PA – Capítulo 94

Esse Corpo Não é Perfeito Demais?

 

 

Depois de vasculhar dúzias de contêineres, o grupo finalmente obteve alguns resultados. Eles encontraram um contêiner pequeno cheio de café em lata do Starbucks e outro cheio de chocolates suíços. Embora não fosse um alimento básico, ainda era uma agradável surpresa para Sanji e os outros, cuja exigência básica de comida era de apenas calorias.

Caixotes cheios de café e chocolate foram arrastados e empilhados adequadamente pelos boinas. Na verdade, os caixotes ocupavam bastante espaço. Sanji se apoiou em alguns e bebeu alguns bocados de café quente antes de soltar um suspiro ao sentir seu corpo desidratado sendo revitalizado.

— Isso é muito doce. — Coelho franziu o rosto peludo enquanto lambia um pedaço de chocolate, a contragosto. — Meu antigo dono disse uma vez que os coelhos não devem comer coisas doces.

O chocolate já tinha derretido há muito tempo sob o calor, mas pareciam que não tinham estragado e ainda eram comestíveis. O único problema era que todos tinham que ser cuidadosos quando os estavam comendo. Uma vez que removessem a embalagem de papel, tinham que colocar rapidamente a gosma de chocolate em suas bocas, para que ela não respingasse para todo lado.

Em contraste, Changzai estava radiante. Ele abriu seu quinto pacote de chocolate e derramou o chocolate derretido em sua boca, comentando:

— Uau! Eu já comi essa marca de chocolate uma vez, mas era muito caro, então eu não tinha coragem de comprar novamente… aiai… Ainda tem um gosto tão bom, mesmo estando derretido.

Hai deu a ele um olhar de soslaio antes de abrir uma lata de café.

Cerca de dez homens boina estavam cercando os quatro em um círculo. Cercado por um grupo de pessoas com sorrisos estáticos, Sanji se perguntou como Changzai e o coelho ainda tinham vontade de comer. Ela olhou para eles sem saber se ria ou chorava.

— Hã? — Sanji murmurou enquanto seus olhos pararam sobre o que ela havia visto.

— O que foi? — Hai era atencioso para esse tipo de coisa, apesar do seu tamanho.

— Olhe lá. — Todos se voltaram para onde ela apontava, em algum lugar ao longe. — Você vê as pessoas lá?

Em algum lugar distante, eles viram uma fileira de pequenos pontos negros se movendo. Se não fosse por suas visões aprimoradas, eles não teriam sido capazes de ver essas pessoas.

— Eu acho que sim… — o coelho cerrou os olhos enquanto limpava o chocolate em seu pelo. — Parece haver algumas pessoas, pelo menos dez, acho, — ele murmurou.

Eles são sobreviventes? Vieram para a alfândega também buscando comida? Se fosse assim, talvez pudéssemos procurar ajuda deles e fugir desses boinas…

Sua esperança foi rapidamente apagada pelo líder dos boinas.

— Alguns de vocês deveriam ir ver se estão vindo para cá.

Com isso, cinco outros homens-boina se viraram e saíram. Os três humanos e um coelho trocaram olhares com rostos sombrios.

É estressante o suficiente que esses dez estejam nos seguindo. Se mais de seus colegas se aproximassem, a possibilidade de escapar seria bem menor… — O coelho pensou, e seus olhos brilharam com determinação. Ele apertou os brincos e disse: — Com alguns deles guardando os caixotes, e alguns outros verificando essa comoção, há apenas quatro deles aqui agora. Se lutarmos contra eles um a um, poderemos ter uma chance de ganhar…

— Não. Aqueles que estão vigiando os caixotes estão por perto, e eles rapidamente perceberão que algo está errado, — Hai respondeu calmamente. — Se eles se virarem contra nós, eu não tenho confiança para me esquivar de um ataque daquela arma.

— E se aquelas pessoas realmente pertencerem ao mesmo grupo, a situação poderia ficar bem mais complicada para nós. — Acrescentou Sanji, sentindo que o plano era arriscado demais.

O coelho suspirou quando ouviu sua resposta, abaixou a cabeça e continuou lambendo seu chocolate miseravelmente.

O grupo de pessoas que eles viram à distância se moveu muito rapidamente. Só demorou um pouco para chegar ao lugar onde Sanji e seus companheiros estavam. Os quatro observaram ao mesmo tempo as pessoas que se aproximavam.

