OPV – V2 – Capítulo 5

O resultado: ninguém morreu.

Depois de derrubar Menel, consegui neutralizar o resto de seus dez fortes bandidos com relativa facilidade usando as Palavras do Sono e Paralisia. De um jeito ou de outro, um ataque terrível fora evitado e, embora houvesse algumas pessoas feridas, não tive problema em curá-las com minha bênção.

Por causa disso, recebi muitos agradecimentos das pessoas da aldeia como “um guerreiro sagrado de bom coração”, mas quando o sol começou a subir na praça da aldeia em sua periferia, meu rosto demonstrava nada além de desprazer.

No centro da praça havia algo como um pequeno santuário, onde uma pilha de pedras de formas irregulares fora empilhada. Era um santuário dedicado aos deuses bons. Eu poderia imaginar que ele foi criado empilhando pedras que os aldeões haviam desenterrado enquanto cultivavam os campos e não sabiam o que fazer. Nesse sentido, provavelmente era também um monumento aos seus esforços agrícolas.

Se o costume aqui era o mesmo que Gus havia me ensinado, discussões importantes eram frequentemente realizadas diante dos deuses em pequenas aldeias como esta, às vezes, enquanto faziam juramentos para eles. Mesmo no meu mundo anterior, havia muitas regiões que realizavam assembleias e votações importantes diante de seu deus. Neste mundo, no entanto, onde os deuses podiam exercer sua influência sobre a realidade, esse costume carregava um significado ainda maior.

Neste exato momento, nesta praça com seu santuário, os homens da aldeia estavam discutindo sobre como lidar com os agressores da aldeia, que foram paralisados e amarrados.

— Pela centésima vez…

— Pendure os vermes! Fim de discussão!

— Ouça o que eu falo para você!

— Primeiro, ei! Eu disse primeiro…

— Eles de repente vieram e nos atacaram!

— Olha, isso não é o mais importante aqui!

Que bagunça. Na verdade, parecia que todo mundo estava apenas gritando um com o outro.

Isso era horrível.

Por um momento, fiquei imaginando por que eles estavam se comportando assim, e então de repente percebi algo sobre os aldeões. Eles tinham tons de pele diferentes, cada um tinha um sotaque diferente, e em sua agitação, alguns estavam gritando furiosamente vocabulários grosseiros que eu não tinha ouvido nenhum outro aldeão falar.

Quando percebi isso com surpresa, um homem de meia-idade se aproximou de mim.

— Descurpe, sinhô, pela exibição vergonhosa. Sô muito grato. — Ele inclinou a cabeça para mim. Percebi que esse era o mesmo homem que encontrei antes, um dos dois que haviam sofrido o primeiro ataque de Menel. — Sô John, sinhô.

— Ah, de nada. Hmm… Meu nome é William. Uhh… Então…  — Ignorando as pessoas gritando um com o outro por enquanto, tentei entender melhor as coisas através de John.

Assim como eu tinha ouvido falar de Menel ontem, eu estava atualmente na Floresta das Bestas, Southmark. As florestas eram profundas e expansivas, com criaturas ferozes e “bestas” ainda mais perigosas correndo soltas. Como resultado, John explicou, a influência do Reino Fértil que governava esta área não se estendeu até aqui.

— Vamo dizê, nóis tem muitas personalidades… Interessantes…

Criminosos, servos fugitivos, aqueles que fugiram das nações caídas, aspirantes a aventureiros ainda tentavam fazer seus nomes caçando nas ruínas, todos os tipos de pessoas que, por uma razão ou outra, não podiam viver na cidade naturalmente se reuniram e formaram esta aldeia. Aparentemente, havia várias aldeias espalhadas por essas florestas.

Naturalmente, os lugares de origem dos colonos, suas normas e suas percepções do direito variavam enormemente. Não é de admirar que eles estivessem assim quando tentaram realizar uma reunião. Eu simpatizava com a situação difícil deles, mas ao mesmo tempo…

Fico pensando o que vai acontecer com eles. Olhei para Menel. Ele estava preso pelas Palavras de teia e paralisia e deixado no chão; não conseguia ver a expressão dele de onde eu estava.

