Arifureta – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 7 de 18)

— Hã? O que houve? — perguntou Shea, claramente confusa. Mas depois ela deslizou para frente alegremente e então abraçou a cintura de Hajime. Ao contrário de Yue, Hajime nem reparou e ligou Steiff indiferentemente. Ele definitivamente nem notou os peitos de Shea se pressionando contra suas costas. Esse era um fato inegável.

Inconsciente da turbulência em seus corações, Shea olhou inquisitivamente por trás do ombro de Hajime e fez uma pergunta:

— H-Hmm… Eu estive tão focada em conseguir a ajuda de vocês que esqueci de perguntar, mas… o que é essa coisa? É algum tipo de carruagem? Além disso, Hajime-san e Yue-san, vocês dois usaram magia antes, não é? Pensava que não se podia usar magia dentro do desfiladeiro…

— Te explicarei no caminho.

Isso foi tudo o que Hajime disse antes de afundar o pé no acelerador de Steiff, os transportando em alta velocidade pelo desfiladeiro. Shea soltou um grito aterrorizada enquanto observava a moto avançar sem esforço pelo terreno acidentado. As paredes do cânion aceleravam enquanto percorriam pelo desfiladeiro.

Shea tinha fechado firmemente os olhos durante a primeira parte da viagem, mas seu medo começou lentamente a dar lugar a emoção quando se acostumou com a velocidade de Steiff. Toda vez que Hajime fazia uma curva ou desviava de um pedregulho ela deixava escapar um grito de entusiasmo, uma vez que finalmente ganhou coragem de abrir os olhos e tudo mais.

Pelo caminho, Hajime explicou brevemente o que Steiff era, como Yue poderia usar magia dentro do desfiladeiro e que suas armas eram algo semelhantes aos artefatos. No momento em que tinha acabado sua explicação, Shea ficou boquiaberta de surpresa.

— C-Calma… isso quer dizer que vocês dois também podem controlar mana diretamente e utilizar magia especializada?

— Aham, podemos.

— …É.

Shea olhou com espanto para eles por alguns segundos antes de subitamente enfiar o rosto no ombro de Hajime, e subsequentemente desatar a chorar.

— …O que foi agora? Primeiro fica toda animada, depois fica deprimida e agora está chorando… Você é só um polo de emoções, não é? — disse Hajime.

— …É tarde demais para salvá-la? — acrescentou Yue.

— O que quer dizer com tarde demais para me salvar? Me salvar do quê? Pois saiba que sou uma garota perfeitamente normal… Fiquei tão contente em descobrir… em descobrir que não estou sozinha…

— ……

Ela deveria ter se sentido terrivelmente sozinha ao pensar que era a única pessoa no mundo com o mesmo poder que um monstro.

Obviamente, sua família deve ter a cuidado com muito amor já que se dispuseram a escondê-la por dezesseis anos e até mesmo abandonar seu lar por ela. Todavia, apesar disso tudo, ou talvez precisamente por causa disso, Shea sempre estivera atormentada com o fato de ser diferente de todos, o que levou a sua solidão.

As palavras de Shea devem ter ressoado em Yue, já que ela de repente mergulhou profundamente em pensamentos. E embora fosse um pouco, seu rosto inexpressivo ficou ainda mais pálido do que o habitual. De certa forma, Hajime conseguia entender o que ela estava pensando. Uma grande chance era que Yue viu boa parte de si mesma em Shea. Ambas tinham a capacidade de usar magia especializada e controlar mana diretamente, e nenhuma delas tinha alguém que poderia chamar verdadeiramente de “camarada” antes.

Contudo, havia uma diferença óbvia em suas circunstâncias. Yue não tinha nem mesmo uma família que a amava. Ela não estava exatamente com inveja de Shea por assim dizer, mas ainda havia um monte de sentimentos complicados se agitando dentro dela. Além disso, Shea conseguira encontrar seus camaradas muito antes do que Yue. Na perspectiva de Yue, Shea deve ter sido bastante abençoada.

Hajime afagou suavemente a cabeça de Yue. Para Hajime, que nascera no pacífico país do Japão e cresceu com o amor de ambos os pais, era impossível compreender verdadeiramente o desespero que Yue devia ter sentido não só por ser a única de sua espécie, mas também ser forçada a assumir o solitário título de rainha. Por isso ele não sabia o que dizer a ela. Tudo o que podia fazer por ela era lembrá-la de que não estava mais sozinha.

Ele podia ter se transformado naquele labirinto, mas ainda tinha o suficiente do seu antigo eu restando para se lembrar de ser gentil com as pessoas próximas. E o único que preservara essa sua humanidade era ninguém menos que Yue. Se não tivesse encontrado Yue, certamente não haveria nada de humano sobrando nele. Assim, Yue era atualmente o único pilar de apoio restando de Hajime. Como prova, a única razão pela qual Hajime planejava cumprir a sua promessa com Shea era por causa dela. Ele estava até mesmo pronto para reagir contra o império se começassem visar o clã Haulia.

Embora as tentativas de Hajime em reconfortar Yue eram muito desajeitadas, seus sentimentos sinceros atravessaram para ela, e ela relaxou a tensão que não percebeu que mantinha e se encostou para trás no colo de Hajime. Ela era como um gato querendo ser acariciado pelo seu dono.

