DCC – Capítulo 119

Cabelo e maquiagem

 

— Eu não consigo lidar com isso! A pressão é muito grande! — eu reclamei quase batendo os pés.

— Você consegue. Pense apenas no objetivo final. Essa é uma etapa bastante importante, — Isabel me disse, tentando me acalmar.

— Mas eu não quero mais fazer isso dessa forma! — eu reclamei de novo exasperada. — Parece tão errado!

— Alésia Latrell! — Márcia chamou com a expressão séria e pondo as mãos no quadril. Ela tinha uma pose tão vigorosa que eu só pude parar de fazer birra e olhar pra ela. — Foi você quem nos trouxe aqui. E você é o ponto alto do nosso plano. Já que você já tinha concordado desde o início, não é bom voltar atrás. Você está apenas fazendo todos perderem um tempo precioso.

— Uau… esse é exatamente um discurso que eu achei que Isabel faria, e não você… — eu disse um pouco impressionada.

— Então você precisa que eu diga? — Isabel ralhou quase zangada. — Pare de fazer drama e deixe a moça fazer o trabalho dela! Não tem nada de errado em cortar alguns centímetros de cabelo!

Eu estava cercada. Realmente não tinha escolha. Desde que eu tinha vindo para Keret a primeira vez, abduzida pelo poder da Relíquia da Criação, eu nunca mais tinha cortado meu próprio cabelo. Ele já tinha passado do comprimento dos quadris há muito tempo, mas infelizmente as pontas estavam bastante ressecadas e desincertas. Para fazer um penteado de qualidade para o festival, as funcionárias solicitaram um corte de pelo menos 30% do comprimento. Caramba! 30%!!!

Eu adorava o fato de ter o cabelo comprido. Eu nunca poderia ter tido em Sátie. E eu amava a forma como ele voava ao meu redor quando eu viajava pelo ar, ou mesmo quando a eletricidade saía da minha pele e ele se arrepiava exageradamente, quase parecendo um cesto de cobras cor de ferrugem.

Eu olhei tristemente para as pontas arruinadas pensando em cada momento difícil que passamos juntos desde que comecei a deixar meu cabelo crescer. Era a única coisa que eu tinha que ainda me lembrava que eu era uma reles Brard mortal, que teve a “sorte” de ganhar a juventude eterna.

— Vamos. Pare de criancice, — Henry disse, sentado em um canto parecendo que não estava prestando atenção no meu drama particular, enquanto eu era coagida pelas minhas amigas e as funcionárias do spá. — Se você precisa de um pouco de apoio moral, eu também cortarei o meu.

Todos lá ficamos parados, pasmos. Henry tinha um rosto redondo, fofo, jovial e extremamente bonito, adornado por um cabelo muito preto, suave preso em um rabo de cavalo, cabelo esse que quando solto, também flertava bastante com a estática e ficava parecendo uma nuvem preta e macia. Nesse momento em particular, ele estava com a barba por fazer, o que dava um visual meio estranho nele, mas ainda agradável. Porém, só de ouvir ele falar que cortaria os cabelos, mesmo a atendente deu um passo para trás.

— Não! Você não pode fazer isso! — Isabel disse exasperada.

— Quer dizer! Olhe pra você! Já não é tão perfeito? — Márcia praticamente cuspiu as palavras.

— Quem se atreveria a cortar os majestosos cabelos de Henry Siever? — A atendente segurava as próprias bochechas enquanto balançava de um lado para o outro sem ter coragem de encarar Henry.

— Não… eu já me decidi, — Henry disse sem parecer notar a pequena comoção que tinha causado e ainda absorto no que quer que ele estivesse vendo pelo Link pessoal dele.

Eu engoli em seco. Ninguém melhor do que Henry entendia como eu me sentia sobre meu cabelo. Eu sabia que ele tinha deixado crescer por mim, e sabia também que ele tava cortando por mim.

— Ok então. Que corte meu cabelo. Mas que não tire um centímetro sequer a mais do que o que for estritamente necessário.

Michelly e Amelie estavam na outra sala, já sendo preparadas pelas maquiadoras. Eu acabei atrasando o cronograma de todas fazendo esse drama “desnecessário”. Mas ainda sentia uma pontada de perda ao sentir meu cabelo ser cortado. Quando a atendente terminou, o comprimento ainda batia um pouco acima dos meus quadris, o que ainda era cabelo pra caramba.

Ela rapidamente me transferiu para a próxima funcionária que imediatamente tratou de transformar meus cabelos soltos em uma massa ordenada de fios conhecida como “penteado”. Henry também tinha escolhido esse, como escolheu o primeiro que usei. Era até bem bonito, um pouco extravagante demais, mas realçava bem o meu rosto.

Quando o cabelo estava pronto, me passaram para a sala seguinte, onde Amelie e Michelly já esperavam lindamente maquiadas.

— Mamãe! Seu cabelo está magnífico! — Amelie disse deslumbrada.

— O seu também está muito lindo, minha flor! — eu respondi para ela um pouco vermelha. Era um tanto constrangedor ser chamada de mãe por ela, sendo que eu evidentemente era bem mais nova, sem considerar o fato de que eu era uma Brard e ela uma Jomon, mas a maquiadora que me esperava na sala foi extremamente profissional e apenas me recebeu com um sorriso padrão no rosto, como se não tivesse ouvido nada.

Pouco depois Márcia entrou na nossa sala com o cabelo pronto, e a maquiadora já estava terminando quando chegou Isabel saltitando.

— Ah… você vai amar isso! — ela disse com o sorriso cheio de dentes.

— Sim… você está muito bem, — eu disse tentando ser com a reação exagerada dela ao penteado — você escolheu um ótimo modelo.

— Eu não, sua louca! — ela disse animada.

Quando eu me levantei com a maquiagem pronta e Márcia tomou o lugar para ser a próxima a ser atendida, Henry passou pela porta e entrou na sala em que estávamos. Ele não mandou fazer a barba. Tinha mandado aparar levemente, deixando uma textura curta e uniforme. De alguma forma, por mais que Emil se parecesse com ele, quando o olhei agora, eles não se pareciam nem um pouco.

Henry tinha cortado o cabelo. Curto. Bem curto. E por mais que eu odiasse admitir, ele tinha ficado com uma aparência tão mais… intensa. Como se ele parecesse ter ganhado mais alguns anos de maturidade física apenas trocando o corte de cabelo.

Eu fiquei apenas parada lá, olhando para ele, com a boca aberta. Ele se aproximou com um olhar sério, e lentamente estendeu a mão para o meu rosto, até chegar na altura da minha testa e me deu um peteleco.

— Pare de babar. Vai estragar sua maquiagem, — ele disse com um sorriso convencido no rosto.

Eu definitivamente me senti esquentar de vergonha dessa vez — apesar de que, ao mesmo tempo que ele falou para mim, todas as outras pareceram ter saído do mesmo “transe” estranho que estávamos. Caramba! Ele estava lindo! Que merda de corte de cabelo milagroso foi esse?

— Se apressem, e terminem. Ainda temos que nos vestir. Vamos nos encontrar com Briane na entrada do palácio, e talvez precisemos correr para chegar na hora marcada.

Ele disse estragando completamente com o clima.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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