RdI – Capítulo 28

Chave divina

 

— Já que somos amigos, devemos ajudar uns aos outros no que precisarmos! — Andirá disse orgulhoso, batendo no peito e mostrando vigor. A altura total dele mal passava da metade da altura de Amira — E já que você me ajudou, é minha vez de retribuir o favor. No momento tudo o que tenho a oferecer é conhecimento. Mas não sei se isso posso ser útil a vocês.

Amira puxou o Medalhão de Nara de dentro da roupa e mostrou para Andirá. Essa era a primeira vez que ela deliberadamente mostrava seu tesouro para outra pessoa. Andirá se aproximou e olhou para a joia enigmaticamente, e começou a analisá-la. O que ele sabia sobre os segredos da magia divina era muito pouco, mas tinha percebido que era muito, comparado com o que Nilo e Amira sabiam.

— Isso é uma chave divina, não é? E, aparentemente, uma muito poderosa. Sinto que a alma dentro dela ainda está viva. — Andirá explicou depois de um tempo.

— Chave divina? — Amira perguntou confusa.

— Você não sabe o que é isso na sua mão? — Andirá perguntou com uma expressão solene.

— Tudo o que me vem a mente é crivo dimensional. — Amira disse objetivamente.

— Ho ho ho! — Andirá sorriu como se Amira estivesse subestimando algo. — Um reles crivo dimensional não se compara à uma chave divina! Crivos dimensionais abrem portas de um reino a outro permitindo que seus portadores viagem para onde quiserem. Já as chaves divinas são muito mais poderosas. Elas são a vontade e o poder do ser cuja alma foi impregnada na joia. Todos os poderes do anjo cuja alma está selada nesse medalhão estão à sua disposição, desde que consiga usá-los.

Andirá explicou detalhadamente. A principal diferença entre um mero crivo dimensional e uma chave divina era a alma. Nos crivos, a alma já havia sido dissipada restando apenas uma parte do poder bruto dentro de um objeto inanimado. Outra grande diferença era sobre a capacidade de possuir uma chave divina.

Se um ladrão matasse o portador de um crivo e o roubasse, então o poder passaria a ser do ladrão, pois o poder estava no objeto. Mas uma chave divina era diferente: A alma utilizava objetos apenas para se locomover de um lugar para outro, e abrigava diretamente o corpo do portador. Então, o poder não poderia ser roubado, mesmo perdendo o objeto. A única forma de passar o poder adiante seria entregando voluntariamente a chave divina para um novo herdeiro.

— Então foi por isso que Franz tentou me convencer a entregar o medalhão para ele… — Amira disse pensativa após ouvir a explicação de Andirá. — Apesar de ter sido uma tentativa bem pífia. Ele sequer parecia lúcido.

— Me permitiria saber qual o nome da alma que essa joia abriga? — Andirá perguntou casualmente.

Cada anjo costumava se especializar em um tipo de poder diferente que servisse melhor para o mundo divino. Andirá, por ter lutado em nome de alguns anjos, conhecia vários nomes e a aparência de Amira lhe era familiar. Poderia ser que ele tivesse conhecimento sobre a entidade que tinha criado aquela chave divina. Provavelmente, deveria ser alguém do alto escalão dos exércitos divinos para ter a alma tão resiliente capaz de durar tanto depois da guerra e ainda por cima tendo deixado herdeiros com o próprio sangue.

— É chamado de Medalhão de Nara. — Nilo disse ao lado de Amira encostando o focinho na joia. — O nome dela era Nara, e ela era avó de Amira.

Andirá sentiu o choque em seu coração o atingir em cheio.

— C-co-como assim? — Andirá foi pego em cheio pela surpresa. Entre todas as coisas que ele sabia era que anjos não repetiam nomes. Haveria apenas um anjo por toda a eternidade com um nome. E se aquele anjo perecesse, então seu nome seria seu legado.

— Nara! A avó dela que está no medalhão! — Nilo repetiu sem perceber o choque de Andirá.

Imediatamente Andirá levou as mãos para longe do medalhão como se estivesse com medo de ofender alguma coisa.

— A rival do infinito!? — Ele disse baixinho. Dessa vez o par percebeu o choque evidente no rosto de Andirá.

— Rival do Infinito? — Amira perguntou confusa guardando a joia — O que isso significa?

— M-m-m-m-mas i-i-i-isso é imp-possível! — Andirá refutou em choque.

— O que? — Nilo e Amira disseram ao mesmo tempo.

— Todo e qualquer crivo dimensional ou chave divina que você encontrar em qualquer reino superior ou inferior deveria ser sempre alguém que morreu durante a Guerra Eterna.

— O que isso quer dizer? — Amira perguntou se sentindo um pouco confusa com a reação exagerada de Andirá.

— Nunca! Nunca sob hipótese alguma diga o nome dessa joia para mais ninguém! — Andirá disse alarmado para Amira de repente.

— Eu não planejava sequer deixar as pessoas saberem que eu tenho isso. Não fosse Franz brincando de psicopata pra cima de mim, nem aqui eu estaria! — Amira disse de uma vez.

— Então alguém já está atrás dela… — Andirá disse pensativo, começando a andar de um lado para o outro, enquanto sua cor camaleônica mudava instantaneamente.

— Eu não estou conseguindo entender, Andirá. Pode falar de uma vez sem rodeios? — Amira disse já sem paciência.

Andirá respirou fundo e recomeçou a falar, dessa vez com o tom bem mais sério e sombrio:

— A Guerra Eterna aconteceu séculos atrás nas linhas da teia do universo. Depois que a guerra acabou, três coisas foram deixadas para trás: as criaturas mágicas e sombrias, a lei suprema e a Rival do Infinito. As criaturas eram guerreiros menores usados por ambos os lados. A lei suprema restringiria os seres divinos aos próprios reinos. Eles não deveriam nunca mais descer aos reinos mortais, sob pena de banimento eterno e morte. E a Rival do Infinito foi um ser supremo que nasceu da guerra. Ela foi uma fusão de toda a energia divina suprema que tinha sido dissipada dos seres mortos nos campos de batalha. A primeira híbrida de ambas as energias angelicais e demoníacas. Diziam que sua existência era tão absurda e poderosa que mesmo todas as infinitas criações reunidas não seriam capazes de se oporem a ela.

Andirá disse com um olhar que mostrava admiração, medo e respeito ao mesmo tempo. Então continuou:

— Mesmo que ela fosse tão superior à todos os outros, ela era inocente e pura. Por isso, muito mais perigosa. Ela tinha livre arbítrio, o que era inédito em um ser divino até então. Por vontade própria, decidiu seguir o rei dos anjos para o reino deles. E foi dado a ela o nome de Nara, a esposa do rei!

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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