OPV – V2 – Capítulo 22

E assim chegamos ao templo em Veleiro Branco. Era um edifício majestoso feito de pedra branca e lisa, com grandes colunas largas, passagens alinhadas por colunas, estátuas dos deuses e um jardim cheio de árvores e plantas podadas com cuidado. Tudo parecia novo, mas ainda tinha um tipo de caráter artístico. Menel comentou baixinho que eles devem ter gasto muito nesse lugar.

Pedi a Menel, Tonio e Abelha que esperassem no jardim da frente por um momento e entrei no templo propriamente. Uma vez lá dentro, pensei em encontrar um sacerdote e pedir para ser apresentado a alguém de alto escalão.

No entanto, a primeira reação que veio do jovem diácono que estava diante de mim vestindo mantos brancos soltos foi um “hmmm” pouco informativo. Parecia que eu estava lhe dando problemas.

— Você diz que foi abençoado com a proteção de Gracefeel, deus da chama? — Ele perguntou. 

— Sim, isso mesmo.

O jovem diácono fez “hmmm” novamente.

— Essa é uma divindade que não é vista com frequência… Pelas nossas regras, gostamos de fazer uso da oração de Detectar Fé nesses tipos de casos…

— Estou perfeitamente bem com isso.

Imagine se um clérigo de um deus do mal, que não se importava com as consequências de suas ações, entrasse com indiferença e diz: 

— Gostaria de cumprimentar os sacerdotes de alto escalão. — Nem todos os sacerdotes foram treinados em combate como eu, portanto, pude ver a necessidade de uma medida de segurança para verificar se alguém suspeito de passar por aqui, como eu, clérigo de um deus menor, não estava trabalhando para um deus do mal e tentando esconder sua identidade.

— Sim, — ele disse, — mas, infelizmente, receio que todos tenham sido suficientemente abençoados para determinar que a fé dos outros está fora no momento…

— Fora? — Em um templo grande como este? Fiquei surpreso que isso fosse possível.

— Sim. Os ataques de animais grandes e pequenos têm aumentado significativamente em todos os lugares recentemente. Todos do vice-bispo para baixo estão sendo mantidos muito ocupados. — Do vice-bispo para baixo… Ele disse vice-bispo?

— O que você está fazendo? — Alguém disse atrás de mim com uma voz grave que parecia ecoar. Eu me virei para ver um homem de meia idade incrivelmente gordo, vestido com roupas de sacerdotes frouxamente ajustadas, bordadas com fios de ouro e prata. Eles não faziam nada para esconder sua barriga notável, nem suas grandes bochechas inchadas compensaram a severidade em sua expressão. Ele usava vários anéis de ouro e prata nos dedos parecidos com linguiça.

— B… Bispo Bagley! — O diácono se contorceu de surpresa e visivelmente endireitou sua postura.

— Perguntei o que você estava fazendo, — Bispo Bagley repetiu. Ele parecia irritado.

O diácono parecia muito desconfortável e não parecia que seria capaz de dar uma resposta adequada. Embora tenha sido uma forma um pouco ruim, decidi interromper.

— É um prazer conhecê-lo. Meu nome é William G. Sanguimari. Fui abençoado com a proteção do deus da chama, Gracefeel, e vim ao templo de Veleiro Branco para me apresentar. — Coloquei a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, levantei a perna esquerda um pouco e fiz uma reverência. Maria me ensinou isso.

— Hmm. Bart Bagley. Eu sou o responsável por este templo. — O bispo Bagley curvou-se bruscamente em resposta e depois olhou para mim. — Gracefeel… Deus da chama. Praticamente um deus perdido. A possibilidade permanece, é claro, que o que temos aqui é uma pessoa suspeita usando mal o nome de Gracefeel para realizar alguma trama nefasta…

— Essa é uma suspeita razoável. Deseja que eu realize uma bênção como prova?

O bispo Bagley bufou. 

— Os novatos rapidamente se voltam para a proteção divina quando estão com problemas. A proteção recebida de um deus não deve ser brandida de ânimo leve e certamente não deve ser vangloriada.

Uau. Eu não esperava essa resposta, mas agora que pensei nisso, ele deu um bom argumento. Gus havia dito a mesma coisa sobre magia. As bênçãos não corriam muito risco, então eu as estava usando mais casualmente, mas ele estava definitivamente certo.

— Você está absolutamente correto. Muito obrigado por me conscientizar da minha ingenuidade.

O bispo bufou novamente. 

— O que você entende sobre os ensinamentos do deus da chama? 

— Luz é a existência das trevas. Palavras são a existência de silêncio. E viver é a existência de morte eterna.

O bispo respirou pelo nariz mais uma vez. 

— Você, — ele disse ao diácono. — Adicione-o ao registro e mostre-o o templo.

— Hã? Mas… ainda temos as orações de Detectar Fé e Detectar Mentira…

Idiota! — Parecia um trovão. — Você está surdo, seu cretino?! — A voz dele ecoou por todo o templo, pairando no ar como estática em uma tempestade. Outras pessoas estavam olhando para nós agora.

— Eu tenho que ir para o banquete da Guilda dos Tecelões, passe o tempo aqui como quiser, não cause problemas e doe um pouco, — bispo Bagley disse sem parar para respirar, depois foi para outro lugar no templo. O diácono ainda estava com a cabeça baixa.

Depois que o bispo desapareceu completamente, o diácono finalmente começou a falar comigo, numa voz que mostrava que ele ainda estava um pouco abalado. 

— Quais são as chances de encontrarmos o bispo Bagley? — Ele disse. — Ele nos deu um tempo difícil, não é? Fiquei impressionado com o quão bem você lidou com isso.

Depois, ele falou sobre como o bispo era agora um hedonista que passava grande parte de seu tempo em banquetes, nunca realizava uma única bênção, era rápido em se enfurecer e reclamava constantemente; por outro lado, o vice-bispo era nobre e maravilhoso e só tinha boas coisas a dizer sobre ele.

Não querendo tomar partido, dei alguns “hms” vagos em resposta ao concluirmos meu registro. Depois de me encontrar com Menel, Abelha e Tonio, o diácono nos mostrou todo o templo e nos designou um quarto de hóspedes. Recebemos mais do que apenas um fardo de feno ou algo para dormir; na verdade havia camas com lençóis.

— Fale, — eu disse, — sobre o bispo daqui, hum…

— Hmmm, eu não ouvi muito bem sobre ele, eu acho? — Abelha disse. — Como ele é meio esnobe. E materialista.

— Ele também parece ter influência nos bastidores do comércio e das guildas industriais da cidade, — Tonio acrescentou.

Hã. Essa era a reputação que ele tinha? Enquanto eu tentava juntar essas informações com a minha impressão dele, percebi que estava com dificuldade para me concentrar. Que barulho era esse lá fora? Parecia um toque incessante, talvez um sino.

Abelha começou, e eu olhei para ela confusa.

— Esse não é o sino da hora… —  ela disse. — Eles estão martelando … Está tendo incêndio ou algo assim?!

— Isso soa como um sino de emergência, sim, — Tonio disse.

Os distúrbios começaram a se espalhar pelo templo. Corremos para o nosso equipamento e outras coisas que estavam escondido no canto da sala. Ouvimos o som de passos pelo corredor e depois gritando.

— Wyvern! Wyvern! Todo mundo, CORRAAAAAAAAAM!!

Além das paredes da sala e acima do telhado, uma baixa corrente de vento e uma vasta sombra passavam por cima. No instante seguinte, som de um impacto ecoou por todo o templo.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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