OPV – V2 – Capítulo 10

Eu olhei na direção da voz. Havia algum tipo de cabana pequena, talvez um galpão, e alguma coisa estava rastejando para nós.

— Menel…

Era o cadáver de um menino, queimado e seus ossos parcialmente expostos. Apenas a parte superior do corpo foi deixada; tudo abaixo da cintura foi cortado ou queimado.

— Foram demônios, eles atacaram a aldeia. — O cadáver olhou para Menel com as órbitas vazias. Menel ainda estava congelado no lugar.

— Eu estava me escondendo como você me disse… Não fiz nada perigoso… — Rastejou para mais perto, arrastando-se para frente com seus cotovelos. — Estava quente, mas aguentei e não fiz nenhum barulho… Porque…

Menel estava tremendo. Suas mãos e mandíbula estavam cerradas.

— Eu sabia que você viria. — O cadáver sorriu; era uma visão horripilante e grotesca, e ainda assim estava quente. — E você voltou. Obrigado.

Com um olhar assustadoramente feliz em seu rosto, o cadáver estendeu a mão para Menel. Menel tentou pegar, mas ele hesitou por apenas um segundo. Eu não sabia dizer se era por causa de sua repulsa ao cadáver, desconfiança dos mortos-vivos, arrependimento por não ter conseguido chegar a tempo, ou consciência culpada. Qualquer que seja o caso, o cadáver sentiu sua rejeição e seu rosto se encheu de desespero.

— Hã…? Espere… Por quê? Eu sou…

Eu sabia que não havia um momento a perder. Eu caí de joelhos, peguei o cadáver enegrecido e abracei o menino com força.

— E… Ei…! — Menel olhou para mim, desconcertado.

Tudo bem, Menel, pensei. Abraçar o morto-vivo não é nada para se ter medo.

— Você fez um ótimo trabalho, — eu disse. — Estamos muito orgulhosos de você.

— Hã? Quem é você, senhor? — Ainda em meus braços, o garoto inclinou a cabeça. Flocos de pele queimada caíram.

— Eu sou amigo de Menel. Desculpe-me por Menel. Ele está um pouco cansado. Ele não está bem com isso. Por favor, perdoe-o.

— Okay. — O menino assentiu.

— Bom garoto. Vamos lá, Menel. — Eu levantei o braço do menino para Menel.

Desta vez, ele não hesitou. Ele apertou a mão carbonizada do menino.

— Sinto muito por não chegar mais cedo. — Sua voz estava tremendo.

— Tudo bem.

— Você deve estar cansado. Vá dormir.

— Boa ideia… Eu me sinto realmente… Com sono…

— Bons sonhos.

— Kay…

Mesmo enquanto tremia, Menel não desviou o olhar.

— Gracefeel, deus da chama. Repouso e orientação.

Era a bênção da Tocha Divina. Quando o menino fechou os olhos em sono tranquilo, a chama elevou-se suavemente no ar e tomou sua alma, juntamente com as de tantos outros à deriva nas proximidades, com ela em direção aos céus.

Menel ficou olhando até que não pudesse mais ser visto e, depois de algum tempo, falou:

— Ei, uh…

— Sim?

— Sinto muito.

— Pelo quê?

Houve silêncio enquanto Menel escolhia suas palavras.

— Eu estava desprezando você e você não merecia isso. Pensei que você fosse um garoto rico e musculoso que violou a proteção dos deuses e desapareceu. Apenas um bom samaritano sem um guia. — Ele suspirou. — Desculpe-me.

— Não é nada de mais. — Dei-lhe um sorriso.

Apesar da profunda angústia em seu rosto, ele me deu um leve sorriso de volta.

Nós dois caminhamos juntos pela aldeia.

Menel não hesitou mais depois do que aconteceu. Ele segurava as mãos dos mortos-vivos que ainda tinham sua inteligência e razão, e se despedia. Aqueles que não tinham mais razão e inteligência, aqueles que foram tomados pelo ódio e pela loucura, eu os purifiquei usando o poder da proteção da deusa do fluxo.

— Gracefeel, deus da chama. Repouso e orientação.

Tocha Divina era uma técnica eficaz contra os mortos-vivos, mas não era toda-poderosa. Se os mortos-vivos resistissem à técnica, se ela teria um efeito, seria uma disputa entre a força da proteção do usuário e a fixação dos mortos-vivos. Por exemplo, se um morto-vivo de alto nível a par de Gus, Sanguinário ou Maria tentasse seriamente resistir, era duvidoso se eu seria capaz de guiar suas almas com minhas orações. Se eu pudesse me tornar um usuário tão avançado de bênçãos quanto Maria, seria possível, é claro.

De qualquer forma, por essa razão eu estava um pouco preocupado que pudesse ter algumas pessoas nesta aldeia que estavam além das minhas habilidades, mas felizmente ninguém aqui se tornou um morto-vivo tão poderoso.

O corpo espectral saiu da mulher enlouquecida que estava na minha frente, brandindo um cutelo. Confuso, seu espírito deu uma olhada ao redor dela e logo entendeu a situação. Coloquei minha mão sobre o coração e como se fizesse uma promessa, disse:

— Deixe o resto comigo. — A mulher sorriu, acenou com a cabeça e mais uma alma retornou ao ciclo eterno.

— Hmm. — Eu chequei os arredores. Era difícil dizer por causa do nevoeiro, mas achei que tínhamos passado pelos lugares óbvios.

— Menel, existem mais casas?

— Mais uma… Siga-me. — Menel seguiu em frente, pisando na terra nua.

A casa, localizada no fundo da aldeia, foi completamente queimada até o chão. Parecia que já fora um prédio bastante grande, com talvez três ou quatro quartos. As outras casas tinham apenas um ou dois quartos grandes, além de um galpão e um curral, na melhor das hipóteses.

Menel olhou para a casa por um tempo. Ele respirou fundo e soltou lentamente. Então, apertando com força a mão em um punho, ele gritou.

― Yo! Você está aqui, Marple?

— Oh? — Um espectro apareceu, atravessando um pilar coberto de fuligem. — É você, Menel. — Ela era uma mulher velha que parecia ter vivido por um bom tempo. Mas as costas dela não estavam curvadas, e ela ainda parecia cheia de vigor e vitalidade.

Pensei brevemente em Gus… E no instante em que percebi uma coisa e um calafrio percorreu-me. Isso era ruim. O fantasma dessa velha mulher chamada Marple provavelmente estava próximo de se materializar completamente. Onde os outros fantasmas eram indistintos e carentes de clareza, o corpo da velha era tão bem definido quanto o de Gus. Eu não podia dizer nada sobre sua capacidade de combate, mas tive a sensação, de alguma forma, de que sua alma seria tenaz. Se ela estivesse confusa ou perturbada e resistisse à minha bênção, era possível que a expulsão pudesse estar além de minhas habilidades. E isso significaria que eu poderia ter que usar uma arma que funcionasse em espectros, uma arma como Lua Pálida ou Devoradora, para cortar o fantasma da velha na frente de Menel…

— Heheh. Você não precisa se preocupar tanto, meu jovem.

Ela viu através do meu momento de hesitação…

Então ela sorriu.

— Eu não estou senil ainda.

A luz da sagacidade certamente residia em seus olhos.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!