Sanji nunca tinha visto mulheres com corpos tão perfeitos. Ela concluiu que provavelmente era porque elas eram de ascendência mista, assim como os homens de boina. A mulher que conduzia a trupe tinha uma cabeça redonda e pequena e um rosto oval clássico. Seu pescoço comprido e seu corpão violão com membros delgados fazia com que ela parecesse graciosa e leve. Sanji tinha visto muitas modelos em sua vida, mas a proporção e a estrutura corporal da mulher davam a impressão que ela havia sido primorosamente trabalhada. Os contornos de seu corpo fluíam tão perfeitamente que Sanji não conseguia identificar um único defeito. Isso era o suficiente para fazer qualquer mulher se sentir inferior.

O incrível é que não era apenas uma mulher que tinha esse corpo perfeito. Assim como os homens-boina que os haviam capturado, a mulher principal e uma dúzia de mulheres com os mesmos corpos perfeitos cercavam cinco pós-humanos de aparência e estatura variadas.

Todas as mulheres usavam perucas azuis, carregavam a mesma arma que os boinas e apontavam suas armas para as cinco pessoas cercadas por elas.

Quando um adolescente de cerca de quinze ou dezesseis anos usando um uniforme escolar viu Sanji e seus companheiros, perguntou tristemente:

— O que você quer de nós? Por que você nos trouxe aqui?

Sanji ficou atordoada por um momento antes de perceber que o adolescente deve tê-los confundido com os vilões quando os viu sentados no chão, comendo e bebendo casualmente.

— Nós também somos prisioneiros… Huh? — Sanji ficou surpresa quando viu o pós-humano na parte de trás do grupo. — Dao Tie[1]? Você conseguiu escapar?

Quando Sanji disse isso, Hai, Changzai e o coelho se viraram para olhá-lo ao mesmo tempo. Dao lançou um olhar para Sanji e ficou pálido instantaneamente. Ele se virou assentindo em reconhecimento e forçou um sorriso.

— Oi… oi. Você está bem?

O coelho zombou, como se um pouco daquela arrogância que ele tinha como executivo no Oásis tivesse retornado.

— Eu não estou bem. Eu não gosto de ser vigiado por essas pessoas, e eu não sei o que elas querem!

As mulheres de cabelos azuis empurraram os cinco pós-humanos e os obrigaram a se sentar com o grupo de Sanji.

— Executivo… Coelho… Você também está aqui… — Dao acenou com a cabeça repetidamente para o coelho, embora estivessem sentados a uma certa distância.

Sanji olhou para ele, se sentindo um pouco confusa com o comportamento dele antes de se virar para o adolescente uniformizado e perguntar:

— Onde você encontrou aquelas mulheres? O que aconteceu?

O adolescente respondeu com um tom choroso:

— Eu encontrei essas pessoas na estrada. Antes de nos darmos conta, essas mulheres já apontaram armas para nós e nos fizeram segui-las. Meu acampamento não é longe, mas estou preocupado com a minha irmã, ela está sozinha…

O coração de Sanji pulou em seu peito, mas ela não conseguiu cobrir a boca dele rápido o suficiente. Uma das mulheres de cabelos azul imediatamente se abaixou e olhou para ele sem expressão. Ela colocou a arma na cabeça do adolescente e disse: 

— Onde está sua irmã? Me leve até ela. — A mulher falou no mesmo tom dos homens-boina, sem qualquer inflexão.

O rosto do adolescente ficou pálido, parecendo como se quisesse se bater por ter dito aquilo. Ele gesticulou sem sentido por um tempo antes de finalmente sucumbir ao medo da morte. Ele se obrigou a ficar de pé e a mulher com a arma o empurrou para um dos boinas. Pouco depois, o último escoltou o adolescente embora.

Sanji também notou que as mulheres caminhavam na ponta dos pés.

Por que eles estão andando assim? Isso é algum tipo de magia negra?

Nesse momento, o líder dos boinas tirou um pequeno cubo preto do ouvido. Apertou-o e um pequeno microfone saiu, depois disse baixinho:

— Sim. Já chegamos ao Porto de Xangai. Temos nove pessoas conosco.

As oito pessoas no chão olhavam para ele perplexas.

— Sim. Existem muitos contêineres aqui. — O boina sorriu e continuou: — Ok. Quando eles vão chegar? Ok.

Enquanto ele falava sem fazer nenhuma pausa, Sanji, que estivera prendendo a respiração enquanto escutava, só percebeu que o outro tinha terminado a conversa quando o viu guardando o cubo.

Há mais pessoas vindo? — Sanji olhou preocupada para seus companheiros, se sentindo muito insegura sobre a situação. — Quantos mais desses esquisitões estão vindo? Se isso continuar, ainda teremos chance de escapar?

