PA – Capítulo 139

Intenção Assassina

 

 

Quando Sanji pisou no primeiro degrau, sentiu como se estivesse prestes a entrar em outra história. Sua visão ficou turva por um segundo, mas quando se recompôs e olhou para baixo, ainda estava de pé na escada coberta com um tapete grosso. — Paranóica? — Um pingo de dúvida passou por sua mente. Segurou o pulso de Lila e puxou-a para cima sem dar tempo para a outra mulher falar qualquer coisa.

Ela passou apressada pelos retratos e correu na frente do espelho. Sanji parou de repente e Lila quase bateu em suas costas.

— Ei, — Sanji limpou a garganta seca e gesticulou para o espelho com o queixo, — De onde é esse espelho? — Ela falou extremamente rápido, com medo de ser enviada para outra história antes de receber a resposta.

Lila olhou para o espelho indicado por Sanji e a expressão dela se iluminou. Seu medo e sua confusão visivelmente diminuíram quando respondeu:

— Ele é meu!

— Hã? — Sanji se virou para a outra mulher.

— Mesmo que meu marido seja muito rico, ele ficou impressionado com este item do meu dote. É raro. — Quando disse isso, pareceu se lembrar de algo quando encostou na moldura: — Ele mencionou algumas vezes que queria dar ele ao rei, mas eu não aceitei…

Quando ouviu isso, o coração de Sanji disparou enquanto se lembrava vagamente de algo. Porém, não podia parar para refletir sobre isso, pois temia que não tivesse muito tempo nessa história. Então, interrompeu Lila rapidamente.

— Ok, venha comigo…

Ambas as mulheres se dirigiram rapidamente para o quarto no final do corredor. Sanji pegou a chave de Lila. A mesma estava seca em sua mão, como se tivesse absorvido o sangue, mas ainda estava vermelha com manchas de sangue nas fendas. As manchas não saíam, por mais que Lila tivesse tentado limpá-la. Sanji ignorou esse detalhe e abriu a porta violentamente. Então, olhou fixamente para Lila.

— Olhe!

Lila provavelmente tinha se lembrado do que seu marido havia falado, então parecia desconfortável, mas também um pouco animada. Ela esticou o pescoço branco para frente. Isso evocou a imagem que Sanji tinha visto momentos antes, a imagem do pescoço coberto de veias. Lila deu uma olhada e recuou a cabeça.

— Tem uma mulher lá dentro…

O que?

Sanji congelou por um segundo e olhou para o quarto.

Ao olhar para dentro novamente, não soube o que falar. Os cadáveres pendurados no teto haviam desaparecido. A luz fraca segregou a sala em algumas áreas iluminadas. A pessoa que Lila viu parecia estar sentada no outro extremo da sala. Lila empalideceu e olhou para Sanji, dizendo baixinho:

— Ela… ela se parece com você…

Sanji não fez um único som. Seus olhos estavam colados na mulher no quarto, quando sentiu arrepios. A mulher, à primeira vista,  parecia desconhecida, mas depois de alguns segundos, viu as calças de exército e botas, confirmando que era de fato “Sanji”.

Sangue escorria das pontas dos dedos da outra “Sanji”, já que seu braço estava machucado. Embora as duas mulheres na entrada tivessem feito muito barulho, a outra “Sanji” parecia não ouvir ambas. Estava olhando na direção oposta, e Sanji tinha certeza de que a outra estava muito tensa e desconfiada de outra pessoa na mesma direção que estava olhando.

No entanto, o lugar para onde ela olhava estava vazio.

— É muito estranho… quem são vocês… — Lila murmurou. Sanji a ignorou enquanto caminhava para a frente em transe.

— Isso não está certo. — Sanji moveu os lábios.

Era muito suspeito que a pessoa na sala nem sequer tivesse virado para olhar para a porta, ou perceber que as outras duas mulheres estavam aqui.

Será que… — Sanji pensou consigo mesma.

Quando deu um passo à frente, a sala imediatamente ficou mais escura. De repente, vários cadáveres apareceram, pendurados no teto, enchendo toda a sala. Isso aconteceu como se provasse que Sanji estava certa. Os cadáveres balançavam lentamente de suas cordas. Lila ficou chocada e soltou um grito agudo quando viu a cena e desmoronou na entrada. Sanji examinou a sala e, como esperado, a outra “ela” havia desaparecido.

O que vemos nesta sala não pode ser real…

O cadáver de Lila que tinha visto antes estava agora escondido atrás de outras mulheres desconhecidas. Embora Sanji tivesse algumas ideias sobre o que estava acontecendo, sua garganta ficou seca. Estava prestes a chamar Lila quando a outra mulher de repente gaguejou enquanto olhava em frente.