Se você formasse um grupo e invadisse uma aldeia em uma área além do alcance da lei, então falhasse e fosse capturado… Eu tinha que admitir que o que aconteceria com você era meio previsível.

Menel seria morto nas mãos dos aldeões e deixado pendurado… Ou algo nesse sentido, imaginei.

Isso deixou um gosto amargo na minha boca. Eu podia sentir que estava agindo de forma branda, um remanescente da minha vida passada, mas ainda havia algo que me dificultava.

Por mais egoísta que fosse, a ideia de que as pessoas que eu capturei iriam morrer, que, em essência, eu causaria a morte de outras pessoas, não era algo com que eu queria ser confrontado, nem queria a justiça brutal da máfia, foi uma das primeiras coisas que consegui ver ao entrar na civilização. Além disso, mesmo que ele fosse um bandido, não me sentia bem com a perspectiva de ver alguém que eu conhecia, alguém com quem conversei, morrer na minha frente paralisado.

Quero dizer, depois de deixar a cidade, achei que o primeiro lugar que encontraria seria uma área de periferia com lei e ordem ruins, então eu estava preparado para as coisas ficarem um pouco difíceis, mas nunca esperei que fosse ficar tão ruim assim tão rápido.

Lutar contra bandidos é um tropo clássico de aventura e história, mas agora que eu os encontrei na vida real, percebi o quanto eram difíceis de lidar. Você não poderia simplesmente mandá-los embora e não esperar problemas depois. Enquanto eu estava me perguntando se havia algo que pudesse fazer.

— Tamem num sei o que vai acontecer com eles.

— Você não sabe? — Inclinei minha cabeça. Em uma situação como essa, eu estava esperando que qualquer solução que eles resolvessem provavelmente envolveria matar os invasores.

— Eles são familiares. Nossos vizinhos, se quiser chamar assim, da aldeia próxima. Ah, eu digo vizinhos, mas eles num tão tão pertos de nóis. Tá um dia de caminhada entre nóis pela floresta e um riacho.

— Huh?

A aldeia vizinha os invadiu? No meio do inverno? Sem qualquer aviso?

— Eles num estavam bem, nóis tamem num tá, mas eles têm provisões suficientes, até onde eu sei… Eu diria que eles eram legais com as pessoas desses bosques, e pensei que nóis estava nos dando muito bem.

Hmm. Isso soou misterioso.

— O que mais, o elfo de cabelos prateado, tem uma boa reputação por perto como um caçadô. E nos ajudô muintas vezes a eliminar bestas perigosas. Muintos de nóis deve nossas vidas a ele. Num entendo isso.

Eu estava começando a ver de onde vinham as dúvidas de John e tinha apenas concordado quando notei uma mudança em todos os gritos na reunião.

— Muito bom, muito bom, — disse um velho, batendo palmas e gritando. — Tenho certeza de que todos vocês estão cansados de falar. Por que não bebemos água?

Parecia que todo mundo havia gritado até a rouquidão neste momento. O velho deve ter esperado aquele momento perfeito para participar da reunião.

Ele era baixo, com cabelos quase brancos, e usava uma bengala. Ele parecia amigável, mas tinha um olhar que me dizia que era um homem para tomar cuidado. A pequena cicatriz perto da sobrancelha esquerda era muito distinta. Parecia uma velha ferida de lâmina.

— Esse véi cavalheiro é Tom, — John me disse, prestativo. — E é o ancião da aldeia.

Enquanto o jarro de água estava sendo passado, Tom começou a falar.

— Tudo certo. Vocês não precisam parar de beber, mas gostaria que vocês ouvissem o que tenho a dizer por um momento. Primeiro de tudo, só para checar: os que estão aqui são principalmente da aldeia próxima, certo? E depois há o caçador de cabelos prateados.

O discurso do ancião tinha um fluxo suave que parecia me atrair. Porque ele cronometrou isso quando os aldeões estavam cansados de falar e agora estavam bebendo e pegando fôlego, todos aqueles homens que gritaram tanto não estavam fazendo nada para tentar interromper as palavras do ancião. Ele é esperto, pensei.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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