RdI – Capítulo 38

O preço dos anjos

 

— Venha morar aqui no reino dos anjos.

Amira ficou de queixo caído com aquela proposta repentina de Metatron.

— Eu… eu… — ela sequer sabia como responder. — Isso é permitido?

Ele sorriu achando graça.

— Bom, não posso dizer que sim, nem que não. Um ser como você, híbrido de nossa espécie nunca existiu antes. Não há uma regra precisa sobre como você deve ser tratada. A minha interpretação, é que caso você escolha ser uma de nós, você pode viver aqui conosco. Mas caso faça essa escolha, nunca mais poderá voltar aos reinos mortais.

Metatron parecia muito sério ao explicar os detalhes. Principalmente a parte final.

— Então se eu quiser ficar aqui, eu nunca mais vou poder ver meus amigos? — Amira perguntou chocada.

— Não é como se você nunca tivesse pensado em abandoná-los. — Metatron disse acertando em cheio.

— Mas quando eu pensei nisso, eu pensei que seria por minha escolha.

— Ainda é sua escolha. — Metatron disse tentando parecer compreensivo.

Amira ficou calada por um tempo. Não havia muito o que considerar, mas ela também tinha muita curiosidade sobre essa avô dela. Se nada a impedisse de ir e vir para onde quisesse, então ela não recusaria o convite.

— Então eu acho que devo dizer não… — ela disse lentamente temendo a reação do avô.

Porém ele apenas suspirou e sorriu de volta.

— Não esperaria menos de você. Afinal, sendo descendente de quem é…

— Desculpe-me…

Por algum motivo, a reação receptiva dele fez Amira se sentir culpada.

— Não há pelo que se desculpar. De qualquer forma, seu tempo aqui está acabando, é melhor gastá-lo de forma mais útil. Thronus! — Metatron chamou.

— O que deseja, Metatron? — Imediatamente após falar, o anjo de cabelos curtos que estava no salão antes de Amira chegar apareceu diante deles.

— Amira está pronta para você.

— Oh! — O anjo chamado Thronus levantou uma sobrancelha e sorriu para Amira, com uma leve antecipação. — Então eu já posso cobrar o meu preço?

— Preço? O… o que isso quer dizer? — Amira perguntou confusa se encolhendo enquanto olhava para os dois anjos. Será que ela não iria escapar de apanhar pela segunda vez ali?

— Thronus se voluntariou para usar o próprio poder para bloquear as tentativas de Franz tentar voltar para a dimensão que você mora. Desde que voltou para aquele lugar, ele tem pessoalmente coberto toda a dimensão para impedir que você seja atacada. Como disse antes, nós podemos ajudar os seres das dimensões menores desde que não façamos nenhuma interferência direta, e desde que um preço justo seja pago. — Metatron explicou.

— Entendi. Então foi por isso, que mesmo sabendo que Franz poderia reaparecer por lá à qualquer momento, eu não senti nenhuma ameaça iminente. — Amira refletiu, mas depois disse apreensiva. — Mas eu não sei se eu posso pagar o preço por sua ajuda…

— Eu não peço muito… tudo o que quero, é que encontre Erelim e a traga para mim. — Thronus disse descontraidamente.

— Erelim? Quem é essa? — Amira perguntou suspeitando da “simplicidade” da tarefa.

— Erelim é minha arma divina que caiu nos reinos mortais durante o fim da Guerra Eterna. Seu paradeiro é desconhecido por mim, mas acredito que os reis de Ein Sof possam ter alguma informação a respeito. Eu não posso ir pessoalmente buscá-la, então ela é meu preço.

— Entendi. — Amira disse sinceramente. — Ein Sof… é um lugar?

— Ein Sof é o reino mortal onde a guerra encerrou. — Thronus explicou — Aquela quimera que te segue deve saber algo sobre. Mas para ter certeza de que você vai dar a devida atenção para essa tarefa, desde que ela já foi paga de forma adiantada, eu tenho uma condição.

— E qual seria? — Amira perguntou surpresa. Bom, se fosse parar pra pensar, era justo.

— Aqueles humanos que você chama de amigos não podem te seguir.

— O que? Por que não? — Amira ficou espantada com o desdobramento daquelas “negociações”.

— Eles serão a minha garantia de que você não irá procrastinar ou fugir.— Thronus disse. — A barreira que lancei sobre àquela dimensão irá durar mais onze meses. Você deve encontrar Erelim nesse tempo, ou então Franz poderá voltar para a sua vila, e é muito provável que ele faça uso de seus companheiros como moeda de troca com você.

Amira finalmente entendeu a moral da história. Não era uma tarefa simples, afinal de contas.

— Então isso significa que você está me dando mais 11 meses para proteger meus amigos. — Amira disse refletindo sobre a situação. — Eu agradeço.

Thronus por algum motivo começou a rir alto. O som da gargalhada dele reverberava profundamente como se fosse o próprio coração de Amira querendo saltar para fora.

— Então estamos decididos, — disse Metatron acenando com a mão para Thronus. — Agora Amira precisa partir. Ela já está aqui há um bom tempo.

Ele se levantou e guiou a menina até o lugar onde ela tinha aparecido. Mas antes de ir, Amira ainda fez uma pergunta:

— Do que devo chamá-lo? De Metatron, de Ian, ou de… avô? — perguntou, mas receando dizer a última palavra.

Ele abriu um largo sorriso achando muita graça da pergunta da garota, mas respondeu:

— Você pode me chamar do que se sentir mais à vontade, mas você realmente tem que ir agora! — retribuindo o sorriso, Amira desapareceu do lugar onde estava. Ele tinha dito muito pouco, e tinha sido muito estranha a nova expressão amigável dele, mas pelo menos agora era uma preocupação a menos.

No exato momento em que Amira havia retornado, Thronus tomou a frente e perguntou com um ar preocupado:

— Não entendo por que deixá-la sem saber de toda a verdade…

— Com você vigiando ela de longe, ela pode sobreviver sem saber! Para os humanos, a ignorância às vezes é uma benção.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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