PA – Capítulo 133

Sorvete Napolitano (1)

 

 

— Você é a Chapeuzinho Vermelho?

Mesmo que Sanji já suspeitasse disso, não conseguiu evitar de perguntar quando ouviu aquelas palavras.

Então, de repente, se viu sentada no campo florido novamente.

— Hã?

A aconchegante luz do sol brilhava acima, havia um cheiro agradável de grama no ar e ela podia ouvir o som da brisa passando pelo campo de flores. Sanji olhou em volta e não viu ninguém.

Ainda sentada, viu que haviam margaridas amassadas à seus pés. Olhando ao redor, e pelo formato da grama, a impressão é que ela esteve deitada na grama. Sanji sabia que ainda estava no Glitch, mas não conseguia entender o que acabara de acontecer.

— O que foi isso? Eu estava sonhando? — murmurou enquanto levantava.

A floresta onde tinha encontrado Chapeuzinho Vermelho estava ao longe. Sanji forçou os olhos, observando a floresta, mas não viu ninguém. Parecia que ela tinha sonhado com aquela menina alegre de capuz vermelho.

Sanji não sabia se sonhar nesse Glitch tinha alguma outra implicação, mas sabia que não estava dormindo nesse momento…

Ela massageava as têmporas, mas ainda não conseguia entender o suposto sonho que tivera. Enquanto isso, sentiu outro sensação de urgência. Sanji não sabia a quanto tempo estava ali, já que não tinha um relógio, e também sabia que o Glitch não seguia o fluxo lógico do tempo. Além do mais, ela tinha acabado de “acordar de um sonho”. Pensando sobre as outras mulheres lutando lá fora, Sanji respirou fundo para se acalmar e controlar seu sentimento de impotência. Em seguida, apenas escolheu uma direção e começou a andar.

De qualquer forma, o objetivo do Glitch era definitivamente algo mais além de apenas fazê-la ter sonhos inexplicáveis. A única estratégia que Sanji tinha era tentar encontrar algum tipo de pista ou dica…

— Você está perdida?

Sanji ficou um pouco surpresa quando ouviu uma doce voz feminina. Ela deu alguns passos para trás e, embora parecesse inexpressiva, o choque que recebeu foi indescritível. Embora Sanji não tenha ganho nenhum aumento de nível para seu aprimoramento físico, como um Tipo de Crescimento, seus cinco sentidos e sua agilidade aumentavam gradualmente e de forma constante. Isso significava que suas capacidades físicas eram muito superiores às de qualquer humano normal. Era impossível que uma pessoa normal pudesse se aproximar dela sem que percebesse nada.

No entanto, a adolescente na frente dela definitivamente não era uma pós-humana.

— Desculpe, eu não queria te assustar. Não era essa a minha intenção, — a adolescente disse se desculpando quando percebeu que poderia ter assustado Sanji.

Sanji se recompôs e olhou para a adolescente diante dela. A garota parecia ter uns dezesseis anos e tinha um cabelo loiro quase dourado que brilhava sob o céu azul, como se fosse se fundir com os raios do sol. Embora a menina fosse bonita, haviam manchas de poeira em sua pele e ela carregava uma cesta de roupas. Além disso, estava usando um vestido velho e empoeirado. O design era absolutamente inadequado para uma garota da idade dela, pois não tinha sequer uma costura na cintura.

A garota sentiu o olhar crítico de Sanji e rapidamente abaixou a cabeça, como se estivesse um pouco envergonhada. Ela puxou o vestido e tentou esconder o par de sapatos velhos e sujos dos olhos de Sanji.

Esta… deve ser uma personagem neste Glitch?

Sanji pensou. Essa era a única razão que poderia explicar como a garota poderia se aproximar sem que notasse.

— Eu me chamo Sanji e estou realmente perdida… Você poderia me dizer onde estou? — Sanji sorriu fracamente, mas ela não baixou a guarda e, em vez disso, preparou-se para qualquer movimento repentino da adolescente.

— Eu moro em um casa perto daqui. Se você quiser ir ao mercado, você pode me seguir. Eu posso te mostrar o caminho, — a donzela de cabelos dourados ofereceu, sorrindo. Ela não percebeu que Sanji ficou tensa. Ela se virou e apontou para uma estrada, enquanto seus cachos de cabelos dourados escorriam por seus ombros seguindo seus movimentos. — Olhe ali, você pode seguir aquela estrada. Se você passar aquela colina, vai encontrar o lugar onde eu moro.

Sanji viu uma estrada que não havia percebido anteriormente quando olhou na direção apontada e sentiu que a menina poderia, afinal de contas, ser inofensiva. Sanji relaxou e respondeu:

— Obrigada, estou contando com você.

— De nada. — A donzela de cabelos dourados olhou para ela timidamente. — Eu raramente vejo pessoas como você por aqui. Você parece gentil.

As almas das incontáveis pessoas que havia matado provavelmente não concordariam com isso, mas Sanji assentiu e agradeceu à donzela novamente.

— Qual é o seu nome?

— Oh! Perdoe meus modos. Eu deveria ter me apresentado! Mas… — ela parecia visivelmente desanimada enquanto continuava, — ninguém me chama mais pelo meu nome verdadeiro, nem mesmo meu pai. Minhas irmãs me chamam de Cinderela. Você pode me chamar por esse nome também.

O rosto de Sanji rapidamente se contorceu em uma careta enquanto beliscava seu próprio pulso.

Eu acabei de sonhar com a Chapeuzinho Vermelho, e agora é a Cinderela… Este é um mundo de faz de contas? Mas, se for verdade, então para onde foi a Chapeuzinho Vermelho?

