RdI – Capítulo 18

Caçada

 

— Agora eu sinto a presença de criaturas sombrias! — Nilo ouviu Amira falar.

Nilo imediatamente mudou de postura, colocando Amira no chão, mas não deixou a mão dela ir, usando o próprio corpo para protegê-la ou fugir a qualquer segundo. Amira observou a postura de Nilo e ficou intrigada. Não era nenhuma postura de combate que ela conhecia. Porém também não se preocupou muito com isso. Tudo o que ela sabia era apenas o que a pequena Vila Schuyler pôde oferecer para ela.

— Se tem criaturas sombrias por aqui, então aqui não é seguro. — Nilo disse respirando fundo. Ele estava… farejando?

— Não seja tão dramático! — Amira repreendeu Nilo revirando os olhos para ele. — A presença não é muito forte e ainda está distante. Amira rapidamente correu para uma das árvores e arrancou um pedaço flexível de madeira verde. — Me empreste seu canivete.

Nilo torceu as sobrancelhas, mas não recusou. Amira rapidamente moldou o galho em uma lança pontuda e entregou o canivete de volta.

— Eu sei me proteger sozinha, mas prefiro não andar completamente desarmada, — ela disse sorrindo para ele enquanto se gabava do galho.

— E isso serve para alguma coisa? É um espeto de madeira verde! — Nilo retrucou cético.

— Claro que serve! Você não conhece meu poder de combate. E madeira verde é bem melhor em certos casos. É mais resistente e flexível. Assim, se algo me atacar, eu posso me defender. Como posso caçar. — Amira explicou rapidamente. — Então vamos ver essas criaturas. Precisamos saber se podemos atacar ou nos defender nesse lugar.

Nilo olhou hesitante para as decisões rápidas de Amira. Ele tinha instintos aguçados, mas nessa forma ele não conseguia farejar ainda o cheiro de nenhum ser vivo. E vendo Amira ser capaz de sentir a presença de criaturas sombrias de longe era, de fato, bem impressionante.

— Ok, mas se for algo perigoso, nós fugiremos. — Nilo disse, dessa vez oferecendo as costas para Amira subir sozinha.

Amira hesitou por dois segundos antes de subir de vontade própria nas costas de Nilo, e ele começou a correr, mais devagar e cauteloso que antes, na direção que Amira apontava, subindo o curso do riacho.

— Tudo bem, pare aqui! — Amira disse de repente baixinho.

Nilo parou imediatamente se ajoelhando ao lado de Amira. Agora ele podia farejar o cheiro forte e pungente de carcaças vindo de algum lugar à frente. Seja lá o que fosse, deveria ser carnívoro. E Nilo sabia por experiência própria que animais carnívoros eram extremamente territorialistas.

— O que você acha que deveríamos fazer? — Nilo perguntou se virando para Amira. Mas ela não estava mais ao lado dele.

Nilo se alarmou por meio segundo até ver a garota caminhando sorrateiramente flanqueando a toda da criatura. Os passos dela eram tão silenciosos que mal pareciam que ela pisava no chão, ao ponto dele não ter percebido que ela tinha saído.

— Amiraaaa! — Nilo chamou com um sussurro urgente. Ela já tinha entrado no território da criatura. Ele tinha medo de que se falasse mais alto chamaria atenção para sua posição e arruinaria o plano de Amira, seja lá qual fosse. Mas ela apenas acenou para que ele seguisse na outra direção para formar um cerco.

Uma das coisas que Amira conseguia fazer bem, era sentir as capacidades das pessoas ao redor dela. E ela sentia que havia algo de muito diferente em Nilo, mesmo que não conseguisse dizer ou lembrar o que era. Então mesmo que ele não soubesse caçar, ela sentia que ele podia dar conta disso, e resolveu arriscar.

Na frente deles havia uma caverna rasa coberta por uma considerável camada de ossos e húmus. Dentro da caverna quatro criaturas estavam brigando sobre a carcaça de uma presa abatida recentemente.

As criaturas tinham o formato de felinos, mas em vez de pelos, o corpo era coberto por uma casca escamosa como se fossem répteis. Amira nunca tinha visto esse tipo de criatura antes, e pela forma como se comportavam, eram apenas animais selvagens.

Nilo rapidamente se posicionou do outro lado da caverna, e como Amira esperou, a aproximação dele não foi tão silenciosa e desapercebida. As quatro criaturas imediatamente sentiram a presença de Nilo e pararam de brigar pela caça, e voltaram-se para o rapaz.

Nilo ficou brevemente alarmado, olhando para Amira, que ainda mantinha a posição como se nada estivesse acontecendo. Pelo menos os animais não tinham percebido ela, e ele poderia se esquivar facilmente para protegê-la. Ele nunca tinha encarado animais selvagens antes, principalmente criaturas sombrias, então estava bastante nervoso.

Mas assim que os quatro felinos reptilianos se aproximaram cercando o que imaginavam ser uma presa fácil, um instinto diferente despertou dentro de Nilo. Um rugido baixo cresceu de dentro dele, enquanto ele mostrou os dentes e um olhar feroz para os bichos.

Uma aura de intimidação e soberania parecia emanar de Nilo nesse momento pegando tanto Amira, quanto os quatro felinos de surpresa. Mas a surpresa de Amira não demorou muito. Ela suavemente saltou de onde estava e com movimentos precisos, cravou a estaca que tinha feito no encontro da clavícula com o pescoço dessas criaturas, dando uma morte limpa e rápida, antes mesmo que eles percebessem que estavam sendo atacados.

Amira liquidou quase instantaneamente três deles. Porém ela parou observando a quarta criatura que estava com uma posição completamente diferente da de ataque, com o corpo arqueado e o rabo entre as pernas, encarando Nilo, como se Nilo fosse um predador muito mais perigoso.

O olhar de Nilo também era diferente de antes. Não havia o medo ou a tristeza que estavam consumindo ele antes. Apenas o instinto da caça, como se ele tivesse nascido para aquilo, e uma expressão de dominância e opressão sobre o felino. Porém Nilo não fez nenhum outro movimento.

Depois de entender a situação, Amira imediatamente lançou a estaca, acertando precisamente no olho do animal e atravessando sua cabeça como se fosse um mamão maduro.

Nilo imediatamente despertou de seu “estado instintivo” e observou alarmado que as quatro criaturas já estavam mortas.

— O… o-o que houve? — Ele perguntou surpreso.

Amira sacudiu os ombros como se não fosse nada demais.

— Você foi a isca e eu o predador. — Amira disse resgatando a estaca do quarto animal.

— Você matou sozinha quatro criaturas sombrias! — Nilo disse chocado.

— Isso não foi nada demais para mim. Criaturas sombrias sempre me temeram de qualquer forma, e mesmo quando me avistam, nunca me atacam — Amira disse revirando o corpo de um dos animais que ainda estava vivo, e cravando a estaca através da cabeça dele sem misericórdia finalizando a vida dele imediatamente.

Esse movimento rápido, sem hesitação ou misericórdia deu arrepios a Nilo. Amira virou-se para ele e Nilo se sentiu ser completamente investigado por aqueles olhos multicoloridos dela. Amira terminou sua fala como se nada tivesse acontecido:

— Essa é a primeira vez que eu encontro outra pessoa que também é temida pelas criaturas sombrias.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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