OPV – V2 – Capítulo 34

Quando acordei, Reystov estava lá para me explicar a situação.

Eu estava em uma vila perto do vale, em uma casa vazia que alugaram depois de informar sobre o que havia acontecido. Depois da batalha, Reystov e os outros se retiraram e vieram para cá, carregando Menel e eu por cima dos ombros. Felizmente, eu havia abatido toda a horda de bestas e, depois da retirada da quimera, não havia sinal de que tentaria outro ataque.

Menel escapou da morte.

Provavelmente foi graças ao número de feitiços e bênçãos que conjurei sobre ele antes. Também valeu a pena que Menel não tivesse tentado tolamente manter-se firme quando a quimera o atingiu, mas rolou com o golpe e foi voluntariamente derrubado. A colisão com a parede de pedras e o fogo da quimera quase o mataram, mas a magia que eu havia usado nele de alguma forma o manteve respirando, e minhas bênçãos chegaram a tempo.

No entanto, por eu usar demais minha lâmina demoníaca, acabei desmaiando no meio do tratamento de Menel, então ele não tinha voltado a si ainda.

— Por enquanto, descanse um pouco mais. — Reystov disse.

— Mas…

— A condição de Meneldor esta estável. Você se esforçou demais. Descanse. — Ele disse enfaticamente, me dando um olhar sério. Então saiu da sala.

Ele parecia exausto também. Deve ter havido outras vítimas além de Menel e eu naquela batalha caótica, mas ele não havia mencionado nada.

E assim, nesta casa desocupada com suas simples paredes de barro, sentei-me sob um leve raio de luz que brilhava através de uma abertura no telhado, minha cabeça baixa em pensamentos.

Onde diabos eu estraguei tudo?

Foi quando confiei em Menel na defesa contra o ataque na retaguarda? Não, dada a situação, isso era inevitável. A escolha acabou resultando em sofrermos uma derrota quase total e ter que fugir com nossas vidas, mas, no entanto, de onde eu estava naquela hora, a decisão de deixar a quimera para Menel não foi uma jogada obviamente ruim. Tinha certeza disso. Se eu tivesse resolvido lidar com a quimera, havia uma chance de que todos os outros pudessem ser pisoteados pelos demônios.

O pior momento para nós foi mais provável quando caímos na armadilha que usava o corpo morto. Tínhamos um bom número de pessoas, tivemos muito sucesso até aquele momento e estávamos agindo um pouco mais corajosos do que deveríamos para nos isolar do choque de ter visto os cadáveres de pessoas que conhecíamos. Todos esses fatores combinados devem ter resultado em cada um de nós ser um pouco descuidado.

Deveríamos estar em alerta desde o momento em que encontramos os corpos. Deveríamos ter sido pacientes e meticulosos, e mandado batedores em todas as direções. Se tivéssemos feito isso, não teríamos vagado sem rumo por um vale aberto e ser atraído para uma batalha em que estávamos em desvantagem.

Portanto, a causa desse fracasso foi por imprudência, muito simples. Tivemos nossa punição por nos deixarmos distrair no território inimigo e tomar ações descuidadas. Fim da história.

E que no entanto…

Havia algo… algo que não parecia certo nessa explicação. Eu estava ignorando algo importante. Eu pude sentir isso. O que era? O que eu não tinha percebido…?

Eu estava deitado de costas, com a cabeça cheia desse sentimento que não conseguia entender quando ouvi vozes através das paredes finas.

— Forçado a recuar, hein…

— Inacreditável, não é? É sobre o Matador de Wyvern e o Penetrador que estamos falando aqui.

— Havia alguma coisa quimera sobrenatural lá, eu ouvi. Uma mistura horrível de bestas diferentes.

— Qual é o plano para lidar com isso?

— Sei lá.

— Esse meio-elfo também se machucou gravemente, você ouviu falar sobre isso?

— Sim, ele entendeu tudo. Ele não deveria se deixar envolver nas batalhas que o Matador de Wyvern luta, é apenas suicídio. O cara é um monstro.

Os dois, aventureiros, pensei, passaram lá fora, provavelmente completamente inconscientes de que eu era capaz de ouvir a conversa deles.

Uma lâmpada brilhou em minha mente. Agora eu entendi. Não foi a estratégia. Foi a nossa força.

Na minha mente, alguém falou com uma voz pegajosa.

