OPV – V2 – Capítulo 18

— Heheh, estou de bom humor hoje! — Abelha disse. — Por que eu não toco para vocês? De graça! — Ela pegou um pequeno instrumento de três cordas em forma de pera (aparentemente era chamado de rabeca), e colocou um arco contra as cordas com um floreio excessivamente dramático.

— Ooh! — Menel disse. — Quanta generosidade.

Ela riu com orgulho. 

— Ah, certo, tem que tocar alguma coisa. Das músicas recentes… Reystov, o Penetrador, é exagerado, mas o Berkeley, Contos de Valor, é tão velho… — Ela murmurou em pensamento por um momento. — Certo, já sei! Posso tocar um dos épicos dos Três Heróis da famosa Matança do Rei Supremo. O Sábio Errante, o Ogro da Guerra e a Filha Amada! O que acham?

Achei que meu coração ia parar.

— Oh, é uma boa ideia, — Tonio disse.

— Parece uma escolha justa, — Menel disse.

— Parando para pensar sobre isso, não toco faz um tempo. Hum, o que foi, Will?

— U-uh, nada, não é nada! Por favor continue! Eu adoraria ouvir!

— Oh! Bom, legal, é exatamente o que eu gostaria de ouvir! Ok, vamos começar!

As cordas dos arcos começaram a vibrar. Era um tom triste, que fez o ar tremer, trazendo de volta lembranças de terras distantes. Meu coração estava acelerado.

— O tempo continua; ou melhor, nós somos os viajantes. — A voz de Abelha, geralmente cheia de alegria, assumiu agora um tom depressivo e lúgubre, as palavras transportando claramente através do ar da noite. — O verdadeiro forte, até mesmo o sábio engenhoso e a donzela santa, eles também perecem semelhante com as voltas da lua, até uma coisa salvo para cinza e um nome perdura…

Os sons das cordas ecoaram pelo ar.

Eles sobreviveram.

— Portanto, deixe a melodia fluir, rezando, para que suas ações sejam eternas, seus nomes heroicos ecoem através dos tempos.

O som de sua voz estava criando uma sensação indescritível de euforia dentro de mim.

Eles sobreviveram.

— Hoje à noite eu falo do assassinato do Wyvern, mas um dos muitos feitos dos três heróis… — Abelha sorriu para mim. — Todos, se eu puder ter o seu silêncio e atenção.

Eles haviam sobrevivido! Seus nomes, mesmo agora, ainda sobreviviam!

No pequeno, empoeirado e mal iluminado santuário, a melodia da rabeca ecoou com o crepitar da fogueira.

Depois de seu prólogo, Abelha falou com maestria sobre os heróis que caracterizariam a história. Eu estava em transe, quase como se estivesse flutuando no ar. Senti tanto orgulho, tanta felicidade… Tive tantas lembranças daqueles dias.

— A primeira, uma criança nascida no sul, em um remoto assentamento de selvagens. Conforme ele levantou seu primeiro choro, uma estrela caiu, é isso que dizem. A criança cresceu forte, e partiu para partes desconhecidas com sua espada demoníaca temperado por uma estrela cadente. Conhecido como o Leão, Espada Estrela, a Lâmina Contratada, Dom dos Deuses para a Guerra… Este homem era Sanguinário, o Ogro da Guerra. Seu caminho era o curso de uma violenta tempestade de sangue, e seus gritos de vitória ressoaram como os rugidos de um leão.

Meu coração estava dançando. Caramba, Sanguinário, você não falou nada sobre você. Então essa era a história por trás dessa espada…

— Nas ilhas do Mar-Médio havia uma criança com um dom: uma afinidade natural com as Palavras. Bandidos atacaram sua terra natal; então, ele os confundiu com neblina e os repeliu. Os sábios da época convidaram aquela criança prodígio para sua escola. Ele pulou rapidamente no ranking da mesma, duas de cada vez. No entanto, logo ele se afastou de sua posição e falou palavras imortais: “Não há verdade na academia”. O Andarilho Selvagem, a Grande Mente Não Reconhecida, a Torrente, o Conhecedor da Cultura, esses são os nomes de Gus, o Sábio Errante. Seu verdadeiro nome desconhecido para o mundo, quem sabe agora as profundezas de sua mente e coração?

Ninguém sabia o nome Augustus? Pensando nisso, Gus disse que alguns feiticeiros, sendo usuários das Palavras, achavam que os nomes eram Palavras de poder, e assim ocultavam os seus, e eram conhecidos apenas por um apelido ou uma inicial. Eu imaginei que a razão pela qual ele tão prontamente me disse seu nome verdadeiro era que ele tinha deixado de ser cauteloso sobre isso depois que morreu.

