PA – Capítulo 136

O Sapatinho de Cristal de Cinderela

 

 

Naquele momento crítico, Sanji acordou em uma cama desconfortável feita de palha ressecada. A luz fraca entrou em seus olhos e antes que pudesse reagir às mudanças, pulou da cama, e palha seca caiu de seu corpo ruidosamente. Cinderela se assustou com o movimento repentino.

— O que foi? — A moça perguntou gentilmente. O rosto e as mãos da donzela estavam cobertos de sujeira. — Você teve um pesadelo?

— Eu… Ah, sim. — Sanji piscou os olhos rapidamente, tentando se recuperar da sensação da velha cabana no meio da chuva e dos latidos de cachorros. Demorou alguns segundos até que finalmente olhou pela janela. Ainda estava escuro lá fora com uma lua crescente no céu. Não havia sinal nenhum de que choveria.

— Que horas são? — Sanji acalmou sua respiração e olhou para Cinderela, um pouco confusa. — Por que você já está trabalhando assim tão cedo?

Cinderela suspirou.

— Eu sempre acordo a esta hora para fazer minhas tarefas. Logo amanhecerá. Preciso preparar o café da manhã. — Depois que disse isso, fez uma pausa e observou o fogão na frente dela em um estado de torpor. Sanji podia adivinhar o que ela estava pensando. Pela informação que reuniu, já se passara um mês desde o baile. Segundo a história original, Cinderela já teria perdido um dos sapatinhos de cristal. No entanto, mesmo depois de quase um mês inteiro, o príncipe não veio procurar por ela…

Para Cinderela, o vestido de jóias, as luzes estonteantes e a dança com o príncipe tornaram-se tudo um sonho distante. O conto de fadas havia terminado e agora o que sobrou mais uma vez eram suas tarefas diárias, ajoelhada em uma cozinha bagunçada com sujeira cobrindo suas mãos.

A história de Cinderela está chegando ao clímax assim como a história de Chapeuzinho Vermelho?

Sanji ponderou enquanto se desculpava dizendo que queria ir ao banheiro se lavar. Saiu e analisou suas cartas. Ela havia dado à madrasta algumas velas perfumadas e algumas lanternas. Embora a mulher tivesse aceitado o “pagamento” sem fazer nenhum comentário, não escondeu sua decepção com Sanji por não ter lhe apresentado nenhuma joia. Isso também explicava por que teve que dormir em uma cama de palha desconfortável.

Depois que terminou de fazer o inventário de suas cartas, colocou a mão sob o queixo e começou a se questionar sobre as duas pessoas no chalé.

Nem Chapeuzinho Vermelho nem Emma parecem lobisomens… Não havia nada incomum no comportamento delas. Mas, pensando bem, como é que um lobisomem se comporta?

Enquanto Sanji estava imersa em seus pensamentos, o céu gradualmente ficou mais claro. Depois de uma madrugada movimentada, Cinderela fez e levou os conjuntos de café da manhã para sua madrasta e irmãs. A moça havia feito uma refeição simples de batatas e ervilhas para si mesma e compartilhou um pouco com Sanji.

O sabor não era lá grande coisa, mas Sanji ficou muito grata só de ter algo para comer. Cinderela riu quando viu como Sanji havia devorado a comida.

— Acho que você não teve muita sorte viajando.

As palavras da moça soaram como um sino na mente de Sanji. Se passar por incontáveis mundos era sua viagem, realmente não sabia qual era o seu destino. Normalmente, Sanji evitava pensar nos incontáveis Novos Mundos lá fora. Se esforçava ao máximo para não pensar nos companheiros que haviam morrido ou que tinha perdido contato. Porém, tentar reprimir esses sentimentos era como tentar tapar o sol com uma peneira. Bastou um único comentário de Cinderela para que essas emoções viessem a tona.

— Sim, é difícil. Eu raramente tenho tempo para comer direito, — depois de recuperar a compostura, Sanji respondeu com um sorriso.

Cinderela hesitou quando viu a expressão de Sanji. Queria dizer alguma coisa, mas foi interrompida pelo barulho do lado de fora. Eles ouviram um dos servos gritando:

— Madame, madame! Onde você está? Venha aqui fora para receber o mordomo-mor do palácio!

É agora…

O coração de Sanji acelerou enquanto colocava a tigela no chão e puxava Cinderela, que ainda estava atordoada, pela porta dos fundos da mansão. A grande mansão não parecia tão imponente quanto costumava ser. A madrasta saiu correndo, segurando os cantos do vestido. Era aparente que a mulher tinha acabado de pentear o cabelo, já que ainda havia um brilho de óleo sobre o mesmo. As duas irmãs da Cinderela estavam atrás da mãe. Era aparente também que elas haviam se maquiado e se decorado com jóias.

— Por que o mordomo-mor veio aqui? — A madrasta perguntou depois de recuperar o fôlego.

