OPV – V2 – Capítulo 2

As negociações continuaram em profundidade por um tempo.

O meio-elfo de cabelos prateados era um excelente negociador; eu, por outro lado, não tinha experiência no mundo real em negociações e estava praticamente à sua mercê. Ele parecia estar na mesma faixa etária que eu, mas os elfos e, de fato, os meio-elfos que compartilhavam parte do sangue élfico viveriam mais tempo, então, pelo que sei, ele poderia ser consideravelmente mais velho do que eu. Apesar disso, de alguma forma consegui manter a minha posição, e eventualmente estabelecemos um acordo onde eu pegaria o ombro do lado que apunhalei em troca de ajudar a matar o javali.

Esfolar um javali selvagem exige muito trabalho.

Para começar, tivemos que levá-lo até um rio, drenar o sangue e depois limpá-lo juntos. Sua pele estava coberta de lama. Provavelmente estava se esfregando em algum lugar.

— Ahhh, essa merda está em pedaços, — disse o de cabelo prateado, olhando para a cabeça da flecha que tirou do javali selvagem. Ela havia quebrado em pedaços. Deve ter atingido um osso.

Eu o observei soltar a ponta da flecha e guardá-la cuidadosamente no bolso. Parecia que itens de metal eram muito valiosos nessa área no momento.

— Temos que tirar os fragmentos, — disse ele. — Se alguém morder esta merda pensando que é carne, vai se dar mal.

Utilizamos uma área plana de pedra ao lado do rio para remover cuidadosamente os fragmentos da ponta da flecha, e depois começamos a trabalhar. Eu desenvolvi algumas habilidades nisso graças a Sanguinário, mas o cabelo prateado era ainda mais eficiente do que eu. A gordura subcutânea de suínos selvagens era deliciosa, então o teste de sua habilidade com faca nessa situação era o quão perto da pele você poderia cortar. E ele era terrivelmente preciso e rápido também.

— Agora, então. — Ele enfiou a faca sob a mandíbula do javali e cortou todo o seu pescoço. Ele parecia ter alcançado o osso do pescoço, então eu segurei a cabeça e torci para deslocá-la.

— Heh. Você sabe sobre essas coisas. — Ele me deu um sorriso, então sorri de volta. Então, com alguns pequenos movimentos da faca, ele cortou a carne e o tendão e separou a cabeça completamente.

Eu coloquei a carcaça do javali de costas e a segurei, e ele começou a cortar sua barriga da garganta até o final, tomando cuidado para apenas cortar a pele. Cortar profundamente causaria danos aos órgãos internos, o que resultaria em… Hmm, uma boa maneira de dizer… O conteúdo de seus intestinos, bexiga e órgãos reprodutivos saindo tudo e fazendo uma enorme bagunça. Dessa maneira, não haveria necessidade de se preocupar.

Quando terminou, ele fez cortes em vários lugares com um machado, e então juntos forçamos as costelas a se separarem. Cortamos ao redor do ânus, abrimos a cavidade torácica, descemos o diafragma, descascamos a membrana até a coluna vertebral…

— Você vem pra fora… — Ele agarrou a traqueia e o esôfago do porco e os puxou para a extremidade traseira. Todas as suas entranhas saíram de uma só vez em uma única massa. Ele fez tudo certinho.

Nesse ponto, parecia muito mais com “carne”, o tipo que eu tinha visto congelado e pendurado em filmes e na TV na minha vida anterior. Encarei a cabeça do javali que removemos e juntei minhas mãos em oração.

— Eu sinto muito. E obrigado. Nós não desperdiçaremos o que tomamos.

— Você é um verdadeiro crente, não é? — Ele disse brincando, dando de ombros gentilmente. — Mmkay, como combinado, um ombro para você. — Ele habilmente inseriu seu facão em uma junta da carne que uma vez foi um javali e cortou apenas o ombro da frente. — E é o fim do porcionamento.

— Yep.

Com um machado encharcado de sangue e um facão curto em nossas mãos, trocamos sorrisos em reconhecimento pelo trabalho árduo um do outro.

— Acho que é melhor comermos o fígado. Vai estragar rapidinho, — ele disse.

— Ah, eu tenho uma panela.

Fígado fresco é delicioso.

