PA – Capítulo 64

Mini Explosões e uma História Comovente

 

 

— Que sorte.

As mesmas palavras foram ditas ao mesmo tempo por duas pessoas diferentes em dois locais diferentes. Um deles era Changzai, que estava enfrentando Hai, a outra era Dani, que estava de frente para o yuppie.

03:02 da manhã, canto nordeste do Oásis.

— Retardado, você acha que deu sorte? —  Uma veia roxa na testa de Hai começou a latejar, enquanto ele segurava um machado. Os vasos sanguíneos no dorso das mãos dele também começaram a aparecer. Ele cuspiu com tanta força que seu cuspe atingiu o chão como uma bala, levantando uma pequena nuvem de poeira. — Vamos ver se você ainda pensa assim depois de cinco minutos, — ele ameaçou, olhando para Changzai com desprezo.

Changzai ergueu os óculos, fingindo que estava calmo, mas deu dois passos para trás. Seu pescoço incomodava um pouco porque ele teve que olhar para cima para ver o rosto de Hai — esta era a primeira vez que ele estava tão perto de alguém daquele tamanho.

Alguém tão alto assim ainda pode ser considerado humano?

Changzai não era alguém que podia ser considerado alto, mas tinha pelo menos 1,78m. Mesmo assim, quando ele estava na frente de Hai, o alto de sua cabeça mal chegava à cintura do oponente. Os ombros daquele homem eram tão largos que eram três vezes o comprimento dos de Changzai, e os músculos saltados do pescoço e das costas pareciam uma pequena montanha. À primeira vista, era óbvio que o homem possuía uma quantidade incrível de força física.

Mesmo aquele machado na mão do gigante era algo estonteante, já que tinha a mesma altura de Changzai. Ajustando o óculos novamente, ele se perguntou como Hai tinha conseguido encontrar aquela arma.

— Bem… Executivo Hai, — Changzai chamou o outro pelo seu título, incapaz de mudar imediatamente seu hábito. — Para ser honesto, ainda não desenvolvi nenhum aprimoramento físico, — confessou.

O homem à sua frente, que se parecia com uma pequena montanha, ficou em silêncio por um segundo.

— O que? Você está me dizendo que seu físico ainda é o de uma pessoa normal?  — O executivo disse espantado enquanto plantava seu rosto grande ao lado de Changzai.

Changzai assentiu com relutância.

— Então, você está planejando se render? — Hai pensou nessa possibilidade.

— Eu não posso. Se eu for capturado, seria problemático para os outros .

Hai endireitou as costas.

— Tudo bem. Não me culpe por ser impiedoso já que você escolheu ficar do lado daquelas traidoras da humanidade. — Ele levantou o machado e perguntou: — Quais são suas últimas palavras?

Changzai balançou a cabeça, sentindo suas panturrilhas tremerem. Enquanto observava o machado sendo levantado cada vez mais alto, cerrou os dentes e correu de cabeça na direção da cintura de Hai. O gigante nem sequer levantou uma sobrancelha. Com a mão esquerda, ele agarrou o pescoço de Changzai e o levantou do chão.

Changzai chutou desesperadamente, suspenso no ar. Ele podia literalmente sentir o oxigênio sendo espremido para fora de seu corpo. Seu rosto ficou roxo em menos de dois segundos. Ele continuou lutando, sentindo sua consciência lentamente desaparecer. Tentou se afastar, agarrando o pulso musculoso de Hai. No entanto, aquele pouco de resistência parecia apenas uma gota indo contra uma onda, incomparável à força do executivo.

Um olhar intrigado apareceu no rosto de Hai, provavelmente porque ele não conseguia entender por que Changzai se dava ao trabalho de resistir. Só então ele ouviu o jovem, que parecia um pequeno pardal preso em sua mão, murmurando alguma coisa. Ele não conseguiu ouvi-lo claramente.

— O quê?

— Você mentiu ontem, — disse Changzai fracamente entre os dentes cerrados.

