OPV – V2 – Capítulo 19

O wyvern subiu. Ele voou rápido contra o vento, agindo como se o céu fosse todo seu. Pensava que hoje era o dia da comida ser colocada no campo na base da montanha. Era simplista, mas tinha inteligência suficiente para seguir a passagem do tempo.

Havia um altar simples no campo, e nele estava o sacrifício, usando um véu e com a cabeça abaixada em direção ao chão. A criatura mergulhou, com a intenção de devorá-la.

Naquele momento, o wyvern foi derrubado por uma parede de luz em expansão. Cabelos ricos e dourados saíram de trás do véu do sacrifício.

Era Maria.

Sem permitir que o wyvern se recuperasse, Gus apareceu de trás do altar e conjurou a Palavra da Amarra. O wyvern imediatamente tentou sair desta situação inesperada, mas não conseguiu resistir. Em segundos, suas asas foram magicamente amarradas e ele despencou para a terra.

O som que fez quando bateu no chão foi alto, mas o corpo do wyvern era duro. Respirou fundo, preparando-se para defender-se contra seus repentinos adversários. Sanguinário deu um grito de guerra e atacou, sua espada firmemente agarrada em ambas as mãos, pronta para atacar.

O wyvern soprou fogo.

Por trás de Sanguinário, Maria estava rezando. A bênção dela o protegeu e espalhou as chamas. Os dedos de Gus desenharam a Palavra da Amarra de novo e de novo, impedindo o voo do monstro. O wyvern mostrou suas presas e jogou a cabeça em seus atacantes. Um único golpe da espada de duas mãos de Sanguinário fez a cabeça voar do resto do corpo.

Naquele instante, a cabeça do wyvern percebeu o que havia acontecido com ela? Três pequenas “refeições”, era tudo o que havia acontecido. E aquelas pequenas refeições o mataram. É claro que sua consciência provavelmente desapareceu em um segundo ou menos quando jatos de sangue jorraram e encharcaram a terra.

No dia seguinte, os aldeões foram conferir o altar de sacrifício e descobriram o cadáver decapitado do wyvern, despido de todas as partes que podiam ser trocadas por dinheiro.

Depois disso, Maria, Gus e Sanguinário levaram o pobre garoto e a garota meio-elfa com eles e seguiram para uma cidade. Não havia mais lugar na vila para os dois.

Sanguinário perguntou o que eles iriam fazer, e o garoto respondeu que pensaria em algo. Ao ouvir isso, Sanguinário deu ao garoto uma adaga para ficar com ele. Era uma adaga mágica gravada com Palavras.

— Velho Gus gravou Palavras nela. Fará mais por você do que a maioria dos amuletos. Todo guerreiro tem que ter uma espada curta ou uma adaga. Não pode se exibir sem uma.

— Por favor, leve isso também — Maria disse, entregando uma sacola à menina. — Cuide dos corpos um do outro. Tenho certeza que você vão passar por muitos momentos difíceis pela frente, mas por favor, não esqueça o quanto é importante perseverar.

Eles olharam dentro da bolsa. Estava cheia de moedas de prata e cobre.

Ambos recusaram o mais rápido que puderam. Isso foi mais do que a recompensa que o garoto pagou aos três pelo trabalho! A garota protestou também, eles não podiam aceitar algo assim. Mas Gus deu de ombros e disse: 

— Humm. Quem disse que eu estava dando a vocês? Isto é um investimento. Estou emprestando, nada mais.

Os dois inclinaram a cabeça para o lado em confusão. Emprestando?

— Aqui está o que queremos de vocês, — disse Gus. — Vivam muito, aumente sua riqueza, faça um nome para si mesmo. Espalhe seus nomes por toda parte, para onde quer que seja, eles serão acompanhados por aplausos estrondosos. E quando seus nomes chegarem aos nossos ouvidos, é quando nós ou um representante que despacharemos virá recolher o que lhe emprestamos, além de juros.