Nós estávamos trabalhando no rio frio do inverno, então minhas mãos já estavam congeladas. Enquanto o cabelo prateado estava fora pegando troncos, eu juntei alguns galhos secos e rapidamente ateei fogo neles com um Flammo Ignis sussurrado. Pensei que seria melhor manter em segredo que eu poderia usar magia por agora. Não era que eu achasse que ele não fosse confiável… Embora isso fosse possível. Simplesmente não sabia o suficiente sobre a sociedade moderna. Magia poderia ser aceita na época de Gus, mas eu não sabia como a sociedade a considerava hoje.

— Brrr… Deuses, que frio. — Eu tirei minhas botas e esquentei minhas mãos e pés ao lado do fogo.

Depois de um tempo, cabelo prateado voltou.

— Congelando, — ele disse, jogando alguns troncos no fogo. Então sentou-se ao meu lado. Nós sorrimos um para o outro por algum motivo.

— Beleza, aqui está o que tanto esperamos, — eu disse.

— Até que enfim.

Segurei a panela sobre a chama e coloquei um pouco de gordura de javali. Uma vez que tinha coberto bem o fundo da panela, coloquei as tiras de fígado que eu já tinha cortado, depois tirei um pouco de sal e salpiquei. Um som crepitante acompanhou o cheiro delicioso de carne cozida.

Fechei meus olhos e coloquei minhas mãos juntas.

— Mater nossa Mãe-Terra, deuses de boa virtude, abençoe esta comida, que por amor misericordioso estamos prestes a receber, e deixe-nos sustentar em corpo e mente.

— Porra, você é realmente um religioso radical. — O meio-elfo de cabelo prateado estava me olhando incrédulo. Parecia que ele não era do tipo que acreditava muito nessas coisas.

Mas pensando nisso logicamente, eu era o único com memórias de uma vida anterior. Não faria mais sentido eu estar esperando impacientemente para comer, e ele ser religioso? Apesar de estar no meio da oração, me diverti com o quanto isso era sentido.

— Pela graça dos deuses, estamos verdadeiramente agradecidos.

— Impressionante. Agora vamos comer.

Ele pode ter ficado impaciente, mas pelo menos foi educado o suficiente para não ignorar minha oração e começar a comer antes de mim.

Depois que terminei de orar, cada um pegou uma faca que tínhamos lavado, espetou em um pedaço de fígado cozido na panela e levantou-a. O vapor estava subindo. Enfiei a carne na minha boca.

Estava quente. E tão delicioso. O forte sabor do fígado com apenas uma pitada de sal adicionado encheu minha boca. Deuses, estava bom. Eu me peguei desejando uma cerveja gelada.

Até mesmo as rugas na testa do cabelo prateado tinham se afrouxado agora. Refeições consumidas depois de muito trabalho eram realmente deliciosas.

Antes que eu percebesse, o sol quase se pôs.

— Hã? Você quer saber… o caminho? O quê?

Quando lhe perguntei o caminho depois de terminarmos de comer, ele olhou para mim de maneira estranha, como eu esperava.

Foi quando eu soube que estava certo em deixar essa pergunta pro final. A questão era um pouco perigosa. Ele levantava suspeitas que seriam difíceis de responder. Tal como…

— Sério, de onde você veio? Eu nunca te vi por aqui.

— Bem, isso é… difícil de explicar. Não sei o que dizer.

Se eu fosse cem por cento honesto com ele e dissesse: “Eu fui criado por mortos-vivos em uma cidade arruinada, lutei contra o deus da morte e comecei uma jornada”, ele acharia a história tão louca que tive absolutamente nenhuma confiança que eu poderia levá-lo a acreditar. Não ter uma maneira de provar as coisas tornas as coisas muito difíceis, não importa a sociedade. Os seres humanos não têm como se mostrar inofensivos por conta própria; eles só podem pedir a outras pessoas para atestar por eles. No meu mundo anterior, isso vinha de sistemas sociais como o registro familiar e carteira de identidade, e neste mundo, parecia vir de seus parentes e da comunidade local. O fato de não tê-los equivalia a declarar ao mundo que eu poderia ser uma pessoa perigosa. Mas um feiticeiro que usa Palavras dificilmente pode se dar ao luxo de mentir… Então, por enquanto, decidi ser um pouco vago para não ter que mentir.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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