Antes que Hai pudesse reagir, ele sentiu como se houvesse algo dentro de seu pulso esquerdo. Um caroço visível apareceu sob a pele de seu braço e se moveu em direção ao ombro, seguindo o fluxo do sangue.

Hai rapidamente soltou seu machado e tentou parar o caroço usando a mão direita.

“BAAAMM!”

O caroço se moveu mais rápido do que o executivo conseguia reagir, e, quando ele tentou pressioná-lo, a área perto de seu ombro esquerdo foi destroçada por uma pequena explosão. Sangue, carne, pele e pedaços de tendões voaram para fora com um estrondo, criando uma chuva de sangue. Sangue respingou sobre Changzai.

Todo o braço esquerdo de Hai ficou deformado. Ele se sentou no chão e, não se preocupando com sua ferida nem com o estranho caroço, conseguiu perguntar em meio a dor:

— Como você sabia sobre aquela mentira?

Changzai caiu no chão. Tossiu algumas vezes debilmente, ainda sentindo seus pulmões ardendo de dor.

— Eu não sei sobre o que você mentiu. Mas pela aparência de suas feridas, deve ser algo grande.

Habilidade de Changzai: Bomba da Verdade

Introdução: Depois que a habilidade Detectar Mentiras de Changzai subiu de nível, ele agora pode detectar se alguém mentiu nas últimas 24 horas. Uma vez confirmado que o alvo mentiu, Changzai pode plantar uma Bomba da Verdade através do contato com a pele. Quanto maior a gravidade da mentira e quanto menor o tempo passado, mais poderosa será a explosão. A Bomba da Verdade viajará até o coração do alvo, mas explodirá no local se algo interferir.

A ferida de Hai estava relativamente perto de seu coração. Ele respirou pesadamente e sorriu ironicamente para si mesmo.

— Quem teria imaginado? Eu achava que era muito bom em combate, mas fui derrotado tão rapidamente por uma pessoa como você. Eu subestimei você. Eu vou… morrer?

Changzai não sabia dizer. Mesmo que ele tenha sobrevivido sozinho por algum tempo antes de chegar ao Oásis, ele nunca tinha matado ninguém. Se Hai realmente morresse, esse homem seria a primeira pessoa que ele havia assassinado… Quando pensou nisso, a expressão de Changzai piorou. Ele prendeu a respiração e conseguiu ficar de pé, planejando apenas ir embora.

— Ha! — Hai exclamou abruptamente quando viu Changzai virar as costas para ele. Ele cobriu seus próprios olhos com o braço ileso.

— Eu não posso acreditar… eu vou morrer assim sem chance de me vingar… — ele murmurou baixinho para si mesmo, — e pelas mãos desse traidor da humanidade…

Changzai parou e virou a cabeça. Seu rosto ainda estava levemente arroxeado pela falta de oxigênio.

— Por curiosidade. Sobre o que você mentiu ontem?

03:02 da manhã, Oásis (oeste).

Dani não disse uma única palavra enquanto olhava para o homem à sua frente. Não era pelo fato dela não ter nada a dizer, mas ela não podia falar e não podia se mover porque o yuppie estava muito perto dela.

Ela podia sentir o hálito quente do homem ao lado de sua orelha. O yuppie segurava uma mecha de longos cabelos negros entre os dedos.

— Você é a Dani, certo? — Ele soou indiferente enquanto falava. — Pelas informações que temos de você, você chegou muito cedo no Oásis. Mesmo sendo uma pós-humana natural, não tem nenhuma habilidade notável. Você também não tem nenhum aprimoramento físico.

Dani mordeu os lábios enquanto dava tudo de si para evitar que suas pernas ficassem bambas. Afinal de contas, o yuppie era um dos cinco executivos. Ele parecia ser narcisista e inescrupuloso. Ela podia sentir seu sangue correndo quando sentiu a aura ameaçadora que o outro exalava.

O yuppie se aproximou dela novamente. No momento que Dani reagiu, recebeu um golpe violento no estômago. Parecia que ela estava sendo atropelada por um carro. O impacto a jogou para trás quatro ou cinco metros, e ela caiu pesadamente no chão.

