MdG – Volume 5 – Capítulo 2 (Parte 7 de 10)

— Em primeiro lugar, vocês possuem um herbalista ou curandeiro em sua aldeia? Um clérigo de algum tipo? Alguém capaz de fazer milagres?

— Hum-hum… Dependemos de sacerdotes visitantes quando precisamos de um clérigo. Quanto a um herbalista, bem, temos uma… — O líder parecia pesaroso. Talvez achasse que os aventureiros solicitassem algum pagamento, ou ao menos apoio. — Mas ela é apenas uma jovem. Ela se tornou a nossa curandeira recentemente, quando os pais morreram em uma epidemia. Ela não…

— Entendi — disse imediatamente Matador de Goblins, como se isso fosse perfeitamente natural. — Nós vamos ajudar a cuidar dos feridos. Meu grupo… — Ele pausou por um segundo. — …tem dois clérigos.

— O qu…?

— Sinto muito por dizer que não posso ceder qualquer poção. — Ele tocou em sua bolsa de itens. Os pequenos frascos de dentro sacudiram. — Se o que disse sobre a sua curandeira é verdade, duvido que ela vá ser de muita ajuda. Só posso lhe oferecer alguns milagres e primeiros socorros.

Quando Matador de Goblins perguntou “Isso te chateou?”, o chefe balançou a cabeça vigorosamente. A suspeita em seus olhos se tornou primeiramente em espanto e depois em respeito.

Os menestréis errantes contavam contos maravilhosos de um aventureiro que corria em auxílio de qualquer aldeia que fosse atacada por goblins; em suas canções, esse herói era bem-falante e bonito. Havia mesmo um pingo de verdade no que cantavam?

— Ha-ha-ha! Agora sei por que me impediu de criar um guerreiro dragãodente — disse Lagarto Sacerdote, se aproximando dos dois.

— As pessoas da fronteira são supersticiosas — disse Matador de Goblins. — Especialmente sobre ossos.

— Que atencioso.

— Eu era igual, em tempos.

Lagarto Sacerdote revirou os olhos mediante o entendimento. — Verdade. Naga ou não, muitos podem pensar que só um necromante poderia controlar um guerreiro esqueleto. — Depois disse: — Temos que classificar os feridos pela gravidade de seus ferimentos — e com um balançar de sua cauda, ele se afastou.

Os homens-lagarto sempre foram combatentes. Como raça, muitas vezes criavam médicos superiores.

— Estou surpresa — murmurou Alta-Elfa Arqueira, observando a conversa de longe. Ela tinha finalmente o arco em mãos e estava examinando a área, mas estava se esforçando para manter Matador de Goblins no canto de sua visão.

Ele estava agora sentado entre os aldeões, cuidando deles com os itens que pegou de sua bolsa. Ele estava enfaixando as feridas com ervas que pararia o sangramento e neutralizariam o veneno, aplicando pressão sobre os ferimentos. Até aqui, ele parecia de alguma forma diferente.

— Sinto muito, muito obrigada. — Ao lado dele, uma mulher de túnica curvava a cabeça; a curandeira de quem falaram, provavelmente.

As orelhas pontudas de Alta-Elfa Arqueira se contraíram, e um sorriso felino veio ao seu rosto. — Pelo visto Orcbolg realmente consegue conversar, quando quer.

Ao lado dela, Anão Xamã acariciou a barba e concordou. — Bom, Corta-barba é o mais bem conhecido de todos nós. — Ao contrário de sua companheira elfa, que ficou de guarda quando a luta terminou, o anão não tinha quase nada para fazer.

Não que ele fosse pouco útil. Ele não sabia primeiros socorros, mas andava com muitos pequenos itens que serviam como catalisadores para sua magia. Um deles era o vinho de fogo, que ele descrevia como “bom para beber e bom para curar”. Era um destilado poderoso, que também fazia dele um excelente desinfetante. Ele concedera um jarro dele para a curandeira, que aceitou com abundante gratidão, para o claro embaraço do xamã. O estilo dos anões era lembrar as dívidas e gratidão bem como rancores, embora não se preocupassem com pequenas coisas.

— Matador de Goblins, o aventureiro mais amado na fronteira… Não é essa a canção que te fez recrutá-lo?

— Bem, é, claro. Mas acontece que a canção e a realidade não têm muito em comum… — Alta-Elfa Arqueira estufou a bochecha com desagrado enquanto pensava na balada que ouvira.

