RdI – Capítulo 21

Banho

 

Amira não continuou a conversa. Voltou correndo na frente, para a caverna para trocar o vestido molhado. Não é por que ele tinha tirado toda a roupa dela no primeiro dia que ela iria simplesmente deixar ele vê-lá se trocando toda vez. Tinha deixado a maioria dos peixes para que o amigo trazer, e como eram muitos, ia dar muito trabalho, ela iria ter algum tempo de privacidade.

Assim que Nilo chegou, ela já havia acendido a fogueira e pela primeira vez desde que havia chegado na ilha, deixou os cabelos soltos, que mesmo úmidos, já estavam batendo na cintura encolhidos por causa dos cachos. Nilo parou por um momento observando a imagem de Amira iluminada pela fogueira fraca enquanto os cabeços respingavam água ao menor toque do vento. Ela tinha crescido tão magnificamente, que ele não podia fazer outra coisa a não ser olhar impressionado.

Então ele respirou fundo, e recobrou a consciência. Não adiantava ficar ali sonhando acordado. Os dois começaram a limpar e deixar os peixes prontos para o fogo. Amira havia conseguido transformar os cocos secos em pratos e canecas, assim, não precisavam comer o peixe na mão. E como ela conhecia bem as ervas que a floresta podia oferecer, havia encontrado alguns temperos, que ao menos serviam para variar o sabor dos peixes.

— Você tem os cabelos iguais aos dos seu pai. — Nilo disse enfeitiçado pela beleza de Amira antes que pudesse se conter.

— Só se for nos cachos, porque a cor eu duvido — Amira disse distraída, sem reparar no fascínio dele. Ela deu mais uma dentada no almoço e continuou — Escuta, você não vai tomar banho não?

Nilo conseguiu se engasgar com a boca seca, e Amira precisou pegar água para ele desentalar.

— Eu já banhei!

— Quando? Semana passada?

— Não! — disse indignado, mas logo baixou a cabeça e completou — Ainda não completou sete dias…

Amira teve uma vontade enorme de pensar que ele estava mentindo, mas ele, embora tenha falado sem jeito não estava mentindo.

— Você vai voltar agora para o riacho e vai tomar um banho, de pelo menos meia hora. Você está começando a cheirar a peixe, suor e sal.

— Meia hora? Ta doida? Nem pensar

— Eu não cozinho mais nenhum peixe para você se não for.

Ele cogitou um pouco a hipótese e retrucou:

— Eu como eles cru!

Amira caiu na gargalhada, deixando o prato de coco cair. Nilo ficou completamente atordoado ouvindo o riso dela.

— O que é que você tem contra um banho?

Nilo limpou a garganta mais uma vez se preparando emocionalmente para responder sem olhar para ela.

— Nada demais, eu banharia na boa se a água não fosse tão… molhada.

— Fala sério! Isso é ridículo!

Amira deixou Nilo terminar de comer e voltou para a floresta. Nilo chegou a pensar que ela teria ido pegar um balde de água para jogar nele, não fosse pela ausência de um balde naquele lugar remoto.

Mas Amira encontrou o que procurava em pouco tempo. Haviam cipós muito bons para fazer corda e pegou alguns e os levou de volta para a caverna.

Nilo estava escondido do lado, de fora, mas voltou na direção dela assim que percebeu que ela não vinha com água.

— Para que você quer esses cipós?

— Para fazer uma corda.

— E para que uma corda? – disse desconfiado

— Para o caso da gente precisar.

Nilo se sentou na frente da garota e ficou a assistindo trançar uma corda longa, de quase vinte metros em menos de uma hora. Ela enrolou a corda e passou pelo ombro segurando uma das pontas na mão.

— O que vai fazer agora?

— Você já vai ver… quanto você pesa?

— O que?

— Diz logo.

— Uns setenta quilos eu acho, o que você…

Amira mal deixou ele terminar e pulou em cima dele. Nilo se assustou, mas não conseguia se esquivar. Ele também era muito rápido, mas com o ataque surpresa de Amira, ela o agarrou antes que ele pudesse reagir.

— O que é que você tá fazendo? — ele gritou assustado.

Nilo se debatia ferozmente, mas Amira logo percebeu que apesar de ele ter mais agilidade, ela tinha os braços mais fortes que os dele e em alguns segundos conseguiu amarrar com firmeza os pulsos dele e enrolar a corda. No fim das contas, as pernas foi a parte mais difícil de amarrar.

— Me solta! Por que você ta fazendo isso?

— Acredita em mim… é pro seu próprio bem.

E aparentemente sem botar muita força, Amira ergueu Nilo e o colocou nos ombros, lentamente ele de volta ao riacho. Quando Nilo percebeu o que ela ia fazer, ela já havia deixado ele de pé na frente do lago.

— Uma pena que você está com toda a roupa, vai ficar todo molhado. Pelo menos não está com seu manto. Poderá se cobrir com ele quando sair.

— Amira, não faça isso. — ele disse suplicante.

— Ah! Você quer que eu tire os sapatos?

— Amira você não…

— Olha só, se você tiver algum motivo realmente interessante de por que não pode entrar na água, eu não te jogo na água. Você tem um motivo?

Mas Nilo continuou calado.

— Foi o que eu pensei!

Amira havia considerado que o segredo dele deveria ter alguma relação com água, afinal, não havia por que tanta reação sobre um banho. Então ela terminou de tirar os sapatos dele e afrouxou as amarras das mãos. Ele aproveitou para tentar se soltar, mas quando conseguiu, ela já havia jogado ele na água.

— Enquanto você está aí, aproveite para lavar essa sua roupa, que parece que perdeu a cor original há muito tempo.

Nilo balançou a cabeça para tirar a água do rosto.

— Nunca mais faça isso, me ouviu! — ele gritou para Amira profundamente ofendido.

— Tudo bem. Tenho certeza que na próxima vez você vem sozinho.

Nilo se aproximou da margem para sair, mas Amira o empurrou de novo.

— É assim, não é? — ele voltou para a margem e agarrou a barra do vestido dela e a puxou desequilibrando-a.

Amira cambaleou e caiu ao lado dele.

— Pelo menos estamos quites. — ela sorriu para ele.

Nilo ficou em choque ao vê-la sorrindo de novo. O sorriso de Amira agora tinha um efeito completamente diferente do de quando ela era uma criancinha de colo. Antes era adorável, fofo e meigo, como se o mundo fosse um lugar sagrado e puro. Mas agora ele teve uma necessidade urgente de abraçá-la.

Rapidamente Nilo virou de costas e fingiu estar de muito mau humor porque Amira não o deixou sair da água enquanto não estivesse satisfeita com a higiene dele. E assim que ele conseguiu convencê-la a sair, ele saiu correndo para a praia e se jogou na areia, rolando de um lado para o outro.

— O que adianta ter banhado se você vem se sujar de novo? — disse Amira assim que o acompanhou.

— Adianta que agora eu estou feliz. Caramba, você tem força! — Nilo disse eufórico tentando não olhar para Amira.

— Já me disseram isso. — ela disse passivamente.

E sem poder fazer mais nada. Se sentou ao lado dele e começou a fazer sua longa trança, esperando que o sol da tarde terminasse de secar as roupas deles.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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