PA – Capítulo 93

A Terra Onde a Natureza Morreu e Frozen

 

 

Que vista de tirar o fôlego…

Sanji inconscientemente diminuiu a velocidade de seus passos ao observar o panorama da devastação que pairava à distância.

Não, isso não está certo. A expressão “de tirar o fôlego” não é apropriada para descrever essa cena. Como devo dizer? Observar isso nos faz sentir tão insignificante…

Se alguém observasse do céu, veriam que todo o porto de Xangai e seus arredores estavam em um estado semi-derretido. Os postes elétricos estavam caídos em todas as direções e sobre vários telhados. Edifícios tinham desmoronado ou estavam pendendo perigosamente… No entanto, essas coisas eram meramente a imagem de fundo da paisagem. A coisa que mais chamava a atenção deles eram as ruas, que estavam cheias de destroços de vários barcos, e aquele fedor pungente de peixe que se lançava sobre eles. Esta obra-prima deturpada, criada pelo apocalipse, sobrecarregava todos os seus cinco sentidos.

Um barco de pesca, consideravelmente intacto, havia colidido em uma propriedade residencial e destruído uma fileira de lojas. O casco de um iate se projetava de um carro danificado enquanto a outra metade estava ao chão, derrubada. Sanji não pôde deixar de se sentir desconcertada enquanto caminhava sob o casco de um grande transatlântico de aço com seus companheiros ao seu lado.

— O que… você acha que aconteceu? — Sanji perguntou. Era quase impossível para eles distinguirem a forma original das ruas.

Sentindo-se emotivo, Changzai levantou a mão para ajustar o óculos por reflexo, mas não achou nada. Ele havia se esquecido que depois de ter desenvolvido o aprimoramento físico, ele já havia jogado fora seus óculos.

— A temperatura crescente deve ter derretido todas as geleiras, fazendo com que o nível do mar subisse rapidamente, e o oceano passasse por essa área. Olhe para esse transatlântico, deve ter pelo menos alguns milhares de toneladas. As ondas devem tê-lo trazido do mar aberto…

— Quão fortes devem ter sido as ondas para que esse enorme transatlântico fosse carregado para fora do mar? — Hai perguntou, incrédulo. — Como é possível que uma onda tão grande não tenha chegado à cidade?

— Olhando para a destruição, você não deveria chamar isso de onda, deve ter sido um tsunami… — Changzai parecia ter esquecido os boinas com armas atrás deles enquanto diminuía os passos e observava cuidadosamente os arredores. Ele respirou fundo antes de continuar. — Apesar da magnitude, eventualmente o tsunami perderia a força. Além disso, a alta temperatura deve ter evaporado rapidamente a maior parte da água.

Essa era uma especulação lógica, e também explicava a ausência de sobreviventes por perto. Quando Sanji passou por um peixe morto de espécie desconhecida do tamanho de um humano, suas narinas foram assaltadas pelo cheiro nauseante e único de carne seca e podre.

— Eu espero que o armazém da alfândega não esteja totalmente destruído, — ela comentou desanimada enquanto se afastava da carcaça.

Todos respiraram fundo enquanto franziam a testa e continuavam quietos.

Durante todo o percurso, os homens de boina não mostraram nenhuma reação à devastação provocada pelo apocalipse. No entanto, quando ouviram sobre a possibilidade de o armazém aduaneiro ter sido destruído, um deles falou de repente. Pela sua voz, era o homem que matou Mei.

— Seria terrível se tivesse sido destruído. Comida é importante. Movam-se rapidamente. Todos vocês.

Apesar de suas palavras, ele não parecia preocupado. Seus lábios vermelhos ainda estavam curvados, e ele estava exibindo um sorriso feliz e educado. Seus olhos ainda estavam sem vida, mas estavam curvados de maneira amigável.

Eles precisam comer?

Quando tal pensamento surgiu de repente na mente de Sanji, ela ficou surpresa por si mesma.

Claro, humanos precisam comer.

— Olhe para eles, você acha que eles estão vivos? Você acha que eles são humanos? —  ela se virou e sussurrou para Changzai, sem saber exatamente porque se sentia assim.

— O que você quer dizer? — Changzai hesitou por um momento e desviou o olhar dos destroços do transatlântico. — Os movimentos deles são muito estranhos, mas como eles poderiam não ser humanos?

— Uma pessoa normal não precisa comer, beber e descansar? Eles não deveriam estar cansados ​​depois de caminhar por tanto tempo? —  Sanji refutou. — Uma pessoa viva deveria conseguir mexer as juntas…

Ela não conseguiu terminar a frase por causa do homem de boina que estava diretamente na frente. Ele virou violentamente a cabeça em 180° e olhou para ela.

