RdI – Capítulo 36

Capítulo 36

 

Nilo tinha ficado absurdamente empolgado logo após recuperar-se do choque contra a varanda do quarto de Amira. Ele corria por todos os cantos da casa na árvore, pegando pequenos atalhos entre os galhos. Corria tão rápido que parecia um esquilo. Andirá, por sua vez, conformou-se com uma cadeira que o coube. Ele olhava muito desconfiado para Breno e Bianca, aturdidos sem saber se estavam mais assustados com o lobo falante que mudava de tamanho, ou com uma quimera semi-invisível.

Depois que todos já estavam mais calmos, sentaram-se no primeiro andar para almoçarem, apesar de apenas Nilo demonstrar um interesse maior pela comida do que pelos outros. A atmosfera estava um pouco tensa, e mesmo depois que todos já haviam aceitado os fatos, o silêncio ainda continuava predominante.

— Você explicou para Nilo? — Amira disse dirigindo-se para Andirá. Ele negou com a cabeça, sem dizer uma palavra, ainda apreciando a construção.

— Contar o que? Você sabia que ela havia partido? O que foi que aconteceu? — Nilo perguntou acompanhando a conversa do lado de Amira.

— Bom, nem eu sabia ao certo para onde eu estava indo. Eu tive um sonho com um lugar cheio de estátuas, pilares, tudo muito branco…

— Você sonhou com o templo dos anjos? — Perguntou Nilo, quase duvidando se isso era possível.

Amira ficou surpresa por Nilo saber a que ela estava se referindo, mas confirmou com a cabeça. Naomi costumava contar histórias sobre o mundo dos anjos para eles quando ela ainda era bebê, e ele poderia reconhecer até mesmo o rei dos anjos se ele aparecesse em sua frente, o que ele queria muito que acontecesse, já que o rei era pai da sua tia,e poderia dar alguma ajuda.

Mas, para desapontamento de Nilo, a garota contou sobre tudo o que tinha acontecido com ela no templo dos anjos e durante as três semanas em que esteve na vila. Particularmente interessados na parte em que ela retornou à clareira, Andirá perguntou:

— Como você pode ter voltado para cá logo depois do incidente com Franz, e passado duas semanas na ilha? — Perguntou Nilo.

— Como a gente passou três semanas na ilha depois de você ter partido e vir parar nesse mundo em três semanas também? — Continuou Andirá.

— Provavelmente da mesma forma que Nilo passou apenas uma noite lá, enquanto eu passei anos aqui? — Amira sugeriu retoricamente.

Claro que a forma como a roda do tempo girava era diferente de uma dimensão para outra. Mas não parecia ser algo natural e fixo. Parecia existir um controle.

Necessariamente, a forma como as leis da natureza funcionavam de um mundo para outro não tinha preocupado os pensamentos de Amira, já que ela passou quase o tempo todo pensando em como fazer a chave funcionar. Pelo menos um problema já estava resolvido, já que ela havia conseguido trazer os amigos para o lugar onde estava apenas desejando.
A noite que se seguiu foi muito animada. Os três amigos conversaram um pouco, embora Amira escutasse mais do que dizia. Quando foram dormir, Andirá acomodou-se entre os galhos da grande árvore, que haviam o agradado muito, e Nilo deitou-se no colo de Amira, que permaneceu olhando as estrelas sob o véu da noite.

Nilo dormia profundamente no pé da cama, e estava alheio a qualquer coisa que não fosse a ideia de uma confortável noite de sono. Amira levantou-se e foi até a varanda destruída pelo acidente com Andirá, e encostou-se na parede, para poder pensar. Muito tinha acontecido em pouco tempo. Agora ela tinha que tomar uma decisão.

Quando todos os outros acordaram, o sol já estava alto. Andirá estava muito animado para ver o mundo novo em que se encontrava nesse momento, e logo após o café, chamou por Nilo e Amira, para dar uma volta pelos céus.

Mesmo tremendo com toda aquela altura, Amira deixou Andirá pegá-la pela cintura e carregá-la para onde as nuvens bailavam. Era tão alto que qualquer pessoa que os visse do solo, pensaria que se tratava de um pequeno pássaro qualquer. Andirá cintilava enquanto alimentava-se dos quentes raios do sol. Segura por Andirá, mesmo que ainda temendo um pouco, Amira entregou-se ao prazer do voar. Se tivesse asas como os anjos, não sabia se voltaria a andar algum dia. Aquele prazer intoxicante do vento, a sensação de liberdade… Apenas sentindo com é “voar”, pode-se pensar em quão maravilhosa é a sensação de felicidade sem limites que isso dava.