O mordomo era um homem de meia-idade com cabelos grisalhos e rosto estóico. Tinha um rosto tão sério que evocava a mesma expressão em qualquer um que o visse.

— De acordo com a ordem do príncipe, eu viajei pelo reino inteiro procurando uma senhorita que possa usar este sapato. — Depois que se explicou de uma maneira profissional, acenou com o braço e o servo atrás dele revelou um sapato de cristal em uma caixa. — Qualquer uma que conseguir usar este sapato ganhará o privilégio de ficar ao lado do príncipe.

O sapatinho de cristal brilhava claramente sob o sol. Uma vez que foi revelado, Sanji ouviu Cinderela suspirar suavemente. Felizmente, todos estavam focados no mordomo e no scarpin, então ninguém mais percebeu.

O que aconteceu daí para frente foi bem similar ao conto de fadas. Mesmo não sendo tão sangrento quanto a versão dos Irmãos Grimm onde as irmãs contaram o calcanhar e os dedos para que o pé coubesse no sapatinho, elas se esforçaram bastante. Amarravam os pés com tiras de roupas, forçando os dedos para debaixo do pé, criando uma espécie de atadura oriental. Apesar da dor, elas foram incapazes de espremer seus pés no sapato, pois o mesmo não tinha nenhum espaço extra. Só se encairia perfeitamente em sua verdadeira dona. O mordomo-mor até queria que Sanji tentasse, mas quando viu o par de botas, imediatamente desistiu da ideia.

No final, Cinderela estava um pouco nervosa quando colocou os delicados pezinhos no sapatinho de cristal. Sanji se assustou quando as pessoas ao redor soltaram gritos de choque e surpresa.

— Ótimo! — O mordomo disse com o mesmo rosto estoico, sem mostrar qualquer indício de felicidade. — Finalmente encontramos você. Tenho certeza de que o príncipe ficará satisfeito.

Cinderela corou e permitiu que as criadas do palácio a levassem para um dos andares superiores da mansão. Depois de se limpar e se maquiar, finalmente ficou tão bonita quanto na noite do baile. Estar dentro de um conto de fadas e ver a personagem principal passar por vários eventos foi uma experiência maravilhosa para Sanji. Como havia muitas pessoas na sala, teve que assistir da janela do segundo andar, enquanto o mordomo levava Cinderela para longe cordialmente, em direção a uma carruagem especialmente decorada.

Baseado nas lembranças de Sanji, o príncipe deveria aparecer neste ponto e ordenar a punição da madrasta e das irmãs de Cinderela.

O príncipe está naquela carruagem?

Os eventos que seguiram pareciam provar que estava certa. O mordomo disse algo à pessoa na carruagem e convidou Cinderela para entrar. A moça olhou para a carruagem e virou para falar com o mordomo. Então, acenou com as mãos ansiosamente…

Huh?

Sanji cerrou os olhos. A expressão de Cinderela parecia estranha. O rosto dela estava um pouco pálido enquanto balançava a cabeça violentamente. Como Sanji estava muito longe, não conseguia realmente ouvir o que estavam dizendo. Cinderela não falou muita coisa e rapidamente se virou e tentou ir embora. No entanto, foi subitamente interrompida por dois soldados. Eles agarraram a moça e a colocaram na carruagem contra sua vontade.

Cinderela resistiu, chutando violentamente com seus pés que ainda estavam fora da carruagem, mas parecia que alguém lá dentro estava impedindo-a de escapar. Enquanto isso, o veículo começou a se mover e estava prestes a sair da propriedade. As pessoas da mansão ficaram em silêncio quando viram tal cena.

Isso é muito diferente da história original!

Sanji rangeu os dentes e saltou da janela quando ninguém estava olhando. O impacto de quando encostou no chão entorpeceu suas pernas, mas antes que a poeira assentasse, a mulher já estava correndo atrás da carruagem e havia percorrido uma distância significativa. Como não sabia o que havia acontecido, não usou sua velocidade máxima para perseguir o veículo. Em vez disso, apenas observou enquanto mantinha alguma distância.

Felizmente, o reino não era tão grande e eles chegaram ao palácio em menos de 20 minutos. Afinal de contas, essas mesmas pessoas fizeram com que todas as mulheres do reino experimentassem o sapatinho de cristal. Como o palácio era bem pequeno, foi muito fácil para Sanji vasculhar o lugar todo, e era como se não houvesse segurança alguma. Levou apenas 15 minutos para encontrar Cinderela em um quarto elegantemente decorado. O rosto da menina estava pálido e coberto de lágrimas. No entanto, a mesma não parecia espantada ao ver Sanji.

— O príncipe que dançou comigo não é esse homem. — Ela soluçou.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

2 Comentários

  1. “Felizmente, todos estavam focados no mordomo e no scarpin então ninguém mais percebeu” Tem um errinho aí.
    Obrigado pelo capítulo

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