Então Gus disse que lhes diria seu nome verdadeiro, que eles usariam como uma palavra-código e para que se lembrassem bem. E assim o menino e a menina aprenderam o nome do Sábio Errante, o nome desconhecido por qualquer pessoa neste mundo.

O menino e a menina seguiram seus caminhos de mãos dadas, e os Três Heróis seguiram a estrada principal em busca de novas aventuras. E assim, sob um céu azul, a história da morte do wyvern chegou ao fim.

— E há um boato que vem com essa história… — Abelha sorriu maliciosamente. — Conde Adaga do Reino Fértil… Dizem que seu sobrenome era Mago da Adaga. — As cordas reverberaram, a nota e a história se estendendo agradavelmente. — Ainda hoje, na mansão do conde, uma velha meio-elfa está esperando pelo representante do Sábio.

Então…

— O Sábio faleceu, mas ela ainda acredita que um dia um representante que sabe seu nome verdadeiro virá.

Seus nomes…

— E ela devolverá a adaga, o dinheiro emprestado e os juros, bem como o valor que foi confiado ao marido.

Seus nomes ainda estavam ecoando.

— E ela agradecerá o que foi feito por ela.

Mais de duzentos anos depois, e eles ainda estavam ecoando, até o presente.

— E esse é o fim da minha história. Uma história de grandes heróis que ecoa através dos tempos, até hoje… Hein? Will? Will, você está chorando?

Quando ela inclinou a cabeça e olhou para o meu rosto, entrei em pânico. Meu rosto estava vermelho e meus olhos estavam embaçados de lágrimas. Eu estava apenas a momentos de um colapso completo. 

— C-chorando?! Não, eu não estou chorando!

— Oh estava sim! Seus olhos estão vermelhos! — Abelha deu uma risada satisfeita. — Minha incrível narrativa tocou você, não foi?

— N-não, não, não!

— Hehehe, confesse… confesse!

Nós brincamos e nos irritamos muito naquela noite. Enquanto brincávamos juntos, senti que algo quente havia despertado vida dentro do meu peito.

Sanguinário, Maria, Gus.

Há tantas pessoas neste mundo além de mim que ainda se lembram de vocês.

Tantos.

E eu poderia chorar de alegria.

No dia seguinte, eu estava do lado de fora do santuário antes da primeira luz do amanhecer, praticando estocada. O fato de estar de serviço noturno desde a noite passada tinha algo a ver com isso, e eu estava um pouco animado também.

Eu já ouvira falar do “Reino Fértil”. Era um país que se expandira do Prado até aqui para Southmark. O conde Adaga era da nobreza, e a expansão do Reino Fértil para Southmark foi um novo desenvolvimento das últimas décadas; portanto, a meio-elfa da história provavelmente estava de volta ao outro continente. O que significava que, se eu atravessasse o mar, poderia encontrar alguém com quem pudesse falar sobre Sanguinário, Maria e Gus.

Eu tinha muitas coisas para lidar agora, então não podia simplesmente largar tudo, mas um dia eu queria atravessar o mar e fazer uma visita a ela. Empurrando a lança para a frente novamente com um grunhido, pensei em como queria me sentir como se tivesse ganhado o direito de dizer com orgulho, que era um membro da família deles.

Misturando um pouco de trabalho com os pés, estoquei a lança com nitidez novamente. E mais uma vez.

Na linguagem das técnicas de batalha, “nitidez” não se refere à velocidade simples. Referia-se à rapidez da troca entre quietude e ação.

Quietude…

Movimento explosivo.

Quietude…

Movimento explosivo.

Mais nítido. Mais nítido. Mais nítido ainda…

— Vejo que você já está trabalhando duro.

A voz me tirou da minha concentração. Quantas dessas fiz? Eu estava com falta de ar, então provavelmente tinha sido pelo menos cem.

— Tonio.

Quem saiu do santuário envelhecido era o homem de barba e sorriso suave. Eu fui guardar minha lança.

