RdI – Capítulo 30

O templo

 

Quando Amira atravessou o arco, tudo era exatamente como sonhou, mas não estava deserto. Todos os ocupantes do grande salão simplesmente pararam o que estavam fazendo, e começaram a fitar descaradamente a garota.

Eram anjos! Anjos reais, com asas e um brilho espetacular.

Os anjos que estavam voando desceram e os que estavam conversando, calaram-se. Havia um pouco mais de vinte, e todos ficaram pasmos quando a viram.

Eles eram exatamente como ela. Tinham a pele branca, como o mais puro mármore, mas de alguma forma muito mais pura. De certa maneira, parecia que uma luz vinha deles, e suas asas eram tão magnificamente grandes e perfeitas, como eram nas estátuas. Ou melhor, sequer as estátuas faziam jus aos anjos reais.

Seus cabelos eram da cor de metal prateado, como os dela, mas eram ondulados. Uns tinham o cabelo tão comprido que passava do tamanho do próprio corpo, mas nenhum parecia ter mais de vinte anos.

Tentando não se importar com os olhares, ela seguiu até a escada em espiral, esperando que algum deles parasse em sua frente, e a mandasse ir embora. Mas ninguém fez isso. Aqueles que estavam no meio do caminho afastaram-se, aqueles que estavam mais distantes, aproximaram-se para poder ver melhor.

Ela começou a subir, e antes de sumir pelo teto, virou-se. Todos cochichavam parecendo abismados com a presença da garota. Nesse momento uma pessoa entrou por um dos arcos, mas ninguém lhe deu atenção.

Por que será que eles me olharam desse jeito? — Amira pensou, mas tentou o máximo manter a calma. Se ninguém havia barrado ela, significava que ela estava no caminho correto, não é?

Com um súbito aumento de ansiedade, ela continuou subindo e subindo. As estrelas do lado de fora da escada eram muito mais magníficas do que no sonho. Porém, por mais que subisse, não parecia estar perto de chegar a um fim.

Ela já estava ficando nervosa quando avistou um anjo descendo os degraus e parar bem no meio do caminho. Ele era diferente dos outros: usava o cabelo curto, um pouco acima dos ombros e um pouco abaixo das orelhas. Ele usava uma armadura como a dos anjos que ficavam no portal, e parecia estar bem preocupado antes de perceber a presença dela.

Como ele havia parado completamente, ele parecia uma estátua magnífica e resplandecente. Todavia, diferente dos anjos que estavam no salão abaixo, ele não pareceu chocado quando a viu. Sua expressão era mais como de dúvida, ou surpresa.

— Você é real? — Ele levantou uma mão como se quisesse tocá-la, mas se refreou e não se moveu mais adiante.

Ele abaixou a cabeça, balançando de um lado para o outro e começou a rir. Sua voz entrava na cabeça da garota quase como se não fosse ouvida, mas sentida. Cruzou os braços, e começou a examiná-la, fazendo uma expressão de desaprovação para as roupas.

— O que foi? Por que está rindo?

Ele a olhou nos olhos. Parecia sério, mas sorria. Então finalmente respondeu:

— É que você… é filha da Naomi. Me parece bem decadente… — A fala do anjo fez Amira pensou em retrucar as palavras, mas a aparência dela realmente estava deixando a desejar, com suas roupas surradas e ainda por cima, coberta com o casaco de Nilo. — Bem, deixe-me sair de seu caminho, mas se me permite lhe dar um conselho… não recite o nome delas.

Ele disse e voltou a descer as escadas como se aquele encontro não tivesse sido nada demais. Amira pensou em seguir o anjo e perguntar mais, mas ele simplesmente havia desaparecido, como se nunca tivesse estado lá. Amira balançou a cabeça vigorosamente e voltou a subir as escadas, até finalmente chegar na sala do trono gigante.

Havia apenas um anjo lá. Ele estava sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto apoiado em uma das mãos. Suas grandes asas eram muito mais magníficas quanto à dos outros. Amira se aproximou lentamente, até estar a apenas poucos metros dele.