— Não é a Rosa, da província vizinha? Por que ela está morta?

Sanji franziu a testa. Tinha a sensação de que algo estava errado, mas não conseguia identificar o que. Seguiu o exemplo de Lila e perguntou.

— Você a conhece?

— Eu conheço ela! No passado, toda vez que nos encontrávamos no baile, ela mostrava os itens mais recentes que seus pais compravam para… — A voz de Lila tremia terrivelmente. — Depois que me casei com o Barba Azul, ela nunca, ela nunca…

— Espere. Ela não é ex-mulher do seu marido? — Sanji finalmente percebeu o que estava errado. Na história de Barba Azul, a principal personagem só percebeu que sua vida estava em perigo quando viu as sete ex-mulheres de Barba Azul. Depois disso, procurou seus dois irmãos por ajuda.

— Claro que não, — Lila enxugou as lágrimas. — Meu marido não era casado antes. Eu sou sua única esposa. Qual é o problema? Você poderia assustar alguém com esse rosto… — Lila ficou chocada quando viu a expressão de Sanji.

O rosto de Sanji estava branco como um papel. Ela não conseguia dizer uma palavra enquanto olhava para Lila. Havia exatamente sete cadáveres pendurados no teto. Na história de Barba Azul, o nome de sua esposa nunca foi mencionado. Quando Lila revelou sua identidade, Sanji naturalmente assumiu que ela era a mulher da história que escapou — a oitava esposa.

De tudo o que aconteceu, se a história se desenvolvesse normalmente, Lila morreria. O pensamento penetrou na mente de Sanji. Se Lila se recusasse a oferecer o espelho ao rei, como poderia o rei dar o espelho para a avó de Chapeuzinho Vermelho?

Até agora, ela pensava que entendia tudo mais ou menos. Sanji mordeu os lábios e arrastou Lila para fora do quarto.

— Nós precisamos ir. Esta sala mostra o futuro… — sua voz estava rouca quando disse isso.

Ela não queria que a pobre mulher visse seu próprio cadáver, então empurrou Lila para fora da porta. Havia uma poça de sangue no chão entre ela e Lila. Mais uma vez, a chave estava no meio daquela poça de sangue. Fora isso, tudo o mais na sala era uma ilusão do futuro.

Se sua conjectura estivesse correta, Sanji machucaria seu braço direito em um futuro próximo… Aquela ferida não incomodava Sanji, que se encontrara nessa espiral de confusão. Ela suspirou suavemente. Pensando nessa história, pegou a chave que estava perto de Lila e tentou trancar a porta.

Os lábios de Lila estavam brancos e ela estava torcendo as mãos nervosamente. A outra mulher não sabia o que dizer e, pelo jeito, parecia meio maluca. Ela observou Sanji, que não tinha familiaridade com como fechaduras medievais funcionavam. Sanji tentou algumas vezes, mas não conseguiu trancar a porta. Queria dizer alguma coisa, quando ouviu um som alto. Em seguida, a voz de um homem rugiu, ecoando pelo corredor.

— Lila! Onde você está? Lila!

Ninguém esperava que o Barba Azul retornasse neste momento crítico. Sua voz quase assustou fez a alma de Lila sair do corpo. Ela rapidamente murmurou:

— Eu voltarei. — Então, se virou e correu escada abaixo enquanto gritava:  — Oi.

Seu vestido azul estava sujo com uma mancha feia de sangue vermelho escuro, ela tinha sujado-o quando caiu na porta, mas não tinha percebido nada.

Quando Sanji viu isso, ficou muito ansiosa.

— Espere um momen…

Nesse mesmo instante, a porta se abriu sozinha com um rangido, pois não estava trancada corretamente. Sanji amaldiçoou silenciosamente e virou a cabeça involuntariamente. De repente, viu alguém na escuridão. Naquele momento, sentiu como se seu coração tivesse parado. Só reagiu depois de uma fração de segundo. A pessoa que estava ali não era real.

— Por que você apareceria aqui? — Sanji sorriu amargamente e murmurou para si mesma quando viu um rosto muito familiar. Sua mente estava uma bagunça. — Você vai se machucar também?

Rapidamente examinou a amiga e viu que estava bem. A pessoa não estava ferida, por isso Sanji ficou ligeiramente aliviada. Só então, ouviu um grito agudo de Lila. Ele causou um calafrio em Sanji, que no mesmo instante correu pelo corredor.

Eu deveria matar o Barba Azul…

Sanji franziu os lábios com força quando este pensamento surgiu em sua mente. Sua visão ficou turva e ela estava de volta à porta da Cinderela.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

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