— Eu quero que todos vocês esvaziem os contêineres agora. Vocês vão ficar lá durante o dia. — O boina ordenou às pessoas no chão com um tom sem emoção.

— Eles nos fizeram procurar comida e água. Agora, eles estão nos pedindo para esvaziar esses contêineres… — Sanji resmungou suavemente para Hai enquanto se levantava com os outros. — Você acha que eles planejam nos tratar como prisioneiros?

— É possível. Mas eu não sei qual é o plano deles. — Hai franziu a testa ligeiramente.

Como as pessoas por trás deles eram todos pós-humanos, todos ouviram claramente a conversa, embora estivessem sussurrando. Um homem com roupa de escritório de meia-idade tossiu e olhou para os dois.

Quando se aproximaram das portas de um contêiner, o homem de meia-idade subitamente saltou. Então, chutou o calcanhar de uma das mulheres de cabelos azuis. Pega de surpresa, a mulher caiu de cara no chão. Sua peruca azul caiu revelando que era careca.  O homem agarrou a arma da mulher e imediatamente gritou.

— Ative a Defesa Corporal Vajra[2]]!

Essa parecia ser sua habilidade. Depois que falou isso, seu corpo emitiu um brilho dourado, e o homem começou a fugir como um maníaco.

Ninguém esperava que alguém realmente fizesse isso. Um dos sorridentes boinas imediatamente o perseguiu. O boina disparou sua arma algumas vezes, mas de alguma forma, devido às habilidades de esquiva do alvo ou porque a habilidade realmente o tornava imune aos ataques, o homem de meia-idade continuou correndo. O homem-boina correu atrás dele e os dois logo desapareceram de vista.

Os pós-humanos que acabaram de entrar no contêiner foram despertados por isso, mas todos ficaram calados quando olharam para trás. Uma dúzia de mulheres estavam de pé à porta, apontando as armas para eles.

— Merda! — Dao amaldiçoou enquanto chutava uma dos caixotes para descarregar sua raiva.

Todos eles só podiam aceitar a situação. Começaram a esvaziar os contêineres ao redor. Os sete não conseguiam sequer encher metade de um contêiner, mas os malucos os forçaram a esvaziar mais de dez contêineres que continham pelo menos 20 toneladas de mercadorias cada. Eles não apenas tiveram que carregar as mercadorias para fora do contêiner, mas também que continuar procurando comida e água e mover os contêineres vazios para o terreno plano…

Depois de horas de tal trabalho árduo, nenhum dos pós-humanos conseguia suportar mais tempo, não importando o quão fortes fossem. Quando chegou ao meio-dia, a hora mais quente do dia, todos os pós-humanos estavam no chão de um contêiner, todos tão exaustos que nem conseguiam levantar um dedo.

Sanji deitou no chão. Seu corpo inteiro estava doendo. Quando se virou e viu o resto deitado no chão igual a ela, pálidos de exaustão, não pôde evitar sentir-se desanimada.

Eles nos fizeram esvaziar esses contêiners para que pudessem abrigar mais “prisioneiros”?

Ela se perguntou. De repente, ouviu alguém se aproximando. Sanji se forçou a levantar para poder olhar para fora e descobriu que era o boina que perseguiu o homem de meia-idade.

A única razão pela qual ela sabia que era aquele boina em particular, era por que ele estava arrastando o fugitivo. Os membros do cativo estavam terrivelmente deformados, como se tivessem sido torcidos muitas vezes. Os olhos do homem estavam bem fechados, e seu rosto tinha um tom amarelo doentio.

— Ele ainda está vivo? — Uma mulher de cabelos azuis perguntou.

— Eu só quebrei os ossos em seus braços e pernas em quatro segmentos cada. Ele está totalmente paralisado, mas ainda está respirando. Ele deve estar vivo, — respondeu o boina monotonamente.

Em seguida, o fugitivo foi jogado no contêiner. Seu corpo desenhou um arco no ar enquanto seus membros quebrados se agitaram frouxamente antes de cair no chão.


[1] – O esquentadinho que tomou uma surra da Griselda. Para quem quiser relembrar: Caps. 41 a 43.

[2] – Termo usado comumente nas novels Wuxia. Uma skill que deixa o corpo “impenetrável”.

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

2 Comentários

  1. Acho que alguém tem o poder de transformar brinquedos em bonecos viventes, fazendo eles trabalharem/patrulhar, AGR pra quê não faço ideia. Ou quem sabe esses brinquedos evoluíram por conta própria…

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