— De onde essa mulher veio? Talvez uma nobre xamânica de nossa própria terra; ou a princesa de uma terra distante. Ou pode ter sido que uma constelação de espíritos unindo e formando seus olhos brilhantes de esmeralda, e a resplandecência dos céus se solidificando e se transformando em seu cabelo dourado e esvoaçante. De onde quer que ela tenha surgido, como podemos duvidar de que, em tal forma divina, habitou a alma de uma deusa? A Santa do Sul, a Donzela Virtuosa, a Portadora de Bênçãos, a Flor Delicada… Maria, conhecida também como a Filha de Mater. Suas mãos brancas e misericordiosas, às quais bestas ferozes abaixavam a cabeça, eram a luz brilhante que penetrava as trevas.

Parecia que a história de Maria era desconhecida, e ela era especulada como sendo de nascimento nobre. Eu tinha que concordar que seu estilo digno me trazia esse tipo de sensação, mas se Maria tivesse me dito: “Ah, não é nada disso. Eu nasci em uma pequena aldeia pobre!” Eu facilmente teria sido capaz de entender.

Afinal, Maria adorava andar no jardim semeando sementes de flores. E uma vez que a primavera chegasse, até mesmo o jardim ao lado daquele templo brotaria flores…

— Longo passado agora são aqueles dias passados…

Suas vozes, seus rostos, suas palavras encheram o interior da minha mente, e eu senti as lágrimas começando a vir aos meus olhos.

— Ahh, memórias e sentimentos tão numerosos quanto as estrelas: se não tens como voltar para casa, posso apenas tocar-te alto e transportar-te nos ventos soprados…

O conto começou.

 Aparentemente, Sanguinário já foi um espadachim de aluguel. A Era da União era principalmente uma época de paz, mas, mesmo assim, havia muita luta em áreas afastadas como essa, contra goblins, bestas e outros humanos. Sanguinário era um daqueles bandidos brigões, ganhando seu dinheiro arriscando sua vida enfiando o pescoço em todo tipo de conflito.

Parando para pensar, lembrei-me dele uma vez dando uma aula suspeita detalhada sobre os segredos para ficar longe de problemas enquanto vende suas habilidades de espadas. Deve ser por causa disso.

E um dia, um certo incidente levou Sanguinário a conhecer Gus e resolveram esse problema juntos. O espadachim bárbaro aprendeu sobre o caminho do homem sábio e aprendeu a refrear sua natureza selvagem e acrescentar a nitidez da inteligência à sua espada, ou é assim que a história de Abelha contava. Mas se eles fossem os mesmos naquela época, como quando eu os conheci, eu podia imaginar Gus como um descontrolado inteligente, e Sanguinário com aquele seu surpreendente senso comum, surpreendido, mas acostumado com as zoeiras do feiticeiro.

Sua jornada livre continuou, e um dia Maria entrou em cena. Onde isso aconteceu e o que os uniu estavam aparentemente envoltos em mistério, mas era sabido que Maria se estabeleceu no grupo como uma fonte surpreendente de força e determinação, sim, eu poderia imaginar isso, e os três, suas habilidades e personalidades agora equilibradas, construíram um nome para si como heróis.

Com essa introdução de lado, Abelha começou sua narração da história propriamente dita, dizendo que era apenas uma de suas muitas ações. Ocorreu perto de algumas aldeias remotas e havia um monstro nas montanhas próximas: um wyvern.

Os wyverns eram semi-dragões alados capazes de voar, se eu me lembro bem das aulas de Gus, o tema do debate acadêmico era categorizá-los como semi-dragões ou bestas. Mesmo que wyverns soprassem fogo como dragões, eles não tinham pernas dianteiras e eram menores, mais fracos e mais simplórios.

Mesmo assim, eles ainda eram uma ameaça significativa. Caçar um wyvern exigia uma equipe treinada e de tamanho razoável para atacar seu ninho. Era extremamente difícil ganhar em terreno plano contra um wyvern quando ele tinha controle absoluto sobre o céu.

Também foi dito que alguns raros wyverns podiam falar a língua dos dragões. Estes wyverns serviriam os dragões, e os homens-lagartos os exaltavam. Quanto ao wyvern nestas montanhas, era como um animal: tinha baixa inteligência e era incapaz de falar.

De tempos em tempos, quando o wyvern ficava com fome, ele atacava as aldeias, destruía os celeiros e levava os animais de carga.

O povo das aldeias discutiu o problema juntos e decidiu oferecer uma pessoa por ano como sacrifício para o wyvern. Em regiões remotas como essas, a vida dos animais de trabalho costumava ser mais valiosa do que a das pessoas.

