OPV – V2 – Capítulo 24

Dentro da minha cabeça, eu podia sentir correntes se esticando, fissuras se formando em um anel de aço. O wyvern estava lutando contra a Palavra de Nó. Com tempo suficiente, ele se libertaria e voaria para o céu novamente. Eu não tinha intenção de permitir isso.

A fonte estava quebrada e a água jorrava sobre o jardim na frente do templo.

Segurando minha lança, corri em direção ao wyvern. Meu objetivo era simples: uma lança perfurando diretamente seu coração ou traqueia. Assim como Sanguinário, que havia acabado com um wyvern com um único golpe de sua espada, eu terminaria isso com um único golpe através de seu ponto fraco.

O wyvern sentiu minha aproximação e virou a cabeça.

Acceleratio! — Atirei-me como um projétil. Apontei para o coração do wyvern, Lua Pálida brilhando em minhas mãos. A paisagem passou voando com ímpeto furioso, o corpo do wyvern rapidamente cresceu em minha visão, e no momento seguinte, houve um uivo furioso, e o wyvern também me atacou.

Passamos um pelo outro, e depois, o impacto. Empurrei minha lança contra seu peito liberando miasma, e com um suspiro de pânico, imediatamente soltei antes que meu pulso e cotovelo fossem esmagados pelo monstro, e rolei para o lado. A lança estava presa. Não havia dúvida.

— De jeito nenhum… — Eu ouvi a voz de Abelha de algum lugar.

Virei-me, um sentimento terrível crescendo dentro de mim. O wyvern estava lentamente virando a cabeça para mim também. Eu fui impedido por sua pele de borracha? Seus músculos duros? Ou eu simplesmente errei meu alvo? O fato era que eu não tinha conseguido empalar seu coração.

Mais miasma saiu. O wyvern olhou para mim, chamas vermelhas queimando dentro de sua boca. 

— Corre! Ele vai expirar!

Ainda havia pessoas atrás de mim que ainda não haviam escapado. Eu não poderia deixa-lo fazer isso. Não tinha tempo, não tinha plano. Eu tinha que agir. Agir! Mas como?!

E então, no meu coração, Sanguinário riu. Riu alto. E ele disse:

Destrua-o.

Acceleratio! — Com a Palavra, eu corri até o wyvern, perto demais para liberar o sopro. Para não se machucar, o monstro deixou suas chamas saírem dos lados da boca, estalando as mandíbulas para mim. Eu me esquivei por pouco e joguei meus braços em volta do seu pescoço enorme.

Não consegue pensar em uma boa solução? A natureza do seu inimigo é desconhecida? Na minha mente, Sanguinário levantou o punho e gritou. Então FORÇA! Violência! Destrua-o!!

O miasma saindo do wyvern começou a atacar lentamente meus braços, mas as queimaduras que eu tinha, meus estigmas, queimavam em branco e o seguravam.

Grunhi enquanto tensionava meus músculos. O wyvern resistiu. Segurei seu pescoço com força, obstruindo com as vias aéreas e o fluxo sanguíneo. Afastei minhas pernas e abaixei meus quadris, certificando-me de que eu estava bem. Com toda a minha força, torci meu corpo para segurar firme enquanto o wyvern resistia.

 Wyvern se levantou no ar.

 Eu o trouxe de volta para à fonte, há muito tempo quebrada e pulverizando água em todas as direções. A terra tremeu novamente, mas mantive meus braços firmemente agarrados ao pescoço. Eu não ia deixá-lo ir.

— Um… Um mata-leão…?! — Alguém perguntou.

Sim, um mata-leão, pensei. Estou agarrando a cabeça e apertando, é claro que é um mata-leão. Não é óbvio?