O homem não continuou atacando mesmo depois de alguns segundos terem se passado. Dani também não conseguiu se sentar. Sentiu-se como se tivesse hérnia. Tentou abrir a boca, mas era como se algo em sua cavidade abdominal tivesse sido danificado, e dessa forma ela não conseguia fazer qualquer barulho.

— Hã? Eu realmente não acreditava que você não tivesse desenvolvido nenhum aprimoramento físico. — O yuppie pareceu genuinamente um pouco surpreso. Depois disso, ele deu de ombros, entediado. — Isso é muito fácil. Que chato. Humm, será que eu te deixo viva? — Ele circulou Dani duas vezes enquanto continuava deitada como um peixe morto. — Nah. Você está muito suja. Eu vou me sujar se eu te carregar de volta…

Ele mataria alguém por esse motivo? — Dani estremeceu com uma expressão contorcida. Ela queria muito se mover. Ela queria fugir, mas seu corpo parecia um trapo velho. Não conseguia nem juntar um pouco de energia.

O yuppie cantarolou uma melodia desconhecida e chutou violentamente o estômago de Dani sem aviso prévio. A mulher, que inicialmente pensou que não poderia fazer qualquer barulho, gemeu suavemente.

— Já que você vai morrer, eu vou te usar como cobaia para experimentar minha habilidade!

O rosto do yuppie de repente se iluminou com excitação e antecipação em meio à escuridão. Ele cutucou a cabeça de Dani com a ponta do pé e viu que os olhos dela estavam abertos e que ainda estavam se movendo. Com isso, ele riu:

— Ótimo. Contanto que você possa me ouvir. Deus é realmente injusto. Existem pessoas como você que nem sequer possuem os aprimoramentos físicos básicos. Por outro lado, tem pessoas como eu. Ontem mesmo ganhei uma nova habilidade… — O yuppie endireitou o blazer e enfiou as mãos nos bolsos. — Ativar Autor de Terceira Categoria, — ele disse baixinho.

A nova habilidade do yuppie: Autor de Terceira Categoria

Introdução: Para ganhar leitores, a história deve ter pelo menos uma lógica consistente. Este é o padrão fundamental que todo autor de terceira categoria deve conhecer, ao contrário de N.Heller[1], que não tem um pingo de moral. Usando o alvo como seu protagonista, invente uma história sobre ele ou ela. Se a história seguir uma lógica apropriada e for aceitável pelas pessoas envolvidas, o alvo terá o mesmo fim que o protagonista no final da história.

— Deixe-me tentar. — O homem estreitou os olhos enquanto olhava para a mulher a seus pés, dobrada no chão. — Depois que você se formou na faculdade, conheceu um jovem e bonito gerente no seu local de trabalho. Este sou eu. Depois que vocês dois namoraram por algum tempo, descobriram que ele tinha outra namorada no exterior. Você se sentiu traída, então furiosa, pediu conta do trabalho e se escondeu. No entanto, você não esperava que a namorada fosse apenas uma mulher que sua família escolheu, e ele ainda ama você profundamente… Ele te encontrou e esclareceu o mal-entendido. Assim, vocês dois se apaixonaram novamente.

Mesmo que fosse quase impossível que uma história tão ridícula e clichê como essa fosse acontecer na vida real, lágrimas de repente surgiram nos olhos de Dani. Ela abriu a boca e murmurou em uma espécie de felicidade miserável:

— Eu sei, eu sei… Nosso relacionamento tem que ser verdadeiro…

O yuppie ficou atordoado por um momento e olhou para Dani. Pouco depois, riu alto:

— Haha! Isto é divertido! Muito divertido!

Ele acenou com a mão e decidiu mudar a direção da história. A expressão de Dani voltou ao normal. Ela sentiu as orelhas ficando vermelhas, e depois todo o seu rosto. Não estava envergonhada, mas sim estava extremamente zangada.

— Apenas me mate… não brinque com minhas emoções! — Dani disse em uma voz rouca.

