RdI – Capítulo 12

Coação

 

Pela primeira vez em anos, Amira sentiu o coração se encher de ódio. O homem em sua frente, além de ser seu parente de sangue, também era o assassino de seu pai, o irmão gêmeo dele. E ele ainda falava disso como se não fosse nada. Amira quase deixou passar o fato de Franz se referir à mãe dela como um “ser celestial”. Que espécie de raça era essa?

Então, Amira viu algo ainda mais profundo escondido nos olhos daquele homem. Loucura. O feitiço que segurava Amira se tornou mais forte e novamente entrou na mente dela. Amira olhou para suas próprias mãos de criança. Ela tinha voltado a ter menos de cinco anos e se divertia com Franz e o rapaz de cabelos negros e olhar taciturno. Eles eram felizes. Franz era da família… Ele era de confiança…

— PARE! NÃO PENSE QUE EU VOU CAIR NESSE SEU TRUQUE! EU SEI QUEM VOCÊ É DE VERDADE!!! — Amira gritou. Pela primeira vez na vida ela havia gritado de verdade, e nesse meio ela já estava em pé, completamente lúcida e fora dos feitiços de Franz.

Mas isso não veio apenas da força de vontade. Amira havia cravado a faca em seu punho e usou a dor da ferida para voltar toda a sua mente para se libertar, enquanto um sangue incrivelmente vermelho, para alguém tão branco e sem cor, escorria por suas roupas.

Franz parecia ainda mais surpreso do que Amira quando a ouviu gritar. Mas ele não se mexeu. Permaneceu parado na cadeira, sentado com elegância enquanto a seguia com um olhar de curiosidade.

— E eu que pensei que anjos não gritassem. — Franz então começou a gargalhar freneticamente descontrolado e subitamente parou, ficou de pé, desembainhou a espada e a apontou diretamente para o pescoço de Amira. Ele tinha sido tão rápido que Amira ficou surpresa. Em toda a vila, mesmo entre os aventureiros e viajantes, ela nunca havia encontrado ninguém capaz de superar a agilidade dela.

— Nara? — ele chamou olhando ansioso e animado para Amira — Eu sei que você está ai nesse corpo. Foi você quem falou agora a pouco não foi?

Franz aproximou mais ainda a espada do pescoço de Amira, esperando ansioso pela resposta.

— Do que está falando? Meu nome é Amira!

Franz começou a gargalhar freneticamente. E por quase um segundo Amira ficou em dúvida se sentia raiva ou sentia pena dele, já que era evidente que ele não devia suportar nem a si mesmo, com tamanha loucura que aos poucos ele deixava aparente através daqueles olhos insanos.

— Sério? E quem eu sou de verdade, minha querida sobrinha? — ele perguntou com os olhos girando em frenesi.

Amira não sabia. Havia dito apenas o que tinha vindo em sua cabeça, dizer que ele era o assassino de seu pai não era exatamente a resposta certa. Ele voltou a olhar para Amira com um olhar ambicioso e cheio de desejo.

Então do nada, Franz parou de rir de novo e começou a encarar a garota com ódio. Amira não queria demonstrar qualquer medo, mas essa era uma situação complicada para ela. Ela nunca havia encarado usuários de magia antes, e sua mão doía como uma pequena amostra do inferno. Se ela precisasse se mutilar de novo para escapar de outro feitiço mental dele, não sobraria muito dela para se defender.

— Todos esses anos tentando te encontrar, procurando por cada rastro… — Franz disse com amargura — E você veio se esconder nesse pedaço de fim de mundo bloqueado? Sabe quantos anos eu levei apenas para conseguir ultrapassar a barreira que protegia esse lugarzinho inferior?

Amira recuou para trás. Ele realmente estava bem irritado. A voz dele estava cada vez mais alta e histérica.

— Por que não acabamos com isso de uma vez? — Franz disse voltando a ficar calmo. Ele passou a mão pelos cabelos ensebados e sujos e apontou a espada com a outra mão de forma mais ameaçadora — Você me dá essa joia agora e eu prometo não esfolar vivos aqueles dois que estavam aqui mais cedo na sua frente.

Franz disse como se fosse um excelente acordo. Mas Amira percebeu que havia algo errado. Ele era um usuário de magia. Ele obviamente não estava usando todos os poderes que tinha. Ele definitivamente poderia arrancar o medalhão de Amira sem fazer nenhum grande esforço. Ele poderia simplesmente matá-la como se ela não fosse nada. Amira sabia disso. Ela não sentiria uma sensação de perigo tão intensa se ele realmente não fosse perigoso para ela. Mas ele realmente precisa recorrer a ameaças aos amigos dela para conseguir o que queria? Franz, embora evidentemente louco, sabia perfeitamente o que estava fazendo. Todo o trabalho que ele tinha tido para chegar até aqui teria sido em vão se ele não alcançasse seu objetivo.

— Não! — Amira disse resoluta.

— Vamos… — ele disse com um tom doce e amável de quem estava oferecendo uma oportunidade única e irrecusável — Por que sofrer? Por que carregar a morte de seus entes queridos em suas costas? Mais entes queridos, melhor dizendo? É tão fácil… você me entrega o medalhão de Nara, ai você vive, todos vivem! Final feliz! Você sequer precisa dela nesse fim de mundo…

— Por que você não vem aqui e toma à força? — Amira o desafiou.

— Sabe, seu pai morreu tentando defender você e essa coisa aí. Morreu gritando… — Ele parou um pouco, fechou os olhos e suspirou como se estivesse apreciando a memória.

Então do nada, ele começou a sussurrar baixinho como se estivesse falando com outra pessoa, em um idioma que Amira não conseguia entender. Mas quando ela moveu um passo, ele despertou do devaneio e falou como se estivesse lamentando dessa vez.

— Eu perfurei o coração dele com essa mesma espada… Então por favor garota, não me obrigue a fazer alguma coisa contra seu precioso Breno, ou Bianca ou… Liana. Eles são gente fina que não tem porquê sofrer com essa história — Por um momento até mesmo ele parecia não querer seguir por esse caminho — Mais inocentes não merecem morrer por sua causa.

— Você está mentindo… — Amira disse apertando os olhos na direção dele. Era impensável negociar com um lunático, mas ela iria arriscar. Se a teoria dela estivesse correta, então ela usaria todas as cartas que pudesse. — E se você tocar em qualquer um deles, eu juro que você nunca vai ver esse medalhão pelo resto da sua vida.

— Humpf. Um juramento sagrado, heim? Sendo assim, basta eu te matar, e jogar o seu corpo em um lugar qualquer. Será mais fácil convencer o próximo dono da joia a entregá-la a mim.

Franz ergueu a espada afiada em direção à Amira. Mas Amira não pretendia se render assim simplesmente. Com a faca ainda cravada em seu pulso, ela saltou da árvore direto para o fundo de uma das lagunas espalhando água para todo lado. Se ela achava que ainda não pudesse lutar contra ele, ela não permitiria que ele a pegasse.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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