Confiei em Menel para me proteger. Pensei que, mesmo que sejamos confrontados com um inimigo poderoso, Menel seria capaz de evitar isso por um tempo se eu deixasse para ele. E quando a quimera apareceu, pensei o mesmo, como se fosse uma expectativa totalmente natural.

No entanto, qual era a realidade? Menel não conseguiu resistir à quimera. Ele não era tão forte quanto eu esperava. Atribuí a ele mais perigo do que poderia suportar, inocentemente, sem pensar duas vezes sobre isso. Eu o tratei como um amigo e pensei que ele poderia lidar com isso…

— Ah.

Tudo estava se encaixando agora. Algo veio rastejando para fora da parte mais escura do meu coração. Provavelmente era algo que eu estava subconscientemente tentando evitar confrontar. Estava tirando isso da minha cabeça, mas não ia mais desviar meus olhos disso.

Pelos padrões deste mundo, meu nível de força era completamente insano.

Disseram-me isso inúmeras vezes desde que deixei a Cidade dos Mortos, explicitamente e não tão explicitamente. E toda vez eu sorria humildemente e educadamente, e deixava essas palavras passarem por mim.

Por que não tinha pensado nisso até agora? Eu provavelmente estava inconscientemente evitando pensar profundamente sobre isso. Não importa o quanto todos ao meu redor elogiaram minhas habilidades, eu continuava sendo modesto. Levantei todas as outras pessoas qualificadas que conheci e senti vergonha da minha imaturidade. Porque, caso contrário, isso significaria admitir.

Por mais lamentáveis que fossem as pessoas que conheci, por mais horríveis que fossem as vistas, evitava sentir pena de alguém. Eu apenas tentei ser um bom solucionador de problemas. Porque, caso contrário, isso significaria admitir.

Que não éramos iguais.

E uma vez eu admiti isso…

Depois que reconheci que estava acima deles, e todo mundo estava muito, muito abaixo de mim…

Uma vez eu comecei a perceber que pedir a alguém para lutar ao meu lado pode estar forçando um fardo terrível sobre eles…

Eu nunca poderia ser como eles. Não como aqueles três. Protegendo o outro de volta, apoiando-se, respeitando-se. Nunca teria amigos assim. Porque eu estaria sozinho.

Então, eu me recusei a reconhecer que havia uma diferença em nossas forças.

Mas como era a realidade? Eu queria que Menel lutasse ao meu lado, mas ele era fraco. Eu o venci sem esforço quando nos conhecemos. Mesmo em minha batalha contra o wyvern, tudo o que ele fez foi espalhar minha Palavra e me ajudar a derrubar o wyvern no chão. Isso foi tudo. Eu estava inconsequentemente desviando os olhos da simples verdade de que, comparado a mim, ele era muito fraco. Era como se fosse algo nojento que eu não quisesse olhar.

Por quê? Por que estar sozinho era algo para se temer?

No instante em que pensei nisso, uma cena surgiu em minha mente, com um flash não de luz brilhante, mas de escuridão.

Era o meu antigo quarto, na minha vida passada. Era um cômodo vazio sem ninguém lá, uma casa sem pais, um lugar tão silencioso quanto um túmulo. Eu estava assustado. Estava com medo. Estava sozinho. Eu machuquei por dentro. Não aguentava mais.

— Ah.

Eita.

Então era isso. Era algo tão simples. Eu não queria ficar sozinho. Tinha medo de não ter ninguém ao meu lado.

Então, mesmo que ele fosse alguém que eu deveria estar protegendo, alguém que eu deveria estar salvando, tentei vê-lo como um igual contra toda a razão. Inventei desculpa após desculpa para não pensar nos fatos claros e óbvios. Eu o convenci a ficar ao meu lado e, como resultado, quase o destruí. E foi tudo pelo único motivo, mais desprezível, que eu não queria ficar sozinho.

Finalmente entendi… o que estava fazendo de errado.

Eu fiquei de pé. Hesitei um pouco, mas uma oração resolveu isso sem nenhum problema. Não havia necessidade de se preocupar. Eu era muito forte.

Comecei a andar. Primeiro de tudo, eu tive que ir ver Menel. Tinha que curá-lo.

Começou a chuviscar em algum momento, mas não me incomodou nem um pouco. Eu senti como se todas minhas preocupações tivessem sido levadas para longe.

E eu ri, do fundo do meu coração.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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