Ela dizia que ele foi feito das coisas mais severas, que ele era taciturno e leal. Um homem sem ganância, que não desprezaria até a menor recompensa. Quando goblins apareciam, ele iria até mesmo nos lugares rústicos e mais remotos para encontrá-los, e sua espada mataria todos eles. Ele era mantido quase como se fosse um santo ou ranque platina.

— Mas quando você pensa nisso… Ele se dá muito bem com aquela garota na guilda.

— Dizem que aqueles que não conhecem a verdadeira situação são rápidos em ficar com ciúmes. É igual em todos os lugares. — Anão Xamã olhou para a elfa com um sorriso provocador. — Então você não devia a invejar só porque ela te faz sentir vergonha da tábua que você chama de peito.

Ele podia praticamente ouvir a raiva se apoderando do rosto de Alta-Elfa Arqueira.

— Afinal, ao contrário de uma certa clériga, elfas levam séculos para se desenvolverem!

— Oooh, não acredito que disse isso! Seu grande barril de…!

— Ho-ho-ho-ho! Dentre os anões, um belo corpo é uma exigência para um homem de verdade!

E lá estavam eles discutindo, o mesmo de sempre; mas não era um sinal de que haviam baixado a guarda. Anão Xamã não retirara a mão de sua bolsa de catalisadores, e as orelhas de Alta-Elfa Arqueira ainda se moviam, ouvindo. Ela ouviu os dois conjuntos de passos de aproximando.

Um era uma criança, o outro era os passos familiares de Sacerdotisa. Alta-Elfa Arqueira sabia tudo isso muito bem.

— Irmãzona!

— Oh…!

Um brilho surgiu no rosto da curandeira, que estava se movendo entre os feridos. A menina foi correndo até ela, e a curandeira a pegou com as duas mãos, a abraçando no peito. Ambas desataram a chorar, sem ligar para os olhares ao redor.

Matador de Goblins observava isso em silêncio, até que por fim, ele olhou em outra direção. Ele não pôde olhar mais porque Sacerdotisa, que fora buscar a criança, tinha um sorriso no rosto por algum motivo.

— O que foi? — perguntou ele.

Ela entrecerrou os olhos um pouco com a pergunta direta e respondeu inocentemente: — Heh-heh. Ah, nada… Só estava pensando que você parecia… feliz.

— É mesmo?

— Sim, é.

— É mesmo………?

Matador de Goblins checou para se garantir que seu capacete ainda estava em boas condições. Não havia nenhum sorriso na viseira.

— Muito bem. Cuide do tratamento dos aldeões. E os funerais.

— Os funerais… — Sacerdotisa colocou o dedo magro e pálido em seus lábios, pensando por um momento. — Os únicos ritos funerários que conheço são os da Mãe Terra. Acha que vai ficar tudo certo?

— Duvido que vão se importar. Desde que seja o ritual de um deus da ordem.

— Está bem. Deixe comigo — respondeu prontamente Sacerdotisa, então ela olhou em volta e partiu, segurando seu cajado de monge. — Desculpem o atraso!

— Ah, você veio. — Lagarto Sacerdote, cuidando de uma lesão com sua mão áspera e escamada, virou a cabeça com seu longo pescoço para olhar para ela.

— Sim — disse ela acenando firmemente com a cabeça, e começou a pegar ataduras e pomadas de sua bolsa. — Ainda tenho um milagre sobrando, se houver algum ferimento grave, eu posso usar Cura Menor nele…

— Nesse caso, vou deixar esse paciente com você. Ele parece ter sido espancado brutalmente, e todos as minhas artimanhas pouco serviram.

— Tudo bem!

Quando ela vivia no templo, a função de Sacerdotisa era o tratamento de aventureiros feridos. Quando ela dobrou as mangas e começou a se mover entre os feridos, ela projetava mais autoridade do que sua idade sugeria.

Matador de Goblins a seguiu com os olhos, refletindo sobre uma pergunta na mente.

Certamente esse não pode ser o fim, mas…?

— Orcbolg!

O grupo inteiro olhou para Alta-Elfa Arqueira com o aviso claro e incisivo.

Ele deve ter ficado observando da sombra de um barril. Agora, ele saltara das sombras e corria pela estrada; um único goblin tentando escapar.

Ele corria como uma lebre assustada; quase escorregando e tropeçando, ficando cada vez menor ao longe.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

  1. Vai levar uma flechada do Matador de Goblins e contaminar o ninho todo como o veneno da flecha… Pelo menos é isso que eu espero!

  2. Aparentemente um “final feliz” para essa aldeia.
    Espero que esse goblin leve uma flechada envenenada…

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!