— Eu não gosto de pensar na minha madrasta e irmãs quando estou sozinha. — Cinderela apertou o rosto e rapidamente forçou um sorriso. — Bem, já que você parece uma viajante, talvez pudesse me contar algumas histórias sobre as terras distantes.

Ao invés de contar histórias de lugares tão tão distantes, Sanji estava muito mais interessada em obter mais informações sobre esse lugar. Ela franziu as sobrancelhas enquanto tentava endireitar os pensamentos confusos em sua cabeça. Ela não disse uma palavra e Cinderela não a pressionou por uma resposta, ao invés disso, apenas andou um pouco mais devagar, por consideração.

Eles continuaram andando por algum tempo sob as mesmas circunstâncias. Quando Sanji ouviu o barulho de uma carruagem de cavalos em uma rua de pedra calçada, percebeu que a colônia estava bem à frente. Era uma colônia européia medieval típica com casas curtas construídas de pedra. Havia algumas mulheres camponesas na rua, com grandes buquês de flores e galinhas seguindo-as. No meio da pequena cidade provincial, havia uma pequena praça com um poço. Um gato estava preguiçosamente deitado na beira do poço, lambendo a própria cauda.

Sanji tinha 100% de certeza de que não seria capaz de encontrar esta cidade se estivesse sozinha.

— Você parece perturbada, viajante, — Cinderela falou usando um tom estereotipado que personagens de contos de fadas usam.

— Hum, bem… Isso mesmo! — De repente, Sanji teve uma ideia. — Como você sabe, eu sou de um lugar muito, mas muito distante. Está ficando escuro e eu não tenho onde ficar. Queria saber se eu poderia ficar em sua casa por uma noite.

O queixo de Cinderela caiu. Ela olhou para Sanji e para o sol brilhante da tarde.

— Bem, por mim tudo bem, — como previsto, a famosa Cinderela era uma pessoa muito gentil, mas ela continuou hesitante, — mas não tenho certeza se minha madrasta e minhas irmãs concordarão…

— Eu posso pagar pelas acomodações da noite! — Sanji rapidamente acrescentou. — Eu trouxe muitos tesouros de longe, eu só preciso ficar uma noite e deixo elas escolherem o que gostarem!

Sanji tinha um monte de parafernálias que havia pego no supermercado. Ela imaginou que não seria difícil chocar alguém do período medieval. Cinderela parecia conhecer sua madrasta muito bem. Ela hesitou por alguns segundos e assentiu antes de levar Sanji para sua casa.

— Esta é a minha casa. — Cinderela parecia desanimada quando disse isso. Era uma linda mansão de três andares. Depois de atravessarem os portões de metal, tiveram que passar por um grande jardim antes de chegarem à porta. — Espere aqui. Vou verificar com a minha madrasta se ela permite.

— Certo. — Sanji respondeu rapidamente enquanto observava Cinderela entrar na casa.

Sanji suspirou enquanto vários camponeses que passavam pelo local olhavam para ela inquisitivamente. Ela se sentia muito cansada.

— O que eu tenho que fazer neste Glitch?

Fechou os olhos e massageou o rosto e tentou não pensar no Jardim do Éden, nem se alguém tinha se machucado.

— Espero que Lina e as outras estejam bem… — Sanji murmurou. Ficou chocada quando abriu os olhos novamente.

Mais uma vez, se viu deitada no campo florido. Notou o mesmo sol acolhedor, a brisa suave com o aroma de grama e aquelas margaridas esmagadas por seus pés.

A cidade, os transeuntes e a casa de Cinderela desapareceram como uma bolha estourada, sem que ela sequer notasse, haviam desaparecido sem deixar vestígios. Sanji mordeu os lábios trêmulos e olhou para o seu pulso. Havia uma marca vermelha clara de quando se beliscou anteriormente. Quando encostou no pulso, ainda doía um pouco.

Foi então que ouviu um som ligeiramente peculiar. Ainda em transe, Sanji olhou ao redor e viu uma mulher não muito longe dela.

A mulher tinha cabelos negros e tinha vinte e poucos anos. Seu cabelo estava bem penteado e ela usava um vestido longo que se espalhava pelo chão. Seu rosto estava vermelho e ela estava acenando com uma taça de cristal na mão. Os raios do sol transpassavam a taça cheia de vinho e se difundiam em tons de vermelho-escuro.

— Por que você está no meu jardim? — a mulher perguntou com uma voz grogue. A jovem não parecia estar realmente incomodada com a presença de Sanji. Ela observou sua taça preguiçosamente com os olhos meio abertos. — Você! Você provavelmente nunca viu uma taça de cristal tão perfeita assim, não é? Acho que nem o rei tem sequer metade dos tesouros que tem na casa atrás de mim.

Sanji olhou inexpressivamente para a mulher.

— Tem até um espelho gigante na casa. Você consegue se ver dos pés à cabeça. São todos tesouros que ninguém nunca viu antes… — a mulher de cabelos negros virou a cabeça e deu uma gargalhada. Ela se inclinou na cadeira e deixou a taça de cristal cair no chão. Vinho tinto manchou os cantos do vestido dela. — Mas, com um marido assim, como posso ser feliz mesmo com todos os tesouros do mundo…

— Merda! — Sanji amaldiçoou baixinho antes de cautelosamente perguntar. — Seu marido é…

A mulher de cabelo preto acariciou suas próprias bochechas vermelhas e respondeu com os olhos desfocados.

— Ele não é bonito. Ele tem uma grande barba azul, então todos o chamam de Barba Azul. Você já ouviu falar dele antes?

Muito mais do que “já ouviu falar”. — Sanji bateu com o punho no chão. — Que inferno é esse que está acontecendo nesse Glitch?!

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

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