— Oh, não, eu não quis interromper. Por favor continue.

— Ah, obrigado…

Dito isto, eu me permiti ficar muito absorvido na prática. Ainda tinha que caminhar hoje, então não me faria bem me esgotar empurrando meu corpo ao limite. Tinha que fazer alguns exercícios de resfriamento de qualquer maneira, então decidi apenas praticar minha forma. Tonio sentou-se em um tronco próximo e me observou.

— Devo dizer que você é forte, Will.

— Sou? Você acha?

— Bem, eu não tenho certeza, vindo de alguém que foi enganado por um grupo de aventureiros mentirosos… — Tonio riu como se quisesse esconder seu constrangimento.

Ouvi enquanto praticava minha forma com movimentos lentos e suaves. Derrube a arma do oponente, abaixe-se, empurre para cima…

— Mas pelo menos posso dizer que seus movimentos são muito polidos. E mais do que isso, se posso dar minha opinião como comerciante…

— Sim?

— Acredito que essa lança seja uma obra-prima anã, e você parece perfeitamente natural com ela. Alguém que é a combinação perfeita para uma pedra preciosa como essa deve ser uma pedra preciosa. — Ele deu de ombros. — No entanto, há algo que não entendo.

— Algo que você não entende?

— Sim, — ele disse. De repente, notei que, por trás de seu olhar gentil, havia os olhos afiados de um comerciante avaliando cuidadosamente um produto. — O que você realmente procura?

Fiz uma pausa e inclinei minha cabeça para o lado. 

— Realmente procuro? Hmm, bem, o que eu quero é para o deus da chama…

— Esses são seus desejos como clérigo. Bem, talvez uma vez que se é um clérigo santo, se torne um modo de vida, mas mesmo assim… Você não tem desejos individuais?

— Por que a pergunta?

— Porque eu sou um comerciante. — Tonio riu. — O que abunda longe, eu vendo por perto, e o que abunda por perto, eu vendo longe. É isso que significa ser um comerciante. Nosso negócio é movimentar produtos, atender aos desejos das pessoas e garantir sua satisfação em troca de um preço adequado.

Ele falou aberta e honestamente, mas seu tom era sério. Ocorreu-me que esse era o credo pelo qual ele vivia sua vida.

— E, no entanto… não consigo imaginar como você poderia estar satisfeito, — continuou Tonio. — Você é um pouco misterioso. Você tem braços musculosos e muita força. Baseado na maneira como você cura feridas e doenças difíceis, você ganhou as bênçãos dos deuses. Sinto etiqueta e erudição na maneira como você age, e você parece ter construído uma segurança financeira também. E, no entanto, você é sensível o suficiente para derramar lágrimas por uma história famosa, como se mal tivesse experimentado a vida. Nunca vi uma pessoa como você antes. Parece-me que a “nobreza” não é muito precisa. Você é como os santos cavaleiros que ouvimos nas histórias.

Tonio sorriu de orelha a orelha. 

— Então, para minha própria edificação, pensei em perguntar diretamente enquanto tiver oportunidade. O que você, como indivíduo, está procurando? Ou você é realmente um representante de Deus por completo?

Eu tive que pensar na resposta. O que eu queria do mundo exterior, deste mundo? De fato, para começar…

— Tonio, eu, hmm… antes, eu estava morando em um lugar pequeno e feliz, com pessoas que… bem, foram eles que me criaram, foram meus professores, e eu também pensei neles como minha família. Mas, pouco antes de partir sozinho e me tornar independente, de repente perdi essas pessoas e fui forçado a sair. Em troca disso, ganhei a proteção do deus da chama.

Aqueles eventos com o deus dos mortos-vivos, pareciam irreais, mas haviam acontecido apenas algumas semanas atrás.

— Eu ainda sei muito pouco sobre o mundo, sobre qualquer coisa, realmente, então estou basicamente seguindo a missão que meu deus estabeleceu para mim, eu acho.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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