OPV – Volume 1 – Capítulo Quatro (Parte 11 de 12)

Enquanto pensava em como eu era sortudo, um par de braços me envolveu com força.

— Will… Will… Estou tão feliz por você estar bem… — O cheiro amigável de madeira perfumada me envolveu.

— Bom trabalho, Will. — Uma mão ossuda sem qualquer suavidade bagunçou meu cabelo.

— Hmph. Ele é o filho de Maria e Sanguinário, relação de sangue ou não. Eu certamente espero que ele possa realizar isso. — Essa escolha de palavras, menosprezando mesmo quando oferecia elogios.

— Maria! Sanguinário! Gus! — Suas vozes me levaram às lágrimas.

Finalmente, percebi o que consegui. Lembrei-me de algo muito óbvio: derrotar um inimigo poderoso como um herói em uma história nunca foi meu objetivo. Tudo que eu queria era proteger esses três, minha preciosa família. Não queria me abraçar como uma covarde. Esse era o meu único desejo, e arrisquei minha vida na esperança de conseguir. E eu fiz.

— Eu consegui… eu consegui…

Eu me levantei e lutei como deveria. Não me abracei aos meus joelhos. Eles estavam todos aqui, todos os três. Eu os protegi.

— Graças aos deuses… Graças aos deuses… — Meu peito apertou com centenas de sentimentos diferentes. Lágrimas escorriam pelas minhas bochechas. — Estou tão feliz por vocês estarem seguros…

Voltei o abraço de Maria e olhei para Sanguinário e Gus. Eles estavam sorrindo. Estavam todos sorrindo. Como se fosse contagioso, sorri de volta através das minhas lágrimas.

— Tudo bem! — Sanguinário arrastou a palavra e apertou o punho entusiasticamente. — Acho que temos uma vitória para comemorar e também devemos a Will uma festa de amadurecimento!

— Sim. Este lugar precisa de muita limpeza, mas acho que pode esperar um ou dois dias.

— De fato. Nesse caso, tenho uma garrafa de espíritos anões de duzentos anos que está esperando por uma ocasião como essa.

— Licor?! — Sanguinário disse. — Porra, vovô Gus, você nunca disse nada!

— O que, você sugere que eu deveria ter desperdiçado esta boa bebida em uma criança?

— Licor dos anões? — Perguntei. — Isso é bom?

— Pode crer que sim, — Gus disse, — se eu pudesse beber!

— Oh, vamos lá, meu velho. Finja. — Sanguinário soou exasperado com ele. — Este é um momento de festejar!

— Sim. Vamos, Gus, beba com a gente!

— Will, você não vai beber demais. Você se lembra do que aconteceu da última vez. Melhor não acontecer de novo, você me entendeu?

— S-sim.

— Cara, quando você olha para as pessoas com os olhos bem abertos assim, seu rosto parece aterrorizante.

Maria riu baixinho, não ofendida.

— Não é tão ruim quanto o seu.

Gus caiu na risada.

— Verdade da verdade.

— Vá em frente, vovô Gus. Mostre-nos onde você escondeu a bebida.

Enquanto conversávamos ruidosamente e seguíamos atrás de Gus, os joelhos de Maria e Sanguinário cederam e caíram no chão.

Por um instante, não entendi o que havia acontecido.

— Maria? Sanguinário? — As palavras que saíram da minha boca pareciam muito fora do lugar.

— Ahh… Nada bom.

— Parece assim, não é?

Os dois tentaram se levantar várias vezes, mas acabaram desistindo. Suas pernas não funcionariam mais.

— É como as coisas são, tenho medo. Nossa ligação se foi, nos recusamos a vender nossas almas ao deus da morte e permanecemos fiéis aos bons deuses. Seria tolice pensar que seríamos autorizados a permanecer como mortos-vivos.

— Bem, sim. Tenho que dizer, no entanto, que esperávamos durar até a festa terminar.

— Gracefeel já está fazendo grandes subsídios para nós, sabe. Não seria estranho que tivéssemos desaparecido imediatamente.

Eu não conseguia entender o que eles estavam dizendo. Não queria entender.

— Uh, então, Will. Eu e Maria, aqui é o mais longe que conseguimos ir.

— V… você está brincando. — As palavras saíram reflexivamente da minha boca. Eu não queria aceitar isso. — V… você está brincando comigo. — Minha voz estava tremendo. — Isso deveria ser uma festa, não seja tão má…

— Will, você é um menino inteligente… Você entendeu, não é?

Eu não pude lutar contra isso. Eu sabia, em alguma parte da minha cabeça, que as coisas iriam acabar assim. E depois daquele olhar e daquelas palavras gentis… Eu sabia que estava acabado.

— Você disse isso tão de repente, eu queria que você apenas… risse e dissesse que era apenas uma piada… Eu queria que você… — Meus sentimentos de negação lentamente murcharam e morreram. Respirei profundamente, e nada foi deixado lá dentro, apenas um toque de resignação e uma solitária e vazia tristeza.

— Desculpe, pequeno!

— Sinto muito, Will…

Ambos poderiam ter se sentido da mesma maneira.

— Não há nada que possamos fazer?

— Não há. — Maria balançou a cabeça. — Mesmo se houvesse, não devemos.

— Foi você quem disse isso, Will. É essa coisa de “viva e morra como deveria ser”. Ok, claro, nós vacilamos nisso por um tempo… Mas, chegamos lá no final! Apenas tomamos a rota cênica. Tenho certeza que alguns séculos ainda contam como rota cênica. Quase.

— Além disso, os pais devem morrer antes dos filhos. Essa é uma lei da natureza. Uma lei da terra. — As palavras de Maria eram apropriadas para uma sacerdotisa de Mater.

— Hmmm. Sim. Sim, você está certa. — Era assim que as coisas deveriam ser. O deus da chama provavelmente diria a mesma coisa.

Mas… mesmo assim…

— Eu sei que não devo dizer isso… mas… não posso evitar. Vou dizer uma vez, ok? Mesmo depois de tudo o que você disse, ainda não estou feliz em ver você morrer.

De jeito nenhum. Eu não quero ver isso acontecer. Eu não quero ver Maria e Sanguinário morrer.

Estas foram palavras proibidas para mim, tanto como uma criança em pé na frente de seus pais moribundos, quanto como um novo clérigo do deus que presidia as almas e o samsara. Eram palavras que ameaçavam desfazer a declaração pretensiosa que fiz ao deus da morte.

No entanto, não pude deixar de dizê-las.

— Eu quero voltar aqui um dia e ver vocês dois novamente. Quero ter mais lutas com você, Sanguinário, e bater em você algumas vezes e ser espancado às vezes, e então nós vamos xingar um ao outro. Quero fazer as tarefas com você novamente, Maria, e talvez você me diga o quanto eu melhorei. Quero que você veja meus filhos, meus netos, e eu quero que você ensine todos os tipos de coisas, como você me ensinou. — Esse era meu sonho. Meu doce devaneio, que alguma parte de mim sempre soube, que nunca se tornaria realidade.

— Como você pode dizer que vai desaparecer agora?! Você não pode ir! Você não pode, não aguento! Como eu deveria continuar sem você? — Minha voz tremia. Minhas lágrimas caíam incontrolavelmente. — Não vá… Por favor… eu não me importo se você enganar… Por favor, apenas fique…

Eu sabia o quão patético devo ter parecido a eles enquanto me observavam. Chorando, gritando, fazendo birra. Apenas como uma criança. Mas mesmo assim, tive que contar a eles.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!