MdG – Volume 5 – Capítulo 2 (Parte 6 de 10)

— A… acho que estou bem.

— Entendi. — Matador de Goblins assentiu. Ele inspecionou a machadinha ensanguentada e estalou suavemente a língua. Não estava gordurenta, mas a lâmina começava a cegar de tanto cortar ossos. Ele a jogou fora e, pela segunda vez, sacou o arco pequeno de suas costas.

Quase que como uma reflexão tardia, ele disse: — Luz Sagrada. Foi uma boa escolha.

— Hum…? — Demorou alguns instantes para perceber sobre o que ele falou. Ele está… me elogiando? — Oh! Uh… hum, o-obrigada…? — Ele realmente está, não é?

Ela sentiu um calor de felicidade surgir em suas bochechas, mas antes que pudesse se espalhar mais, ela suprimiu o sorriso iminente. — Heh-heh.

Apenas esse risinho lhe escapou. Não era hora para apreciar o elogio. Em vez disso, ela manteve seu rosto normal, agarrou seu cajado quase que implorando e ofereceu orações pelos mortos. Matador de Goblins não a impediria de fazer isso.

— Três antes, sete aqui, e isso dá dez. — Ele possuía uma flecha pronta e estava analisando a zona.

Uma análise cuidada do caminho ensanguentado e enlameado revelava uma série de corpos no chão. A maioria eram de humanos, mas vários eram de goblins. Os aldeões deviam ter resistido. Os monstros pareciam ter sido mortos com enxadas ou ferramentas agrícolas similares. Havia dois — não, mais três — cadáveres de goblins.

— Então, a contagem final é treze.

Matador de Goblins foi chutando cada um dos corpos para ter certeza de que estavam mortos. Um dos cadáveres largou uma adaga; ele a pegou e colocou no cinto. Ele não discriminava quando se tratava de armas. Uma simples pedra poderia matar um goblin. Mesmo de mãos limpas, existia formas. Ainda assim, havia momentos em que uma arma real era o fator decisivo. Era importante recolher sempre que a oportunidade surgia.

— Foi dito que havia cinco ou seis na praça, se bem me lembro.

— Isso tornaria dezoito ou dezenove no total, certo? — Sacerdotisa acabara suas preces; ela se levantou, retirando a poeira dos joelhos.

A expressão de Matador de Goblins estava escondida atrás do capacete, mas Sacerdotisa, por sua vez, parecia confusa. — Não é bem vinte…

— Não estou gostando da maneira como estão mantendo todos os seus reféns em um só lugar, tampouco. Nem de como os corpos dos aldeões que reagiram parecem intocados.

Sacerdotisa pôs o dedo nos lábios refletidamente, depois murmurou: — Não é muito… goblinesco, não é?

Muitas coisas aconteceram em cavernas, ruínas e outros lugares profundos que ela não queria se lembrar. Mas, quando e onde os goblins sobrepujavam seus inimigos, eles tendiam a ter sua diversão com eles lá mesmo. Eles viam tais lugares como o seu ninho, por assim dizer. Território onde poderiam relaxar. E quanto mais alguém reagia, mais violentos e cruéis os goblins ficavam.

Goblins eram astutos e covardes, malvados e cruéis, e acima de tudo, eles eram leais aos seus apetites. Eles provavelmente nem sabiam o que significava adiar a satisfação de seus próprios desejos. Para eles pegarem reféns em solo inimigo e continuarem a pilhar sem pôr a mão em seus prisioneiros…

— Acha que há outro ogro ou elfo negro por trás disso?

— Não sei — disse Matador de Goblins. — Pode ser apenas goblins.

Ele falou com uma forma sua muito característica; por alguma razão, Sacerdotisa achou isso tranquilizador. Matador de Goblins era um pouco perverso, um pouco estranho, um pouquinho bizarro e certamente teimoso. Ela esteve frequentemente correndo muito perigo durante seu ano com ele. E, às vezes, ela sentia que não poderia deixá-lo sozinho ou que ele não tinha jeito.

— Você pode estar certo — disse ela, e sua voz foi muito gentil. Mas então…

— Hã…?

Algo atiçou o seu nariz, um odor quase indetectável no vento. Um aroma doce e estimulante muito parecido com álcool.

— Ele deve estar usando Estupor — disse ela.

