma colisão, e lascas de madeira voaram.

O demônio atingira a carruagem por trás, com suas garras tão mortais quanto qualquer arma.

— Ergh! Pfah! — Anão Xamã retirou pedaços da carruagem de sua barba e berrou: — Se você destruir essa coisa, nós seremos aqueles que arcaram com a culpa!

— Vou cuidar da segurança do cavalo, então, se fizer a gentileza… — respondeu Lagarto Sacerdote.

O próximo ataque veio do céu enquanto conversavam.

Um mergulho veloz, com as asas dobradas. Alta-Elfa Arqueira franziu a testa; a criatura estava com uma lua nas costas. Suas orelhas tremeram, e ela puxou a corda.

— Seu estúpido, fedorento…!

— AAARREMMEERRRR?!?!

Um grito de outro mundo se seguiu. Alta-Elfa Arqueira não perderia a chance para disparar. O demônio, agora com sua mão pregada no transporte pela flecha, se contorceu, destruindo a madeira com as garras.

— Isso vai te mostrar!

A última coisa que o demônio viu foi uma elfa puxando o arco bem na sua frente, com a flecha com a ponta de broto.

A corda fez um som que seria apropriado a um instrumento musical de alta qualidade; ela lançou a flecha no globo ocular do demônio e através de seu cérebro. O pescoço da criatura quebrou para trás com a força do golpe. O cadáver pendeu flacidamente, raspando pelo chão. Alta-Elfa Arqueira deu um sorriso de apreço pelo trabalho feito. — Esse já era!

— Bom trabalho! Mas como ele é uma espécie de fardo, talvez você pudesse soltá-lo de nossa carruagem?

— Sim, claro… guh, o quê?

No espaço de alguns instantes, vários fios de cabelo de Alta-Elfa Arqueira foram apanhados por uma garra e lançados dançando pelo ar. O monstro que viera correndo desferiu uma pancada em sua nuca. Alta-Elfa Arqueira parou, tremendo, ainda segurando a haste da flecha que puxara. Ao mesmo tempo, o demônio morto deslizou no chão, quicando com um baque.

— Teve um pequeno susto aí?

— Não estou com medo, estou com raiva!

Ela se enfureceu com a provocação de Anão Xamã, que estava com a mão preparada na bolsa de catalisadores o tempo todo, depois olhou para o céu. Com um corpo de demônio a menos a bordo, a velocidade estava aumentando de novo; mas não seria páreo para uma criatura com asas.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

2 Comentários

  1. Enxofre e logo em seguida apareceu dois demônios…, pensei que era uma referência, mas logo em seguida lembrei que não é kkkkk

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