OPV – V2 – Capítulo 3

— Eu vim do sul, serve?

— O sul? Irmão, não tem “sul”. Aqui é o mais sul possível.

— Como assim, não tem sul?

— Este é o ponto mais meridional. Fronteira da humanidade. Você está na Floresta das Bestas em Southmark.

Floresta das Bestas. Esse era um nome bastante intimidante. Talvez houvesse muitas criaturas ferozes. Aquele javali certamente era uma delas. Eu vou ter que tomar cuidado.

Como eu pretendia explicar isso? Realmente não tinha ideia.

— Eu vim do sul. É complicado…

— Ohh… Você é um desses tipos de aventureiros? Um caçador de ruínas?

Um caçador de ruínas… Agora que pensei nisso, havia ruínas que recontavam o tempo de Maria e Sanguinário espalhadas pela estrada até aqui. Talvez escavar esses tipos de lugares fosse uma ocupação para algumas pessoas? Nesse caso, minha situação não era tão diferente. Afinal, eu mesmo estava tentando subsistir apenas com o que ganhara naquela cidade arruinada.

— Sim, é mais ou menos isso…

— E você se perdeu?

— Hmm, eu acho… Isso é meio que… — eu respondi, parecendo quase desanimado.

— Oh, cara. — O meio-elfo de cabelos prateados suspirou em aparente desespero. — Você é o aventureiro mais indiferente que já vi. Ehh… Tanto faz. Apenas siga este rio a jusante. Alguns dias e você estará em uma pequena cidade. Provavelmente vai te ajudar a partir daí. Boa sorte. — O tom de suas duas últimas palavras me disse claramente que não se importava. Parecia que a boa vontade que eu nutria ao trabalhar com ele estava desaparecendo rapidamente graças à conversa muito suspeita que eu havia começado.

— H… Hmm, eu entendo que não é muito bom perguntar isso, — eu falei hesitante, — Mas se houver alguma chance eu poderia parar onde você vive ou algo do tipo…

Seus olhos ficaram incrivelmente afiados. Dando um suspiro longo e exasperado, ele olhou para mim.

— Eu não quero me envolver muito com você. Não me faça desenhar.

— Sinto muito.

Não pude discutir. Ele estava totalmente certo e eu sabia disso. Se eu estivesse no lugar dele, também não iria querer me envolver nos meus assuntos. Eu era um soldado armado de identidade e filiação desconhecidas. Quem gostaria de convidar alguém assim para a comunidade?

— Então não me siga.

Percebi que o sol estava quase se pondo e estava ficando muito mais escuro.

Ele se levantou e jogou o javali em suas costas. Ele tinha uma constituição pequena, mas era mais forte do que parecia. Deve ter treinado. Treinar aumenta suas habilidades físicas muito mais neste mundo do que no meu antigo.

— Ah, você está bem sem uma luz?

— Eu posso cuidar de mim mesmo, obrigado.

Ele murmurou alguma coisa, e o que parecia ser uma bola de luz veio flutuando das profundezas da floresta em direção a ele.

— O que é…

— É uma fada.

— Nunca vi uma antes…

Fadas e elementais eram feérico inferiores: seres frágeis que eram mediadores da natureza e a ajudavam com seu trabalho. Havia técnicas para poder conversar com eles e, às vezes, fazer uso deles. Aqueles que podiam manipular essas artes místicas eram referidos como elementais.

Os elfos, que eram servos do deus dos feéricos, Rhea Silvia, diziam ter uma forte afinidade com outros servos feéricos. Evidentemente, esse meio-elfo que herdara sangue élfico não era exceção.

Lembrei-me de uma vez ter lido em um dos livros de Gus que a essência do elementais era sensível, compreensiva e receptiva ao nebuloso e volúvel. Era ainda outro ramo do místico, separado da “magia”, o poder das Palavras, com seu foco na teoria, conhecimento, memória e repetição, e da “bênção”, que oferecia proteção e graça divina para agir com fé religiosa e a disciplina.

— Adeus, — ele disse simplesmente, e se afastou para longe com o javali nas costas.