Ele usava uma fina coroa prateada que passava pelo meio de sua testa e dava uma volta completa pela cabeça. Quando finalmente pareceu perceber a presença da garota, ele levantou a cabeça e a encarou.

Ele aparentemente estava emocionalmente despreparado para vê-la, se é que ele a conhecia. Entre os outros anjos, houve espanto, surpresa, dúvida, mas nele, houve choque mesmo. Ele franziu o rosto, quase como se estivesse profundamente assustado com a presença dela. Mas então, ele viu o medalhão e se recompôs.

Ele abriu a boca para falar, mas nada disse. Levantou-se e caminhou até ficar frente a frente com a garota. Como os outros, ele também não parecia ter mais que vinte anos, mas tinha um porte e uma imponência quase assustadores. Um ar indubitável de nobreza.

Ele era um pouco mais alto que ela e usava uma toga e um manto, ambos brancos, e na sua cintura, usava um grande lenço. Amira continuou encarando ele, tentando não parecer nervosa ou mesmo assustada.

— O que você quer aqui, Amira?

— Como sabe meu nome? — ela perguntou mesmo já imaginando a resposta. Amira já estava meio incomodada por ele saber seu nome. Provavelmente todos os outros que tinha encontrado antes também deviam saber.

— Criança, como se não fosse óbvio: você não é Naomi, só poderia ser a filha dela — ele demonstrou um certo desprezo quando pronunciou ‘filha’.

— Conheceu minha mãe? — Amira perguntou, esquecendo-se do conselho que o outro anjo tinha lhe dado um pouco antes.

Ele contorceu mais ainda o rosto, deu um sorriso de deboche, olhou novamente para o medalhão e voltou para o trono. Parou e olhou para o espaço vazio onde a estátua de Naomi ficava no sonho de Amira. A garota esperou uma resposta, mas ele parecia que não iria responder.

— Eu pensava que sim… afinal, ela era minha filha! — isso saiu quase como um tiro para Amira. Se aquele homem era pai de Naomi, então ele era seu avô. E ele não se incomodava em deixar de transparecer que estava pouco se importando com isso, como se esse fato fosse desprezado por ele.

— O senhor é… é o meu avô?

— Você é mesmo lenta de raciocínio, não é? E ainda por cima, se apega a essas definições humanas de parentesco… não poderia esperar mais, de qualquer forma. Bem, vamos ao que interessa: o que quer, humana?

Amira não soube o que dizer. Ela não sabia se era possível desejar tanto que alguém estivesse mentindo como agora, mas seu coração lhe dizia que ele falava a verdade. Uma tristeza preenchia o seu coração. Amira não sabia o que sua mãe podia ter feito de tão horrível para que ela pagasse por isso com aquele desprezo todo agora.

Ela respirou fundo e pôs-se a pensar. Não sabia ao certo o que estava fazendo ali, não sabia o porquê da raiva do anjo que estava na sua frente, e tentou ignorar o que tinha ouvido, bem como a mudança nada sutil de “Amira” para “humana” como se ele fosse um estranho qualquer que servisse apenas para responder suas perguntas. Então, assim como ele estava fazendo com ela, ela perguntou com o máximo de frieza possível.

Então se lembrou de quem havia ressuscitado toda aquela balbúrdia na vida quieta dela no meio da vila. Franz sabia como usar as chaves, então era possível usá-las sem ser por acidente. Se soubesse como, poderia tirar Nilo daquela ilha e voltar para casa.

— Como funciona a chave? — perguntou curta e grossa.

Ele abriu um largo sorriso desdenhoso, como se essa pergunta fosse o que mais quisesse ouvir. Ele caminhou de volta para o trono, suas asas farfalhavam a cada passo, e pegou uma grande lança, agora expressando uma malícia.

— Como o Príncipe Metatron, é meu dever responder às dúvidas dos ignorantes que têm preguiça de pensar. Vou adorar lhe mostrar o caminho.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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