MdG – Volume 5 – Capítulo 2 (Parte 9 de 10)

Elas olharam uma para a outra, ambas ensopadas da cabeça aos pés, e desataram a rir alegremente.

Não importa quão alto o ranque um aventureiro alcance, a ansiedade de combate nunca desaparece. Alta-Elfa Arqueira poderia ser ranque prata, mas ela ainda era jovem e inexperiente; e Sacerdotisa, ainda mais. Elas poderiam ser de raças diferentes, mas mentalmente possuíam quase a mesma idade.

Elas se sentaram uma ao lado da outra, olhando para o céu. As estrelas estavam cobertas por nuvens cinzentas e espessas, e só a sombra de uma das duas luas podia ser vista.

Ele disse uma vez — quando foi? — que os goblins vinham da lua verde.

As roupas das garotas estavam amontoadas cuidadosamente ao lado da água, juntamente com as armas e ferramentas que usaram na batalha de antes. Matador de Goblins as avisara para serem cautelosas com um ataque surpresa durante o banho.

Talvez ele use aquela armadura e capacete mesmo no banho…

A imagem era engraçada demais e fez as garotas rirem de novo.

— Queria que todos os outros pudessem ter se juntado a nós — disse Sacerdotisa.

— Ah, você sabe. “A lama é mais receptível para um lagarto”. Sério, quem se lava na lama? — Eu simplesmente não entendo o povo lagarto. O sorriso de Sacerdotisa aumentou com a imitação da elfa. — E o anão estava todo: “Vinho é o caminho para revitalizar seus espíritos!”. Quanto a Orcbolg…

— …Está de vigia. Claro. — Sacerdotisa piscou os olhos, com as pestanas umedecidas pelo vapor, e abraçou os joelhos. — Porém, estou um pouco preocupada. Ele não tira um descanso…

— É, bem, ele possui toda essa energia. Tem que matar os goblins, diz ele.

— Isso não… te parece estranho?

Com certeza essa era uma conclusão que ambas poderiam concordar. Era fácil de imaginá-lo, mantendo a vigia nas planícies nevadas e resmungando: “Goblins, goblins”.

— Se deixássemos ele à sua própria sorte, ele passaria a vida toda desse jeito — disse Alta-Elfa Arqueira.

— Acho que… tem razão. — Sacerdotisa concordou avidamente como resposta.

Era realmente verdade. Matador de Goblins havia mudado consideravelmente no ano em que ela o conheceu. Tal como ela. Mesmo assim…

— Bom, graças ao andar com ele que eu consigo visitar o Norte assim, então acho que não me importo — disse a elfa. Ela batia na água impacientemente como se estivesse ganhando tempo para pensar. O movimento agitava o vapor. Sacerdotisa olhou para ela.

— Hum… Você disse que saiu de casa porque queria ver o que havia além da floresta, certo?

— Aham. — Alta-Elfa Arqueira esticou seus braços e pernas, relaxando. Sacerdotisa voltou a se sentar. — Nós dizemos: “Se está vivo até morrer”, mas se tudo o que conhece é a floresta, qual é o sentido?

— Nem consigo imaginar viver por milhares de anos.

— Não é nada de especial. É como ser uma árvore velha e enorme. Você só está… aí.

Não era uma coisa ruim por si só. Alta-Elfa Arqueira traçou um círculo no ar com o dedo indicador. Sacerdotisa naturalmente seguiu o movimento com os olhos. Até o menor dos gestos de um elfo era elegante e requintado.

— Então — disse Sacerdotisa, deslizando na água para esconder o embaraço de quão impressionada ficou com o movimento. — Você partiu por que… ficou entediada? Digo, ouvi dizer que isso acontece muito…

— Você está meio certa. — Ela pausou. — É verdade, senti que existia algo que tinha que fazer.

Ela relatou como caçaria animais abundantes e os devolveria à terra, colheria frutas que existiam em grandes quantidades, molharia a garganta e geralmente manteria os olhos fixos nos ciclos da natureza.

Isso é o suficiente para fazer você pirar. Sempre há trabalho a fazer. E a floresta nunca para de crescer. Mas sabe que mais?

Então, ela piscou e sorriu maliciosamente. — Certa vez, eu vi uma folha sendo levada por um rio. E me perguntei: para onde ela vai? E depois não consegui parar de me perguntar isso. — Ela riu.

