OPV – V2 – Capítulo 14

Menel deu de ombros.

— Ela era uma velha esquisita. Você provavelmente percebeu.

O sol estava começando a se pôr abaixo do horizonte. O mundo mudou de vermelho para roxo e depois para a cor da noite.

— Eu nasci no Prado, no norte, na Grande Floresta de Erin, onde os elfos vivem. Minha mãe… Ela tinha uma personalidade muito curiosa quando era jovem e fugiu da floresta. Então, depois de alguns anos, ela voltou grávida de um cara. Ela morreu prematuramente, aparentemente. Quanto a mim, eu estava crescendo mais rápido do que todo mundo ao meu redor, e eu não conseguia me dar bem com eles, não importava o quê. O negócio todo com minha mãe ainda estava no ar… Eles me chamavam de ovelha negra… No final, pensei em fugir da floresta e… é isso. É isso o que acontece com os mestiços como eu.

Muito pesado, e ele apenas começou.

— É claro que o mundo das pessoas também não era um paraíso. Foi só depois que saí que descobri que, apesar de todos os seus problemas, era fácil viver na Floresta de Erin. Felizmente, eu sabia como usar arco e faca, e o mais importante, eu podia ver fadas. — Uma fada parou na ponta do dedo estendido de Menel, sentou, e depois saiu novamente. — Eu era forte o suficiente para matar qualquer coisa ou qualquer um que viesse me matar. Se não fosse por isso, eu estaria em algum beco me prostituindo agora mesmo.

— Você tem um rosto bonito…

— Não concorde, porra.

— Eu apenas pensei que você seria muito popular entre os caras que estão nesse ramo.

— Me erra.

O que ele queria que eu fizesse? Mentir? Dito isso, eu não tinha uma inclinação sexual para com o gênero, então meus pensamentos não eram nada além de “ele tem um rosto bonito”.

— De qualquer forma, o ponto é que, por várias razões, eu me tornei um “aventureiro”. Southmark ainda tinha muitas ruínas, então fiz uso da política aberta do Reino Fértil e me mudei para cá. — Menel estava olhando para longe. — Então, uma das pessoas com quem eu me uni nos traiu e nos envenenou. Eu estava tão perto de ser morto.

Eu não tinha palavras. Quão imoral…

— Foi a ganância que fez isso, duvido nada. Os despojos das ruínas eram bons demais. Por sorte, eu mal toquei na comida envenenada, então não fiquei tão mal. De alguma forma consegui matar o arrombado, mas ainda assim…

Então esse era o padrão nessa região do mundo. Era tão selvagem, e a diferença na forma como as coisas eram aqui em comparação com a minha vida passada era surpreendente. Eu podia imaginar Sanguinário e aqueles como ele fazendo um tumulto aqui fora.

— Todos os outros caras que eu conhecia estavam mortos, espumando pela boca, e o veneno e minhas feridas estavam deixando minha cabeça toda confusa. Não tenho ideia de como fui para a aldeia naquele estado, mas consegui, e foi ali que desmaiei, bem ali fora. E Marple me levou para dentro. Se não fosse por aquela velha senhora… Claro, naquela época ela não era tão velha.

Menel continuou a falar, aquele olhar distante ainda em seus olhos.

— Ela realmente era uma velha esquisita. Acolheu-me, um cara rabugento e mal-humorado caído meio morto no chão, e me deu comida para comer e um lugar para dormir; até me ensinou a viver uma vida adequada. Havia uma tonelada de pessoas assim, circunstâncias diferentes, mas histórias parecidas, todas acabaram vivendo naquela aldeia depois de serem apanhados por ela.

— Quem era ela?

— E eu sei? — Menel balançou a cabeça. — Ela disse que era uma “camponesa sem educação” ou alguma coisa assim. Por favor. Enfim, ela está morta agora, e a verdade foi junto. Acontece muito neste continente.

Lembrei-me de um ditado do meu mundo anterior: “Todo mundo tem uma história.” E, infelizmente, um único ser humano não pode analisar todas.

— Então, ela me aceitou, e ela pode ter sido uma velha que dava muito sermão, mas eu lhe devia muito. Não conseguia fazer o papel de um fazendeiro, mas… Fui até as aldeias próximas, dando a melhor impressão de um caçador. Porque caçar animais perigosos era algo que eu podia fazer.

Menel falou nostalgicamente, como se estivesse valorizando um tesouro quebrado.

— Floresta das Bestas tem uma tonelada de criaturas desagradáveis. As pessoas estavam me achando bastante útil. Encontrei um lugar onde eu pertencia.

E depois…

— Sem qualquer aviso, foi embora.

A aldeia, atacada por demônios; a velhinha simpática, Marple; as crianças no celeiro, tudo isso se foi.

— Então decidi que não seria alguém de quem pegam as coisas. Eu ia ser um tomador e proteger o que ainda restava. Que falhou espetacularmente, graças a você. — O caçador de cabelos prateados deu um longo suspiro. — É assim que esse lugar é. Você tem que ser assim se quiser sobreviver aqui.

Ele soou como se tivesse desistido, como um velho cansado.

— Viver mais que as outras pessoas em um lugar como esse… É doloroso, sabe? Muito doloroso. — Suas palavras não continham intensidade, apenas exaustão e a sensação de que algo dentro dele estava desgastado. — Às vezes eu queria estar morto.

Eu não sabia o que dizer para Menel depois de seu derramamento emocional. Isso me lembrou da minha vida anterior e do tempo em que o deus da morte me jogou em um poço de desespero.

Perguntei-me como poderia consolá-lo. Perguntei-me como poderia encorajá-lo. Eu não sabia. Não podia fazer como Maria, Sanguinário e Gus. Eu não conseguia pensar em nada.

Isso era algo que eu me tornei dolorosamente consciente quando conheci o fantasma da velha Marple. Certamente havia deuses neste mundo, e se você recebesse a proteção deles, você seria capaz de curar feridas e doenças. Era quase um pequeno superpoder, como os que você encontra nos mangás. Mas não era como se isso lhe desse mais experiência de vida. Não lhe dava a capacidade de dizer os tipos de palavras que poderiam ressoar no coração de alguém, palavras que poderiam ajudar alguém em tempos difíceis.

Eu poderia curar o corpo, mas não o coração. Isso era algo que, no final, uma pessoa tinha que se encarregar de si mesma. E enquanto o silêncio se arrastava, não consegui dizer nada. O que eu deveria dizer? Queria que alguém me dissesse. O que eu deveria fazer em tempos como este? Eu não tinha experiência com isso na minha vida anterior, e também não tive muita experiência com isso. Se Sanguinário, Maria ou Gus estivessem aqui, eles poderiam fazer alguma coisa. Mas por tudo que aprendi, não consegui falar as palavras certas, nem mesmo uma única frase, para salvar minha vida.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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