Arifureta Zero – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 6 de 22)

— Ei, Miledi. Trabalhar em conjunto é… um pecado?

— Hã?

— E quanto a… abrir seu coração? Ou… rir juntos? Ou… dizer às pessoas que ama… que você os… ama?

— Não é um pecado.

Miledi segurou a mão de Belta firmemente.

— Exatamente. Essas não são… coisas que pode gozar… e pisar… Somos… humanos… não seus… brinquedos. — Miledi observou enquanto a luz desaparecia lentamente dos olhos de Belta.

Não importa o quanto chorasse, não importa o quanto gritasse, ela não podia mudar o destino.

Miledi viu seu próprio rosto coberto de lágrimas refletido nos olhos jade de Belta.

— Você era como… uma irmãzinha para mim.

— Eu também pensava em você como minha irmã mais velha.

Belta sorriu.

— Rezo… para chegar o momento… em que os humanos possam viver… livremente. Rezo por um mundo onde se pode… sorrir…

A mão de Belta amoleceu.

Os gritos de uma garota ecoaram por todo o desfiladeiro.

Miledi pegou o corpo de Belta nos braços e usou magia gravitacional para voar de volta a plataforma de execução.

Colt estava à sua espera. Não apenas ele, de fato. Sua mãe, seu avô, seu tio e seu primo também estavam lá, juntamente com um contingente de soldados. Atrás deles estava uma fila de pessoas algemadas coletivamente.

Colt olhava friamente para ela. Ele nunca tratara Miledi realmente como sua filha, mas ele nunca olhou para ela antes como se ela fosse lixo.

— Sabe o que está fazendo? — Miledi o ignorou e olhou para a fila de prisioneiros atrás dele.

Eles estavam todos desgrenhados e observavam Miledi admirados. Ninguém nunca tinha voltado do desfiladeiro. Todavia, o que mais os surpreendeu foi que a filha do Conde Reisen pulou no desfiladeiro para salvar alguém.

Como ela não respondeu, Colt ergueu as mãos e deu a Miledi seu último aviso:

— Se livre desse lixo.

Miledi se virou para seu pai ao ouvir suas palavras.

— Lixo? — murmurou ela.

Colt não a ouviu e continuou:

— Esse é o meu último aviso. Cumpra seu dever como uma Reisen. Julgue os camaradas dessa herege com suas próprias mãos. — Para ele, esse era o único valor que a vida dela tinha. Miledi abaixou a cabeça.

Ela olhou para o rosto de Belta e tomou uma decisão.

— Estou cansada disso.

— Como é? — Os olhos de Colt se contraíram e ele apontou o dedo para ela. Os soldados Reisen desembainharam as armas. Eles planejavam lutar contra ela, mas Miledi não se intimidou. Ela olhou para Colt e declarou suas novas crenças:

— Eu sou Miledi Reisen. Eu sou eu mesma. O único que decide o propósito da minha vida sou eu. — Essas eram palavras de insurgência. Miledi acabara de declarar que deixaria de seguir as ordens da família Reisen. Afinal, viver como indivíduo significava descartar os ideais da família.

Colt suspirou, e assim seus soldados começaram a aclamar:

— É uma pena perder o poder que sua magia antiga nos ofereceu, mas um galho podre deve ser cortado para que não afete a árvore inteira. Eliminem-na. — Até o fim, Colt nunca tratou Miledi como sua filha.

Miledi abraçou o corpo de Belta e fortaleceu sua determinação. Lembrando-se de como sua amiga sempre sorria, ela sorriu para Colt.

Foi um sorriso forçado e disforme, mas Colt e os outros nunca tinham visto nem um pouco de seu sorriso antes, e eles hesitaram.

Miledi olhou para baixo e falou com um tom carregado de emoção:

— Me eliminar? Gostaria de os ver tentar. — Não havia como voltar atrás depois disso.

O sol já havia se posto há muito tempo e a noite cobria o céu.

Depois que terminou sua história, Miledi ficou em silêncio por um tempo.