Joguei-me em cima do wyvern caído, continuando a estrangulá-lo o mais forte que pude. Atrás de mim, o corpo do monstro lutava loucamente, chutando e convulsionando. Estava tentando desesperadamente me impedir de estrangulá-lo. Eu rugi e coloquei toda a minha força nos meus músculos. Agora era uma disputa de força física contra um wyvern, com todo o poder que eu tinha. Eu o impedi de resistir e me levantar; de fato, apertei o wyvern, empurrando-o com força no chão.

Você não vai fugir, camarada. Não vou deixar você correr. Não vou deixar você soprar mais fogo dessa garganta.

Não vou deixar você usar essas asas para voar mais. Não vou deixar você usar essas presas ou garras para machucar mais ninguém!

Enquanto a multidão observava, mal respirando, houve um estalo quando, finalmente, o pescoço do wyvern fez um som que nunca foi feito.

O pescoço do wyvern ficou mole nos meus braços. Para ser mais cauteloso e ter certeza absoluta de que estava morto, continuei a estrangulá-lo por mais algum tempo e depois notei que o silêncio havia caído ao meu redor.

As pessoas que estavam no templo para começar, as pessoas que haviam evacuado aqui de outros lugares da cidade, tantas pessoas estavam olhando para mim. As emoções em seus olhos eram complexas, e de repente percebi que estava com problemas.

Eu tinha quebrado o pescoço do que deveria ter sido um wyvern de duas toneladas (me lembro que os crocodilos de água salgada de seis metros pesavam cerca de uma tonelada), e fiz isso na frente deles. Estava apenas a alguns momentos do sopro de fogo do wyvern me queimar e a todos os outros, então, para vencer sem que ninguém fosse morto, não tinha escolha a não ser sufocar o monstro até a morte. Dito isto, até reconheci que o que tinha feito foi completamente loucura. Se eles decidissem que eu era alguém a ser temido…

— Espetacular! Maravilhoso! — O som dos aplausos soou. Confuso, me virei e… lá estava Tonio. — Graças aos deuses que eles enviaram um herói como você para este lugar!

Batendo palmas de uma maneira exagerada, Tonio se aproximou de mim como se não soubesse quem eu era. Então, me deu um pequeno sorriso e uma piscadela maliciosa que as pessoas não podiam ver. Soltei o pescoço do wyvern e me levantei. Tonio segurou minhas duas mãos juntas e as balançou enquanto me dizia como estava agradecido.

Foi só então que finalmente percebi o que ele estava tentando fazer.

— Não tem problema, — disse com um sorriso e balancei suas mãos para cima e para baixo.

Abelha deve ter notado sua intenção também. Tocando o instrumento, ela gritou: 

— O Matador de Wyvern! Hoje, um novo herói nasce! — A voz dela saiu bem. — Vamos dar uma salva de palmas para o nosso herói!

Ela liderou, e algumas palmas estranhas seguiram sua sugestão, então as palmas ficaram mais altas. A isso juntaram-se aplausos e logo eu estava sendo cercado por pessoas. Eles tocaram meus braços e pediram para apertar minha mão, dizendo “Obrigado” repetidamente.

Tive a sensação de que tinha acabado de sobreviver a uma situação bastante perigosa. Menel e eu provavelmente não teríamos sido capazes de descobrir uma maneira de sair dessa sozinhos. Somente os experientes Tonio e Abelha, com toda a sua experiência em navegar na sociedade, poderia ter neutralizado isso tão bem. Eu me senti muito agradecido.

Depois que os elogios terminaram, levantei minha voz e chamei a multidão. 

— Ainda deve haver pessoas enterradas sob os escombros e outras com ferimentos! Vamos todos fazer a nossa parte para ajudar e resgatar todos!

Aplausos de aprovação foram ouvidos da multidão. Como um, eles foram para o salão e trabalharam juntos para remover os escombros, cuidar e tratar os feridos. Um estranho senso de solidariedade se formou entre todas essas pessoas.

Enquanto todos estavam ocupados, encontrei um momento para agradecer discretamente a Abelha e Tonio.