Enquanto isso, ele continuou caminhando na mesma direção, enquanto olhava para trás.

— Você estava falando de mim?

Os rostos dos três humanos e um coelho instantaneamente ficaram pálidos.

— Não, não… não é nada. Estávamos discutindo o depósito da alfândega, — Sanji gaguejou, demorou um tempo até conseguir controlar seu medo.

— Oh. — O boina respondeu antes de virar a cabeça para a posição normal. Seu pescoço não mostrava nenhuma evidência de que ele havia acabado de girar a cabeça em 180°, e ele não quebrou o pescoço com aquela manobra bizarra. — Isso mesmo. Movam-se rapidamente.

— A audição dele não é muito boa, — a voz de Coelho soou no ouvido de Sanji, que julgou em comparação com os outros pós-humanos.

Mesmo assim, eles não se atreveram a falar nada descuidadamente. Sanji acalmou seus nervos enquanto caminhava rapidamente com o resto em silêncio com os boinas os cercando. Sem quaisquer sinais de trânsito à frente, eles continuaram avançando apenas com seu senso instintivo de direção, e depois de tomar o caminho errado várias vezes, eles finalmente alcançaram o porto quando o sol estava brilhando sobre eles. Ou talvez, o termo mais preciso para usar era “o que restou do porto”.

O escritório da alfândega havia desaparecido totalmente, pois ficava bem perto do cais. Devido ao tsunami, os telhados das várias fileiras de armazéns também foram destruídos. De longe, era apenas uma bagunça gigante. Os contêineres normalmente empilhados estavam espalhados por toda parte, aumentando a desordem. Alguns deles foram danificados, mas a maioria ainda estava intacta. Isso deu a Sanji e seus companheiros um vislumbre de esperança.

Enquanto eles continuavam andando, ninguém conseguia dizer uma palavra. Havia pouco vestígio daquele porto outrora movimentado.

Até o oceano havia desaparecido.

Talvez ainda restasse algo do oceano além do campo de visão deles, no entanto, agora, quando olhavam para além do cais, só podiam ver uma camada superficial de água lamacenta do mar sobre uma vasta terra de areia exposta, brilhando sob o sol. O fundo do mar, que permanecera oculto debaixo d’água por milhões de anos, agora se revelava descaradamente, assim como um homem no leito de morte, aceitando seu destino inevitável, enquanto o sol lentamente sugava sua umidade. Não havia mais o cheiro da brisa fresca do oceano. Em vez disso, o ar estava cheio do fedor nauseante vindo das incontáveis carcaças apodrecidas de criaturas do mar mortas, que cobriam a plataforma continental enquanto se submergiam em uma salmoura de peixe.

Sanji ficou parada por um bom tempo enquanto olhava para o “mar”.

Depois, ela encostou em seu rosto e percebeu que suas lágrimas caíam. Apesar de viver em uma metrópole pós-apocalíptica, Sanji lutou, tentando o seu melhor para sobreviver. No entanto, quando ela olhou para este lugar que uma vez havia sido o oceano, uma onda de tristeza tomou conta dela. Simplesmente não conseguia controlar o desejo de chorar.

Até a natureza foi derrotada. Talvez não haja mesmo uma segunda chance para os humanos.

— Acho que devemos procurar suprimentos. — A voz de barítono de Hai quebrou o silêncio.

Suas palavras lembraram a todos sobre seu principal objetivo de vir aqui. Todos eles olharam para os boinas que os lideravam. Ainda na ponta dos pés, seus olhos estavam voltados para o grande oceano seco.

— Vocês quatro devem se espalhar e procurar por comida e água e depois juntar o que encontrar aqui. Não tentem escapar. Vocês todos serão escoltados. — O boina chefe sorriu depois de ter falado.

— É tão sufocante ouvi-lo falar,  — resmungou o coelho quando o boina deu suas instruções. Logo depois disso, passos cambaleantes soaram atrás do coelho quando dois boinas o seguiram de perto como uma sombra.

Os companheiros se entreolharam antes de se separarem para conferir os depósitos e os contêineres, sem se esquecer de carregar juntos o indesejados lacaios. Sanji caminhou em direção ao contêiner vermelho que estava mais próximo dela. Ouvindo os passos do boina a seguindo, ela se virou e perguntou.

— Qual é o seu nome?

Com um sorriso ainda estampado no rosto, ele apontou o cano da arma para ela sem responder.

— Por que vocês todos estão vestindo as mesmas roupas? Vocês são todos da mesma organização? — Sanji disse tentando soar casual.