Ela havia corrido de volta para sua casa e pegado seu arco, e depois saiu entre as árvores, rápida como uma corça, atrás daquela folha. Quando ela depois olhou em volta, percebeu que deixara a floresta. Ela saltou de rocha em rocha do outro lado do leito do rio, seguindo a folha.

— E… o que achou?

— Nada de interessante, posso lhe dizer isso — disse ela, entrecerrando os olhos como um gato contente. — Um dique. Um que os humanos construíram. Foi a primeira vez que tinha visto um; achei bem interessante. — A folha, carregada pelo riacho, fora apanhada pelo dique.

Nem era como se ela tivesse recebido alguma revelação. Alta-Elfa Arqueira sorriu vagamente. Então ela abriu os lábios bem levemente e assobiou. Ela estava cantarolando uma canção com sua voz clara.

 

O que é que espera no final do rio?

O que é que floresce onde os pássaros voam?

Se o seio do vento está para além do horizonte

Então de onde desce o arco-íris do céu?

Muito devemos caminhar para descobrir as respostas

Mas justo são as coisas que encontramos no caminho

 

Sacerdotisa pestanejou, provocando um “Heh!” satisfeito de Alta-Elfa Arqueira.

Dizia-se que não existia raça tão elegante quanto os elfos.

Alta-Elfa Arqueira olhou para o peito de Sacerdotisa e suspirou.

— Você ainda continua se desenvolvendo… Sorte sua.

— Ér… Quê?! — Sacerdotisa só pôde produzir uma série de ruídos estranhos, e seu rosto ficou completamente vermelho. — D-do que está falando?! E assim do nada?!

— Estamos falando do tempo. A passagem do tempo. Foi sobre isso que era a canção, e foi sobre isso que era o meu comentário.

Ela riu entredentes. Parecia como um sino tocando em sua garganta. Enquanto ria, ela estendeu a mão e passou pelo cabelo encharcado de Sacerdotisa.

— Digo… Eu, ainda tenho algum tempo, mas…

— Só algum? — Sacerdotisa olhou para baixo, sem resistir a mão em seu cabelo.

É, assentiu Alta-Elfa Arqueira. — Humanos… Eles envelhecem e morrem depois de apenas cem anos, não é?

— An-ham…

— Me pergunto por que todo mundo não pode viver por um longo tempo. Talvez fosse algo que fizesse sentido para mim se eu fosse humana.

— …Se fosse nascer como uma humana, você só iria querer que tivesse nascida tão bonita quanto uma elfa — murmurou Sacerdotisa. Ela não lamentava sobre quem era, mas existia sempre o fascínio de se, o desejo em aberto.

Naquele dia, por exemplo. Ela havia lutado lado a lado com Matador de Goblins; ele cuidara de sua retaguarda. E se ela pudesse ter lutado mais? E se ela fosse mais talentosa em milagres ou magias? Ela seria de mais ajuda para ele?

Ela prometera uma vez que se ele estivesse em apuros, ela o ajudaria. Ela fez isso hoje? Nesse ritmo…

Se deixássemos ele à sua própria sorte, ele passaria a vida toda desse jeito.

Ela sentia como se um acerto de contas estivesse vindo, um que não podia ser evitado.

— …

— E se tivesse nascida como uma elfa, aposto que iria querer que fosse uma humana. — Alta-Elfa Arqueira pontuou sua observação dando um pequeno abraço na cabeça de Sacerdotisa antes de soltá-la. Sacerdotisa pensou que podia sentir o cheiro da floresta preenchendo seu nariz.

Certamente ela estava imaginando isso. Esse lugar deveria ser a morada da terra, água e fogo.

Mas… E se ela não estivesse imaginando isso?

Os elfos devem estar ligados com a floresta mesmo quando a deixam para trás…

— Você provavelmente está certa — disse Sacerdotisa, soltando um suspiro. Ela sentiu como se algo profundo em seu coração, algo estagnado e rígido, tivesse começado a ceder.

— Deveríamos pensar em sair? — perguntou ela. — Não temos muito tempo para ficar por aqui.

— Verdade. — Alta-Elfa Arqueira se levantou bruscamente. — O mundo se recusa a ser bonzinho, não é?

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. Não sei por que mas pra min, toda vez que GS fala “é mesmo ?” parece que ele esta sendo sarcástico, pra pergunta dos outros.
    Agora esperar o próximo

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