Perto do meio dia, ainda desejando não pousar, os três retornaram para a casa na árvore. Quanto mais Andirá voava, mais parecia querer voar. Há séculos que sua espécie havia sido levada para a dimensão em que estavam anteriormente, e o desenvolvimento que podia ver, mesmo naquele lugarejo de lugar nenhum, longe de tudo e qualquer coisa, era absurdamente inebriante.

— Recipientes de vidro que fazem luz, água que sobe só da terra, barcos levados por pequenas caixas, carroças sem cavalos… é tudo tão fascinante! Os humanos só podem ter aprendido magia para conseguir tais feitos!

— Que nada… — disse Nilo. — Os vidros de luz, são lâmpadas, isso já existe no meu mundo há séculos e séculos atrás, e posso garantir que não é magia… Mas quanto á carroça e o barco que andam sozinhos, eu não sei não.

— Isso se chama motor — disse Amira achando graça da conversa dos amigos.

— Motor!? Que é que tem motor?

— Motor é uma coisa feita com um monte de ferros e parafusos, canos e outras coisas que empurra o carro e o barco. Admira-me, é que a lâmpada existe aqui há menos de cem anos… Mas tudo isso nada tem a ver com magia.

Um pouco depois da hora do almoço, Breno e Bianca juntaram-se ao grupo e passaram a tarde em uma animada conversa sobre qualquer coisa que não tivesse a ver com os problemas em que estavam envolvidos. Como Bianca sempre trazia alguma coisa gostosa para comer, Andirá e Nilo fizeram uma grande festa experimentando os pratos que não conheciam.

— Tia Naomi gostava muito de comer! — Disse Nilo, entretido com o bolinho de trigo que Bianca fez.

— Como ela era? — perguntou Amira, levando a conversa para o rumo de sua família.

— Bem… não sei o que dizer que possa servir, mas, ela era igual a você… — Amira sentiu um sorriso de leve brotar no rosto — Ela era bem mais calada, e comia muito, muito mesmo!

— Se ela comia mais do que a Amira, então ela não era humana, ou então devia ser do tamanho de um barco! — brincou Breno.

— Ela era um anjo… — Nilo retrucou, mas olhando fixamente para Amira. Ele achava absurda a incrível semelhança dela com a mãe. — Naomi era incrível… ela falava muito pouco e sua voz parecia simplesmente entrar em nossas cabeças como se não fosse nossos ouvidos que a escutassem e sim a nossa alma. Ela tinha a pele tão branca que chegava a brilhar, e seus cabelos dançavam mesmo quando não havia brisa. Além disso tinha os olhos mais profundos e coloridos que eu já tinha visto na vida… — os outros o escutavam com atenção. — Ela era exatamente igual a você em quase todos os detalhes… menos o seu cabelo, que é quase tão enrolado quanto o do seu pai. Ela só tinha interesse em conversar com a gente que fazia parte da família. Raramente ela dirigia a palavra para outra pessoa. Ela contava que antes de se casar com seu pai, ela tinha asas, e era muito mais poderosa. — continuou, lembrando-se do tempo em que ele e Amira eram postos para dormir embalados pelo som da voz dela.

Breno e Bianca ficaram um pouco receosos no começo, mas os dois sabiam que Amira era muito boa em julgamento, e que não permitiria que Andirá e Nilo ficassem perto deles se não fosse seguro. Bianca acabou caindo de encantos por Nilo. Ela sempre gostou muito de cães, mas seus pais nunca permitiram que ela criasse algum bichinho. Quando ele não estava voando com Andirá, ou conversando com Amira, passava o tempo todo sendo empanturrado pelos quitutes, que Bianca tinha o maior prazer de cozinhar só para ele.

Quando finalmente chegou a lua cheia, os cinco fizeram uma grande festa para Nilo. A sua roupa estava completamente encardida ainda por causa da ilha, mas como ele era do tamanho de Breno, pôde pegar emprestado as roupas que ele havia deixado na casa da árvore. Mais por apego do que por necessidade, Nilo ainda colocou o seu sobretudo, que Bianca havia lavado. Nessa mesma noite, eles desceram até o chão, e ficaram sentados do lado de fora das cortinas de cipó. Breno havia juntado uma pequena pilha de madeira e fez um fogueira.

— Eu pretendo partir daqui, em breve. — Amira disse finalmente depois de muita consideração.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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