RdI – Capítulo 34

Escolhas

 

Breno tentou em vão chamar a garota para acompanhar o enterro da mãe Lia, mas não conseguiu nada mais que um olhar apático. Os cinco filhos de Liana, mesmo olhando a garota com maus olhos, não puderam deixar de se comover com o sofrimento dela, que não tinha nem sequer quinze anos, e já estava completamente só no mundo.

As últimas palavras de Liana ecoavam e se repetiam a cada instante dentro dos pensamentos de Amira como uma ode ao vazio. Como ela poderia escolher ser feliz? Como sequer poderia tratar isso como uma escolha, quando tudo simplesmente dava errado de todas as formas possíveis?.

E assim o dia foi passando, e as pessoas começaram a voltar do cemitério e se reunir na casa de novo, para discutir sobre os bens da matriarca. Aquele momento, não era mais questão de luto e sim de negócios.

Amira tentou se portar diante das vozes ao seu redor debatendo sobre quem ficaria com o que, agindo como se o velório, o chororô, tudo tivesse sido apenas enquanto o cadáver ainda estava fresco.

Ela se levantou, e subiu as escadas em direção ao seu quarto, ao lado do da mãe, atraindo os olhares surpresos dos presentes, por sua repentina reanimação. Empurrou a porta e no alto do armário pegou uma pequena bolsa de viagem, um pouco velha, mas em bom estado, e começou a separar as suas roupas e suas coisas mais importantes e de algum modo fazendo tudo caber dentro da mala. Pegou dois pares de sandálias, e trocou a que estava em seus pés por uma melhor. Algumas mudas de roupas, uma escova para cabelos e alguns casacos.

Em uma bolsa menor com uma grande alça que passava por um dos ombros, colocou uma caixa de fósforos enrolada em um pedaço de plástico, algumas velas, uma caixinha de música que havia ganhado no seu fatídico aniversário de cinco anos e um pequeno relógio de pulso.

Quando tudo estava pronto, ela parou e olhou em volta. Não conseguia mais sentir que aquele lugar lhe pertencesse mais, o seu quarto, ou sequer se sentir bem ali, como se não estivesse mais em seu lar.

Franz, quando apareceu para ela, afetou para sempre a sua vida, e no momento em que percebeu que não podia controlar o poder da joia, justamente quando estava mais desesperada, não pôde fazer nada.

Agora ela tinha que sair daquele lugar, daquela casa cheia de estranhos que certamente por eles, a deixariam sem nada e ao relento. Não que ela se importasse. Se não tivesse a casa na árvore não teria aonde ir, nem onde dormir, e isso também não era da conta deles.

Colocou a bolsa nas costas e passou a menor pelo pescoço, e voltou para as escadas. Quando já estava descendo, pôde ouvir o pai de Pedro falando:

— E quem é que vai ficar com a casa?

Alguns presentes olharam para Amira, com as malas nas costas, e roupa trocada, pronta para sair. Ignorando o olhar de todos, ela passou pela sala, e atravessou a porta. Como ela nunca falava com ninguém, não a pararam e nem sequer perguntaram para onde iria, já que era do desejo de todos que ela sumisse e nunca mais aparecesse.

Foi a despedida que teve com todas as pessoas que mais a odiavam na vida e que agora, se não fosse pelo luto, poderiam fazer uma grande festa por verem-na ir embora. Breno e Bianca nada disseram, nem sequer se mexeram. Fingiram concordar com a observação maldosa de Pedro, “Já vai tarde”, então abraçaram-se e voltaram a chorar, pela avó e pela amiga.

— Ninguém vai querer ver o que ela está levando? Se a mãe Lia tinha alguma coisa de valor aqui, ela pode estar roubando. — O pai de Pedro perguntou sem esconder o tom de voz.

— Eu não quero tocar nela. Mamãe poderia ter vivido muitos anos a mais. Talvez tenha sido praga da menina. — Uma das tias de Breno falou.

— Não fosse a resolução da assembleia de não interferir com a menina, eu já teria a jogado num rio há muitos anos. — Dessa vez, quem disse foi o pai de Breno.

Breno imediatamente ficou em pé com um olhar furioso. Olhou para o pai o tio e as tias, e saiu da casa na direção da garota.

— Ei, ele vai lidar com ela sozinho? — Pedro perguntou ligeiramente confuso. Ele não tinha medo de Amira, mas tinha que admitir que uma pessoa sozinha não era capaz de parar a garota se ela não quisesse. Ainda por cima Breno, que sempre tinha sido contra procurar confusão com ela.

Mas Breno parou do lado de fora do batente da casa. Amira já tinha sumido de vista, floresta a dentro. Toda a dor que ela estava sentindo, ele entendia, e ele também sentia sua própria parcela. Tendo que escutar calado todas as coisas que os próprios parentes diziam sobre ela, sem poder dizer nada contra.

Nesse momento, ele sentiu como se tivesse cometido o pior dos pecados e estivesse para pagar o pior dos castigos. Não importa o quanto Amira tivesse defendido que ele mantivesse a amizade deles oculta, naquele instante, tudo o que Breno conseguia pensar, é que ele tinha falhado.

Falhado terrivelmente com uma das pessoas mais importantes da vida dele.

E tudo o que fosse dito e feito nesse momento, apenas pioraria as coisas.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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