— Então ele decidiu colocar os reféns e os goblins para dormir. — Matador de Goblins olhou ao redor, depois para a praça da cidade, de onde o cheio presumivelmente vinha. De fato: fumaça se levantava da área, demais para ser causada por algo além de magia.

— Muito eficiente.

— Ha… Ah-ha-ha-ha… — Um sorriso bonito surgiu no rosto de Sacerdotisa, e ela desviou os olhos.

Nada mais eficiente do que colocar um ninho inteiro para dormir. Claro…

Ela pensou essas palavras, mas não as disse.

— Orcbolg, pensei que nunca viria aqui!

— Não?

Alta-Elfa Arqueira estava com o pequeno peito estufado; Matador de Goblins respondeu com um toque de aborrecimento. Quando ele e Sacerdotisa chegaram, a praça da cidade já estava nas mãos de seu grupo.

Toda a pilhagem que os goblins fizeram foi empilhada ao redor dos reféns. Os próprios aldeões, dezenas deles reunidos no centro da praça, ainda estavam dormindo, mas até onde Matador de Goblins conseguia ver, ninguém estava ferido. Tendo confirmado isso, ele assentiu.

Em seguida, ele voltou sua atenção para os cadáveres dos goblins.

— Seis deles aqui para você. — Anão Xamã arrastara os corpos para um lugar e agora estava limpando as mãos com um olhar de desgosto. —  Aagh! Deus do céu, mas como os goblins fedem.

— Você tem certeza?

— Certo de que fedem ou que estão mortos? A resposta é sim, em ambos os casos. Enfim, todos as minhas magias acertaram. Como está, Escamoso?

— Hum. — Lagarto Sacerdote, que ainda estava observando vigilantemente do outro lado da praça, assentiu com seriedade. — Dei cabo de três com minhas garras e presas. A senhora patrulheira levou três com seu arco. Seis entre nós. Sem dúvida, penso.

— Entendi. Dezenove, então — murmurou Matador de Goblins, alcançando o monte de cadáveres. Ele estava checando se algum dos goblins mortos carregava uma espada.

Ele achou uma e a extraiu, checando a lâmina, e quando a considerou aceitável, pôs na bainha. Por fim, ele pareceu ter se acalmado.

— Hum, ei, Orcbolg. Onde está a garota? — A queixa anterior de Alta-Elfa Arqueira pareceu ser esquecida. Quando ela disse a garota, ela só queria dizer uma pessoa.

— Eu a mandei para trazer a criança.

— Acha que ela vai ficar bem?

— Sim. — Matador de Goblins assentiu. — Não acho que vai ter problema. Essa tem sido minha experiência, pelo menos.

Ele olhou mais uma vez para os aldeões. Ele localizou a pessoa que parecia tanto a mais velha quanto a mais bem vestida e foi até ela.

— Você é o chefe da aldeia?

— Ér, bem, sim. Quem são todos vocês…? — Ele olhou para Matador de Goblins, com a suspeita multiplicando as rugas que havia no rosto já idoso.

Matador de Goblins respondeu mostrando a sua insígnia.

— Somos aventureiros.

— Aventureiros… E você é ranque prata…

O chefe da aldeia piscou os olhos várias vezes, depois a compreensão surgiu em seus olhos. — Poderia ser você o matador de goblins?

— Sim — murmurou Matador de Goblins, evocando um grito do chefe.

— Oh-ho! Estou tão, tão feliz por ter vindo! Obrigado! Obrigado…!

O velho grato pegou a mão de Matador de Goblins com as suas duas, as quais pareciam como galhos retorcidos. Suas mãos e braços, uma vez desenvolvidos pelo trabalho agrícola, já não possuíam sua grossura ou força antiga. Ainda assim, Matador de Goblins poderia certamente sentir o aperto de mãos quando o homem moveu a mão para cima e para baixo.

— Existem algumas coisas que quero lhe perguntar.

— Com certeza. Qualquer coisa.

— Em primeiro lugar, vocês possuem um herbalista ou curandeiro em sua aldeia? Um clérigo de algum tipo? Alguém capaz de fazer milagres?

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. O comportamento desses goblins foi bem estranho, até o MdG que é o “maior especialista” em goblins percebeu isso assim que chegou na aldeia.

    Com essa pouca informação sobre esse estranho comportamento desse grupo de goblins, vai fica difícil para o MdG criar um plano contra eles.

    Mas acredito no MdG, ele já fez estratégias incríveis e inesperadas enquanto lutava com seus inimigos.

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