A escolhida naquele ano era uma linda garota meio-elfa de uma aldeia próxima. Seu lado élfico veio de seus avós; seus pais eram ambos humanos. Naturalmente, o pai suspeitava que a mãe era infiel e havia discussões consideráveis entre eles.

Quando ela cresceu, a própria menina se tornou uma fonte de discórdia devido à sua beleza. Alguns brigavam por ela, enquanto outros a olhavam com ciúme e inveja e a tratavam como uma pária. O conflito resultante levou as pessoas a manter distância e, a partir daí, era inevitável que ela fosse a escolhida para ser sacrificada.

Certa vez ouvi de meus pais que era difícil para um meio-elfo ter tratamento igual vivendo entre humanos, ou mesmo elfos. Meio-elfos eram lindos, habilidosos e tinham uma vida longa, mas não na mesma medida que os elfos. Suas únicas opções eram ficar em seu lugar natural no topo da sociedade, serem colocados no fundo, ou se distanciarem completamente e viverem como eremitas. Muito único para ser um ser humano e amadurece muito rápido para ser um elfo, era difícil para eles serem tratados como iguais em qualquer sociedade. O passado de Menel, infelizmente, seguiu o mesmo padrão.

Quando Maria, Sanguinário e Gus foram até a aldeia e ouviram a situação, eles tinham opiniões diferentes. Como a história dizia, Maria era fortemente a favor de resgatá-la, Sanguinário perguntou se Maria planejava criá-la também e de onde diabos o dinheiro viria, e Gus permaneceu em silêncio em contemplação.

Pareceu como se a conversa real fosse provavelmente semelhante, mas ligeiramente diferente. As personalidades que os personagens tinham na história pareciam um pouco diferente, particularmente quando Gus e Sanguinário estavam preocupados, e especialmente com relação à fixação de Gus por dinheiro.

De qualquer forma, o que acabou acontecendo foi que Sanguinário reuniu os aldeões e lhes disse: 

— Nós podemos matar o wyvern. Existe alguém que possa pagar? Você gostaria de pagar para matar o wyvern?

Uma agitação percorreu a multidão de aldeões e a única resposta foi o silêncio. Como as coisas estavam, as aldeias estavam funcionando. O que aconteceria se isso falhasse e o wyvern ficasse apenas ferido e enfurecido? E, supondo que tivessem sucesso, os aventureiros que conseguissem matar um wyvern teriam uma enorme soma em dinheiro de recompensa. Eles realmente queriam ir tão longe para salvar os sacrifícios?

Em meio ao silêncio, Sanguinário estalou a língua e voltou para o alojamento, deixando Maria com as palavras: 

— Viu? Essa é realidade.

Mas naquela noite, os três foram visitados por um pobre garoto da fazenda. O menino, que pelos olhares dele não sabia maneiras, levou várias moedas para eles: moedas de cobre revestidas em verdete e moedas de prata com bordas desgastadas e enegrecidos. Ele não falou, mas estas eram claramente as economias inteiras do menino.

Sanguinário disse: 

— Você quer que a gente lute contra um wyvern por essa mixaria?

Mas Gus pegou as moedas da mão do menino, deu uma boa e longa olhada na moeda suja, que nem sequer dava brilho, e disse: 

— Ah, sim, isso é um bom dinheiro. Veja como brilha.

Eu tinha certeza de que era palavra por palavra o que ele disse porque eu podia visualizar a cena tão clara quanto o dia.

— Você não concorda, Maria?

— Oh, eu não poderia concordar mais, Gus. Nos foi dado algo muito especial.

— Hmm. Estou pensando, tendo em conta o fato de que recebemos algo de tal valor…

— Nós vamos ter que fazer o nosso trabalho, não vamos? — Maria sorriu calorosamente, suavemente.

Sanguinário coçou a cabeça em frustração. 

— Malditos idiotas. Trabalhando para nada, — ele murmurou.

Então, o menino se aproximou de Sanguinário e falou: 

— Se não for o suficiente, vocês podem me levar como pagamento. Você viu. Ninguém aqui teria coragem de vir atrás de mim se vocês me levassem. Me venda para um traficante de escravos ou o que vocês quiserem.

— Você não vale a pena, — Sanguinário disse, devolvendo-lhe um olhar duro.

O garoto não desviou o olhar.

Sanguinário abriu um largo sorriso. 

— Heh. Então você tem coragem. Acho que mesmo os fedelhos podem ser guerreiros. — Ele lançou os olhos para o garoto. — Eu também sou um guerreiro. E quando um de nós, guerreiros, engole seu orgulho e pede ajuda, nós devemos nos apoiar. Então… Que diabos. — Ele bagunçou o cabelo do menino, um sorriso de canto de boca. — Vamos fazer isso.

— Sim.

— Hmm.

E os três foram atrás do wyvern.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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