— Ah, de jeito nenhum, — Tonio respondeu. — Eu vejo isso como um investimento.

— Hehe. — Abelha riu provocativamente. — Vou fazer uma música sobre isso mais tarde, ok? — Enquanto ajudava a afastar algumas pedras, também troquei algumas palavras com Menel. 

— Sério, há algo que você não possa fazer, sua aberração da natureza? — Ele disse. 

— Surpreso? — Perguntei.

— Eu me acostumei com você sendo ridículo.

— Bem, para mim, foi um lembrete doloroso de quão longe ainda tenho que ir. — O inferno?

Aquele wyvern tinha veias negras cobrindo todo o corpo e soltava gás misterioso e nocivo. Eu não sabia o que tinha acontecido com ele. Talvez tivesse sofrido alguma mutação ou sido amaldiçoado após ativar uma armadilha em alguma ruína, ou alguém o tenha submetido a algum procedimento maligno. Mas, de qualquer forma, não pude deixar de especular que sua aparência anormal e o motivo pelo qual ele atacou poderiam estar relacionados.

É claro que eu não podia negar a possibilidade de que não houvesse relação alguma, e as ações do wyvern foram puramente instintivas de alguma maneira. No entanto, por mais violentos que fossem os wyverns, não pude ver atacar uma cidade humana desse tamanho como algo além de suicida. O wyvern foi avassalador, mas isso era simplesmente porque pegar a cidade de surpresa lhe deu uma vantagem. Não havia chego a esse ponto, mas uma vez que a cidade começasse a planejar, em vez de entrar em pânico, e enviar legiões de soldados, feiticeiros e clérigos, o wyvern morreria.

Portanto, foi um wyvern anormal e provavelmente mais forte do que o habitual, mas, mesmo assim, foi uma batalha muito bagunçada. Se Menel não estivesse lá, eu poderia ter morrido. Além disso, se não fosse Tonio e Abelha, não poderia negar que poderia ter sofrido morte social .

Uma mesa redonda de críticas estava em andamento na minha cabeça, examinando todas as maneiras pelas quais eu fui ingênuo, todos os erros que cometi e todas as maneiras pelas quais não me igualei.

— Will. Irmão. — Menel me chamou. Saí dos meus pensamentos e olhei para ele. — Eu não sei o quão alto está definindo seu objetivo, mas vamos lá. Você acabou de derrubar um monstro. É bom ser autocrítico, mas se dê algum crédito. Estou tentando ser feliz por você aqui.

Eu não tinha pensado dessa maneira. E, embora houvesse muitas coisas que eu gostaria de ter feito de maneira diferente, agora eu era um “Matador de Wyvern”, assim como os três.

— Sim… — Ele estava certo. Eu estava feliz com aquilo. — Sim… Sim. Obrigado, Menel! Eu não poderia ter feito isso sem você!

— Yep. Bom trabalho. E foi você quem fez a maior parte, idiota! — Ele me deu um soco no ombro. Esse simples gesto realmente me fez sentir como se tivéssemos nos conectado de várias maneiras.

Quantas horas trabalhamos depois disso?

Deixamos o cadáver do wyvern para os soldados que vieram correndo para o local depois. Minha maior preocupação era se conseguiríamos tirar todas as pessoas feridas dos escombros. Eu estava no ponto de pensar que conseguimos todos quando que pudéssemos encontrar, quando ouvi muita comoção ao redor do portão da frente do templo.

Vários clérigos vieram correndo até nós.

— Matador de Wyvern! O Matador de Wyvern está aqui?!

— Oh! Sou eu, o que foi?! — Acenei para eles.

Pareciam estar com muita pressa. Eles me disseram entre respirações curtas que cuidariam do resto do trabalho e era urgente que eu os seguisse.

— Sua Excelência…

— Sua Excelência, irmão do Rei, deseja falar com você!

Eu pisquei.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!