— Depois disso, destruí a família Reisen e libertei os camaradas de Bel, os Libertadores. Eles são da mesma organização à qual pertenço hoje. Muita coisa aconteceu, sinceramente. Tive um desentendimento com uma freira de cabelos brancos enquanto tentava saber se os deuses eram realmente maus. Quase não escapei viva desse encontro. Depois, passei muito tempo treinando para que pudesse me vingar na próxima vez que a visse, salvei muitos outros Libertadores, protegi pessoas que vinham até nós, recrutei outros com os mesmos ideais que nós… até que certo momento me tornei a líder.

Miledi riu e Oscar lhe deu um olhar de soslaio. Embora ela sempre agisse animada, ele podia dizer que sua determinação era inquebrável. Ela não vacilaria, mesmo que tivesse de lutar contra Ehit em pessoa. Os acontecimentos que construíram sua determinação foram tão difíceis que Oscar não sabia o que dizer.

Ela olhou para ele, com seus olhos claros como a nascente de uma montanha.

— Bel dizia a verdade, então tenho andando todo esse tempo à procura de camaradas que me ajudarão a lutar contra o mundo. Camaradas fortes o suficiente para lutar em pé de igualdade comigo. — Ela repetiu as mesmas palavras que dissera na primeira vez que o encontrou. — E agora finalmente te encontrei. — Silêncio. Miledi pôs para fora tudo para ele. Tudo o que restava era esperar pela resposta de Oscar.

Oscar ajustou os óculos, escondendo sua expressão.

— Miledi.

— Eu.

Oscar recusou encontrar seus olhos, como se isso enfraquecesse sua determinação. Ele parou por um momento.

— Eu… não posso ir com você.

— Ah… — Ele reparou que Miledi apertou firmemente as mãos.

— Assim como aquela garota era importante para você, minha família é importante para mim. Ainda que o que diz seja verdade, não posso me dar ao luxo de envolvê-los nisso. — Oscar se levantou, o que fez Miledi suspirar.

— Não quero mais ser visto com você. Por favor, tente entender.

Oscar deu as costas para Miledi e foi embora. Uma clara rejeição.

— En-Então, posso vir te ver quando não tiver ninguém por aí amanhã?

Oscar parou. Ele lutou para controlar suas emoções e respondeu desalentadamente para ela:

— Por favor, não se aproxime de mim nunca mais. — Ele voltou a andar.

Ele não ouvia passos o seguindo, aqueles com os quais ficara bastante acostumado nos últimos dias.

Oscar ficou em silêncio pelo resto da caminhada. Seus passos estavam pesados, e ele deu uma longa volta no caminho do orfanato.

Honestamente, ele só queria ficar sozinho. Ele disse a si mesmo mil vezes que tinha feito a decisão correta, que manter sua família segura era o mais importante. Contudo, ele não conseguia expulsar a voz em sua cabeça que não parava de lhe dizer: “Você realmente queria ajudá-la, não é?”.

Você realmente não quer usar seus poderes ao máximo? Você realmente não quer ajudar as pessoas que precisam de você com sua capacidade? Por que nasceu com esse poder? Para que pudesse viver sua vida o escondendo? Você realmente tem coragem de abandoná-la?

— Cale-se! — gritou Oscar com a voz em sua cabeça.

Ele continuou se remoendo sobre sua decisão, e antes que percebesse ele estava na mesma rua que o orfanato. Ele sabia que deveria parecer suspeito ficar murmurando consigo mesmo no escuro.

— Foi melhor assim. — Mesmo que os deuses fossem maus, mesmo que os humanos fossem apenas peões em seu jogo de tabuleiro perverso, era melhor viver a sua vida como uma pessoa normal do que se tornar efetivamente um terrorista e lutar contra eles.

Se sua família fosse posta em perigo por causa dele, ele sabia que se arrependeria para sempre.

Esse foi o motivo pelo qual fez essa escolha.

Ele repetiu isso a si mesmo incessantemente, tentando se acalmar.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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