RdI – Capítulo 26

Decisão

 

Amira acordou de uma vez, como se tivesse sofrido um solavanco da “queda” que sofreu ao cair do céu. Ela estava deitada em sua esteira, e já era noite também do lado de fora da caverna. Assim que acordou, Nilo, que estava guardando a entrada da caverna, imediatamente encolheu até o tamanho de um coelho e saltou para o lado de Amira.

— O que houve? Você simplesmente desmaiou! Está se sentindo bem?

Andirá ainda estava recostado no mesmo lugar com uma expressão dolorosa de quem estava tentando fingir que estava bem. Amira olhou ao redor ligeiramente perdida. Ainda sentia nos dedos o toque do mármore das estátuas e o pés pesados como se realmente tivesse caminhado por horas.

De repente, Amira sabia o que deveria fazer, e como se não fosse mais ela mesma que governasse seus próprios membros, ela se levantou. Ela ignorou os olhares preocupados de Nilo e Andirá e se aproximou da quimera.

— Você não vai cair em cima de mim de novo, vai? — Andirá brincou, mas a olhava com uma expressão que pedia calma.

— Abra sua asa. — Amira disse.

Andirá já havia encontrado anjos antes. E ele sabia quando um anjo estava prestes a abençoar alguém ou alguma coisa. Era um tipo de aura especial que eles emanavam que parecia driblar o destino, conforme com a vontade deles. E quando a voz sagrada de Amira caiu sobre ele, Andirá não hesitou em obedecer.

Dolorosamente, Andirá abriu a asa quebrada. Ele conhecia a aura, mas se recusava a acreditar que isso estava acontecendo. Ele não se atrevia. Ele já tinha perdido as esperanças e o gosto amargurado da morte o cercava com tanta certeza, que ele estremeceu de ceticismo.

Mas Amira olhou calmamente para a asa ferida de Andirá e colocou a palma sobre a ferida da quimera. Andirá estremeceu de dor. Amira tinha poupado delicadezas ao tocar na ferida dele. E com a palma estendida sobre a asa quebrada de Andirá, Amira se abaixou e deu um beijo suave na testa da quimera.

Uma explosão de luz e sombras irrompeu do corpo de Andirá, ondulando por todo o perímetro do acampamento. Todos os pássaros que dormiam por perto simplesmente acordaram assustados e voaram para longe.

Andirá sentiu como se seus ossos estivessem sendo retorcidos, quebrados e sua pele rasgada de novo. Só que dessa vez, a dor era incrivelmente mais intensa e ele gritou desesperado. Nilo observava de fora, sem conseguir se aproximar. Aquela energia absurda estava repelindo ele para longe como se não quisesse que ele se aproximasse.

Andirá gritou, sentindo que ter sua asa arrancada naquele momento fosse menos doloroso. Mas no momento em que ele achava que não poderia suportar mais e enlouqueceria de dor, seus ossos e sua pele finalmente terminaram de se reordenar, e sua asa finalmente havia recuperado a forma completa e intacta de antes.

A grito grave e profundo de Andirá soou enquanto ele sentia que toda aquela dor era bem vinda. Andirá sorriu e chorou enquanto gritava, só que dessa vez de euforia, e naquele momento insano, ele estendeu ambas as asas impulsionando seu corpo para os céus e voou veloz para a escuridão.

Amira olhou Andirá se distanciar até perder de vista. A expressão no rosto de Amira não indicava se ela estava satisfeita ou não com o resultado. Então ela fechou os olhos e começou a tombar para trás inconsciente. Nilo correu, crescendo o corpo e aparou Amira com o dorso de suas costas, carregando ela de volta para a caverna. Nilo olhou para a menina, depois para o céu por onde Andirá tinha partido, sem entender nada.

Três dias haviam se passado.

Andirá flutuava a alguns milhares de metros do mar enquanto batia as asas satisfeito. E olhava para o céu através de suas próprias mãos. Ele estava completamente invisível agora. Tinha conseguido se alimentar ao ponto de escapar da morte, e agora a luz o atravessava completamente, fazendo com que ele não pudesse ser visto por nenhum olho humano.

A ilha de seu infortúnio estava vários quilômetros atrás, mas ainda podia ser vista como um pequeno grão. Ele precisava tomar uma difícil decisão agora. Andirá apreciava a companhia de Nilo e o milagre que lhe foi concedido por Amira, mas voltar para eles dois era algo que mesmo ele tinha medo de fazer. Andirá era extremamente velho. Apesar de dizer que sua raça era descendente das quimeras criadas para lutar na Guerra Eterna, ele mesmo tinha estado presente. Ele mesmo tinha visto e aprendido coisas que arrepiariam os cabelos do rei dos anjos em pessoa. Ele era original.

Andirá não  era fraco, nem o leonzards que o atacaram eram excessivamente fortes. Na verdade, os leonzards eram criaturas sombrias bem básicas e sem inteligência, das mais comuns nesse reino. Para ele, um grande guerreiro que havia lutado nas linhas de frente da maior guerra que já existiu, ele sabia que aquela derrota não era algo tão simples.

Andirá tinha sido traído pelo próprio clã. Eles o doparam e o jogaram para ser devorado por aquelas criaturas inferiores enquanto ainda estava fraco. O sangue de Andirá ferveu de raiva apenas por lembrar da dor e da humilhação de ter a asa quebrada. Nada era mais vergonhoso para um guerreiro como ele. Mesmo que sua carreira tenha acabado há séculos.

Andirá suspirou profundamente. Ele tinha reacendido um desejo de sangue muito forte de ir atrás dos “companheiros” de clã que haviam traído ele, e exigir o débito que lhes deviam. Mas ver Amira e Nilo… juntos… Ele sabia que algo grande estava para acontecer. E ele tinha sido pessoalmente abençoado por um anjo — ou quase isso — nas vésperas de tal “acontecimento”, fosse o que fosse.

Então, ele tinha que tomar uma decisão que agredia todos os sentimentos de seu coração. Ir em frente e buscar o débito de sangue, ou voltar e seguir seus salvadores. Quer eles exigissem um pagamento em troca do milagre ou não, Andirá sentia que as rodas do destino o levaram para aquele momento específico. Ele suspirou novamente.

— Parece que minha vingança vai ter que ficar a cargo do destino… — ele disse para si mesmo, enquanto planava de volta para a ilha.

Se o destino o tinha posto nas mãos daqueles dois estranhos, então ele os seguiria e pagaria por sua nova vida a todo custo, se não, ele nunca poderia ter paz mesmo que morresse de verdade.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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