Foi a única conversa que tive com outra pessoa em quase dez dias. Talvez fosse por isso que senti uma estranha vontade de não deixá-lo ir. Antes que eu percebesse, eu estava chamando-o quando saiu.

— Eu sou Will! William G. Sanguimari! E você?

Houve uma pausa antes de ele responder.

— Menel. Meneldor. Duvido que nos veremos novamente, entretanto, — ele respondeu, indo embora. — Tente não morrer na sua jornada.

Com o javali esfolado nas costas, ele se afastou, o chão ao redor dele iluminado pela luz da fada brilhante. Eu o assisti ir sem tentar segui-lo.

Desconfiado de criaturas que poderiam ser atraídas pelo cheiro de sangue, eu fui para uma boa distância de onde tínhamos esfolado o javali. Acendi outra fogueira e usei corda para amarrar minha folha de lona entre algumas árvores para fazer uma barraca rudimentar. Inscrevi Sinais que serviriam como alarmes de advertência em vários lugares, e Palavras com o poder de afastar insetos e coisas de natureza demoníaca. Finalmente, peguei o cobertor e fui para a cama. O ombro do javali que peguei seria o café da manhã de amanhã.

Eu mantive uma conversa com uma pessoa real e viva. Na verdade, foi surpreendentemente bom. Estava me preocupando por nada.

Menel. Meneldor. Eu parecia lembrar que significava “uma águia muito veloz” em Élfico. Ele foi um pouco rude, mas me diverti conversando com ele.

Ele disse que nós provavelmente nunca nos encontraríamos novamente. Enquanto eu caía no sono, esperava que algum dia nós nos encontremos.

Na calada da noite, ouvi uma voz.

Peço-vos, Ó fogo.

No nevoeiro entre o sono e a vigília…

Ó meu fogo.

… era uma jovem mulher com cabelos negros e um capuz que obscurecia seus olhos.

Conforme você viaja…

Sempre reticente e inexpressiva, ela falou seu desejo:

Peço-vos, traga luz para a escuridão distante.

E então, como relâmpagos, numerosas visões iluminaram o interior da minha cabeça, queimando em minha mente.

Armas. Gritos. Caos. Sangue. Sangue. Corpos. Corpos. Corpos. E… Cabelo prateado.

Eu respirei profundamente.

Lúmen!!

Quando mergulhei a luz na lâmina de Lua Pálida, apressadamente preparei meu equipamento e corri para a floresta noturna.

Eu continuei andando, meu caminho iluminado por magia. Se eu não fosse mais rápido, ficaria louco. As revelações estavam descaradamente prevendo uma tragédia, e Menel ia ser a vítima.

Eu cerrei meus dentes.

Eu suspeitava disso, mas agora estava confirmado: a era em que eu estava vivendo era seriamente perigosa. Alguém que você conheceu hoje pode ser um cadáver amanhã. Loucura…

Eu olhei em volta de mim. Não havia nada além de floresta escura. O inverno significava que a grama não estava muito coberta, pelo menos, mas duvidava que eu seria capaz de alcançar a vila de Menel nesta escuridão apenas andando cegamente. Eu tinha a opção de rastrear as pegadas de Menel, mas se eu fizesse esse tipo de busca cuidadosa, não sabia se conseguiria chegar a tempo. Sem mencionar que Menel poderia ter coberto seus rastros. Ele era cauteloso comigo, afinal, e era um caçador profissional. Se ele estivesse falando minimamente sério sobre esconder suas pegadas de mim, eu não seria capaz de fazer nada sobre isso.

Eu entoei várias Palavras em rápida sucessão. Eram Palavras de busca, usada para detectar coisas.

— Para lá…

Era uma magia simples que estima a direção geral, mas era melhor que nada.

Eu me preparei para ser imprudente.

Segurando meu escudo, atravessei as moitas da floresta, pulei por uma encosta íngreme e entoei Queda Suave para amortecer a queda. Impulsionei-me para frente, fazendo uso pesado de uma variedade de técnicas que qualquer um acostumado com a caminhada normal na floresta definitivamente faria se eles me vissem.

O fato de haver uma vila significava que deveria haver um espaço bem aberto em algum lugar. Parando de vez em quando para obter um senso geral de direção com as Palavras de Buscas, continuei correndo.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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