— Humm, se esqueceu de mim outra vez? Não devia estar dizendo algo como “Deve ter sido bastante difícil para você, ficar sozinha esse tempo todo. Mas está tudo bem agora, porque estou ao seu lado”, ou coisa assim? Estou claramente deprimida nesse momento, então não devia estar me animando? Essa é a oportunidade mais fácil de ganhar créditos com uma garota. Mas não, você vai e ignora essa chance perfeita e começa a flertar com outra pessoa. Vocês estão começando a me fazer se sentir solitária! Me deixe participar também! Além disso, vocês dois…

— Cale a boca, sua coelha imprestável!

— …Está bem… Hic…

Shea começou a gritar de repente nos ouvidos de Hajime com uma voz chorosa, mas foi rapidamente silenciada por Yue e Hajime. Mas, para ser sincero, era muito cruel os dois continuarem flertando enquanto havia uma garota chorando sentada atrás deles. Ainda pior, ficaram com raiva quando ela estava bem dentro do direito de ficar brava com eles. Contudo, a única característica redentora de Shea era sua resistência. Ela já mudara mentalmente para um novo objetivo. Isso foi o quão rápido ela se recuperou do fracasso. Certo, primeiro vou falar para eles me chamarem pelo meu nome. Finalmente encontrei os camaradas que procurava, então não vou deixá-los escaparem assim tão fácil!

Eles continuaram assim por um tempo, alternando entre Shea ficando barulhenta, e Yue e Hajime gritando com ela para calar a boca, até que finalmente ouviram o rugido de monstros ao longe. Vários deles de fato.

— Ah! Hajime-san, estamos quase onde todos estão esperando! O uivo desses monstros deve significar que… e-eles estão perto! Pai e os outros estão muito perto!

— Pare de gritar nos meus ouvidos! Consigo te ouvir muito bem. Vou acelerar agora, então segure firme.

Hajime verteu mais de sua mana em Steiff, acelerando ainda mais. As paredes do cânion se fundiam em um borrão cinza enquanto aceleravam a uma velocidade incrível.

Havia tanta mana indo para Steiff que a moto toda brilhava em carmesim. Levou apenas trinta segundos para chegarem à fonte do uivo. Hajime fez uma última curva, derrapou em torno de um pedregulho e viu vários homens-coelho sendo atacados por um grupo de monstros.

Gritos de terror ecoavam ao longo do Desfiladeiro Reisen. Os homens-coelho estavam todos correndo para se esconderem atrás de pedregulhos ou se enfiarem em fendas. Uma série de orelhas de coelho podiam ser vistas brotando por detrás de várias pedras. Do que Hajime poderia perceber, havia cerca de 20 pares. Ao todo, parecia que havia cerca de 40 pessoas correndo.

Aterrorizando-os de cima estava um grupo de monstros voadores, uma raça que era rara até mesmo nas profundezas do abismo. Eles lembravam as serpes comuns em jogos de fantasia. Seus corpos tinham em torno de três a cinco metros de comprimento e garras afiadas guarneciam suas pernas como os espinhos de uma estrela da manhã. Suas caudas também eram espinhadas.

— H-Hivérias… — disse Shea com a voz trêmula. Parecia que aqueles raptores serpizentos eram chamados de Hivérias. Havia seis delas no total. Nesse momento elas estavam sobrevoando bem acima dos homens-coelho, como se estivessem avaliando suas presas.

Por fim, uma delas decidiu agir. Ela mergulhou na direção de um dos pedregulhos onde alguns homens-coelho se escondiam, dando uma cambalhota no meio do ar e mandando sua cauda bater com tudo na pedra com toda a força da gravidade por detrás. Com um impacto ensurdecedor, o pedregulho foi destruído em pedaços e gritos ecoaram dos indivíduos expostos enquanto corriam para longe o mais rápido possível.

Cansado de esperar, a Hivéria abriu amplamente sua mandíbula, tentando comer o mais lento dos coelhos. Mais especificamente, dois deles. Uma das pernas da criança mais nova desabou e um dos homens ficara para trás para tentar protegê-la.

O desespero cintilou nos olhos de todo mundo. Todos pensaram que ambos estavam condenados a ser alimento da Hivéria em alguns segundos. Todavia, alguém que chegara não permitiria isso.

O monstro do abismo tinha dado sua palavra que os protegeria, então protegê-los ele iria. Bum! Bum! Dois disparos repercutiram pelo desfiladeiro. Ao mesmo tempo, duas linhas carmesins de tiro atravessaram o céu. A primeira passou sem problemas entre as sobrancelhas da Hivéria que tentava comer o par de homens-coelho. Sua cabeça explodiu em milhares de pedaços de carne, e o seu corpo guinou ao lado do grupo encolhido quando caiu no chão, levantando uma nuvem de poeira no caminho enquanto deslizava pelo cânion.

Junto a isso houve um uivo assustador atrás deles. Sem ter ao menos o tempo para processar o que aconteceu, os homens-coelho se viraram para a fonte desse novo ruído para ver que outra das Hivérias tivera sua garra destroçada. De alguma forma ela tinha conseguido se esgueirar bem atrás do par encolhido de homens-coelho.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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