O yuppie a ignorou e continuou:

— Você estava finalmente dando o último passo em direção ao casamento com o namorado que você ama há sete anos. Sua nova casa estava pronta e você estava se arrumando para o casamento. Você se sentia muito abençoada. Afinal de contas, você passou por muitas coisas com ele e agora, o que você desejava estava ao seu alcance…

A raiva de Dani dissipou. Ela olhou para o yuppie com uma expressão indescritível. Este último estava se divertindo completamente, entretido por sua nova habilidade. Ele apenas olhou uma vez para ela e não parou.

— Mas naquele momento, seu namorado lhe disse que se apaixonou por outra mulher. Ele implorou para você deixá-lo ir. Por um longo tempo, você tentou fazê-lo ficar. Você o importunou, implorou e até ameaçou se matar. Apesar de todos os métodos que você usou, ele ainda te deixou por outra mulher. Mas então, você percebeu que estava grávida. Você hesitou por um longo tempo, mas decidiu ficar com a criança… a criança era inocente, afinal de contas. E se você pensasse sobre isso com cuidado, o pai da criança não era exatamente culpado. Não foi culpa dele se apaixonar por outra mulher. Quem pode controlar o amor? Você manteve a criança por nove meses e até contratou um famoso ginecologista. Mas no final…

O yuppie se aproximou da Dani, e sua voz ficou fria.

— Seu filho nasceu morto. Você segurou seu filho e cometeu suicídio pulando de um prédio.

Tudo ficou em silêncio. O homem e a mulher olhando um para o outro não falaram uma palavra. Eles só podiam ouvir o vento noturno uivando e carregando as nuvens de areia amarelada.

Quanto mais detalhada a história era, mais poderoso seu efeito. O yuppie observou o rosto inexpressivo da mulher na frente dele, e seu sorriso ficou cada vez mais largo…

De repente, assim como um truque de mágica, o corpo do yuppie foi arremessado no ar.

“Pá!”

Ele caiu no chão esparramado em uma posição estranha, como uma melancia que caiu no chão. Seus braços e pernas estavam contorcidos e o sangue lentamente escorria do lado de sua boca.

Dani se esforçou por algum tempo e conseguiu se levantar. Os papéis tinham sido invertidos. Ela estreitou os olhos e olhou para o yuppie. O homem estava em uma condição terrível, como se tivesse caído de um prédio.

— Você realmente não entende as mulheres, — ela sussurrou.

— Por que… Por que… Isso não deveria acontecer… — O yuppie tossiu e cuspiu um bocado de sangue. Esse tipo de mulher deveria existir na realidade, certo?

Dani sorriu friamente, parecendo ter lido os pensamentos dele.  

— Idiota. —  A testa dela franziu e ela parecia enojada. — A primeira parte da história realmente aconteceu comigo.

Os olhos do yuppie se arregalaram.

— Depois que meu namorado me traiu, descobri que estava grávida. Você sabe o que eu fiz? Quando eu estava grávida de três meses, escolhi uma clínica de aborto ilegal. Fiz um aborto e coloquei o feto morto em uma caixa. Então, enviei a caixa para eles como presente de casamento. Claro, eu estava mentalmente instável. Depois disso, fui procurar um psiquiatra.

Os braços do yuppie tremeram, ele não conseguia falar.

— Eu realmente odeio homens vaidosos. — Dani seguiu o que o yuppie fez e cutucou a cabeça dele com a ponta do pé. — Da sua condição atual, sua habilidade pode sair pela culatra, certo? Quando o enredo não é lógico e não se encaixa no alvo, você acabará como o protagonista. Esta é realmente uma habilidade de terceira categoria.

O homem no chão não podia mais ouvi-la. Uma poça de sangue lentamente se formava ao redor de seu corpo imóvel.


NT: [1] O autor desta webnovel, a propósito!

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

5 Comentários

  1. Obrigado pelo capítulo. Tava pensando em dizer que a Dani é sortuda, mas considerando o passado dela…

  2. “Changzai não era alguém que podia ser considerado alto, mas tinha pelo menos 1,78m.”
    Pra mim 1,78 é alto sim.

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