O homem-boina não respondeu. Continuou seguindo-a, na ponta dos pés.

Não importa o quão inútil parecesse, Sanji continuou fazendo muitas perguntas não invasivas, como se estivesse tentando manter uma conversa normal. No entanto, ele não disse uma única palavra, deixando-a sem saber o que fazer. Enquanto continuava seu monólogo, eles chegaram ao contêiner. De seu tamanho, tinha cerca de 20 a 30 toneladas e estava completamente tombado. Estava torto e em cima de algum entulho. Os restos não agradáveis de um braço humano se projetavam dos escombros, decomposto a um ponto em que era preciso usar a imaginação para reconhecer o que era.

Felizmente, o contêiner não estava enterrado nos escombros, então tudo o que tinham que fazer era abrir suas portas para descobrir seu conteúdo. Sanji não queria pegar a boca do degenerado que ela usava como arma na frente do boina, então ela se virou para ele e disse.

— A fechadura é muito pesada, eu não consigo abrir isso. Você pode abrir a porta com sua arma?

O boina lhe deu um murmúrio concordando e levantou o braço. Ele apontou a  arma para o contêiner. Então, sem um som ou qualquer bala, uma rajada de ar atingiu a porta e criou um buraco oval. A terrível explosão de ar deveria ter sido invisível, mas a magnitude de seu poder deu a Sanji a ilusão de que ela podia vê-lo com seus olhos nus.

As portas do contêiner tremeram quando foram abertas. Sanji se sentiu um pouco animada quando viu a pilha de caixas de madeira dentro, enquanto silenciosamente rezava para que as caixas estivessem cheias de porcarias inúteis como componentes de computador. Ela quebrou as amarras que prendiam as caixas. As caixas grandes no topo deslizaram e caíram no chão, nas proximidades, acertando o boina abaixo.

— Desculpa. Eu não achei que isso ia acontecer. — Sanji sorriu para ele sem parecer arrependida.

O homem-boina não respondeu. O sorriso dele parecia estar pintado em seu rosto. Seus lábios não se moveram nem um pouco, apesar de mal ter escapado do esmagamento por caixas. Sanji escolheu uma das caixas e juntou sua força. Ela socou um lado da caixa e a superfície de madeira se quebrou em pedaços. Ela afastou os pedaços de madeira e enfiou a mão dentro da caixa, sentindo-se esperançosa. Então, tirou algumas caixas menores.

— Isso são … brinquedos? — Sanji rasgou mais algumas camadas de embalagem antes de encostar em algo. — Essas são bonecas do filme Frozen?

Os brinquedos importados em suas embalagens genuínas eram claramente muito bem feitos. Os materiais usados ​​para a pele do brinquedo, suas roupas e seus cabelos foram todos meticulosamente escolhidos. A qualidade dos bonecos era comparável à das bonecas Barbie da Mattel. Infelizmente, por mais bonitos que fossem, eram inúteis. Sanji suspirou e sentiu que seu estômago estava tão desapontado quanto ela.

Inesperadamente, o boina de repente se moveu. Ele olhou para as bonecas na caixa e gritou para os outros à distância.

— Eu preciso de três pessoas aqui. Não deixe ninguém chegar perto dessas caixas.

Se sua voz pudesse expressar emoções, Sanji imaginou que seria um excitamento e urgência. Quando pensou nisso, secretamente passou a mão sobre as embalagens de brinquedo dentro da caixa quando o boina virou a cabeça. Algumas caixas de brinquedo desapareceram.

Ela armazenou três caixas contendo Elsas de 60cm em suas cartas e as guardou em seu corpo.

Por que eles atribuem tal importância a uma caixa de brinquedos?

Por enquanto, ela não sabia a resposta para essa pergunta, mas ser proativo nunca faria mal a ninguém.

Depois disso, os boinas expulsaram Sanji do contêiner, tratando-a como uma cabra. Como não havia completado sua tarefa, ela continuou abrindo outros contêineres, procurando suprimentos comestíveis.

Infelizmente, ela não teve muita sorte. Depois de abrir três contêineres, ainda não havia comida à vista e ela quase se machucou. O último que ela abriu estava na verdade cheio de carros importados. Devido ao ângulo do contêiner, ela quase foi esmagada pelos carros que rolaram para fora quando a porta foi aberta.

— Essa foi uma rápida retribuição cármica! — Sanji murmurou enquanto esticava suas costas doloridas. Assim que decidiu continuar andando, ouviu o coelho gritar entusiasmado: — Café! Eu encontrei café!

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

5 Comentários

  1. Se vez em quando tenho a impressão que estou perdendo algo muito bom por não gostar de café. Obrigado pelo capítulo

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